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Um ponto fundamental da atividade jornalística é a definição do que, na multiplicidade de acontecimentos no mundo, pode ser considerado notícia e, portanto, do que o jornalismo entende como relevante e do nível de relevância que as notícias ganham nos jornais. A rotina da profissão e a visão de mundo (os valores, as representações, as crenças) do profissional orientam o processo de seleção e de construção que é a produção da notícia.

É o que Bourdieu (1997) chama de “óculos especiais”, a partir dos quais o

jornalista enxerga o que é notícia, o que podemos relacionar ao conceito de noticiabilidade, definida por Gislene Silva (2005),

como todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo de produção da notícia, desde características do fato, julgamentos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, condições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, qualidade do material (imagem e texto), relação com as fontes e com o público, fatores éticos e ainda circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais (SILVA, 2005, p. 96).

A autora aponta três instâncias de critérios: 1) na origem dos fatos (a seleção primária, os valores-notícia); 2) no tratamento dado aos fatos de acordo com os aspectos da rotina jornalística (hierarquização, formato do produto, qualidade do material, tipo de linguagem); e 3) os fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do jornalismo, ligados às noções de verdade, objetividade, imparcialidade e interesse público. Essas instâncias não atuam sozinhas, e a soma delas é o que se trata por noticiabilidade.

A ideia de seleção, segundo Silva (2005), não pode ser vista apenas como a primeira etapa do trabalho jornalístico – ela permeia todo o processo de produção da notícia. Os critérios são compartilhados e interiorizados pelos profissionais e estritamente ligados à rotina produtiva: o jornalista os aplica de maneira quase automática e com pouca reflexão. Por esses motivos, não são considerados naturais ou neutros. Outra característica dos valores/notícia é que eles não funcionam isoladamente nem precisam ser aplicados todos de uma só vez, além de não serem igualmente relevantes. (SILVA, 2005; WOLF, 2002).

Há uma série de valores/notícia que, em diferentes combinações, orientam a definição feita pelos profissionais. Silva (2005) sistematizou aqueles que são mencionados na

literatura sobre o tema em doze categorias, relacionadas aos atributos e às características do acontecimento. Essa classificação está inserida no que a autora chama de macro- valores/notícia, que funcionam como pré-requisitos: atualidade, interesse, importância, negativismo, imprevisibilidade, repercussão e coletividade. As doze categorias estão exemplificadas a seguir:

1) impacto: número de pessoas envolvidas e afetadas, grandes quantidades de dinheiro;

2) proeminência: notoriedade, celebridade, posições hierárquicas, heroísmo; 3) conflito: guerra, rivalidade, greves e reivindicações;

4) entretenimento/curiosidade: aventura, divertimento, esporte, comemoração; 5) polêmica: controvérsia, escândalo;

6) conhecimento/cultura: descobertas, invenções, pesquisas, religião, atividades culturais;

7) raridade: incomum, original;

8) proximidade: geográfica ou cultural; 9) surpresa: inesperado;

10) governo: eleições, pronunciamentos, interesse nacional, decisões e medidas; 11) tragédia/drama: catástrofes, crimes, acidentes, desastres naturais; e

12) justiça: julgamentos, denúncias, investigações, crimes, etc.

Mauro Wolf (2002) aponta critérios que não estão relacionados a atributos dos acontecimentos. São eles: qualidade do material, imagens disponíveis (principalmente no caso da televisão), formato do produto jornalístico, tempo e/ou espaço disponíveis (para a transmissão ou na página do jornal), a concorrência (a busca pelo furo, por exemplo). Percebemos, portanto, que, apesar de parecer automática, por ser interiorizada pelos profissionais, a definição do que é notícia não é simples.

Ao selecionar os acontecimentos que consideram mais relevantes, os meios de comunicação são responsáveis, ao menos em parte, por definir quais questões entram na pauta de discussões da sociedade e a prioridade dada a elas. É o que diz a teoria do agenda- setting. Os procedimentos rotineiros de seleção e hierarquia da atividade jornalística indicam ao público sobre o que pensar, ainda que o jornalista busque evitar manifestações de subjetividade no texto (ALSINA, 2009; MCCOMBS, SHAW, 1972; SHAW, 1979; WOLF, 2002).

A teoria do agenda-setting diz que por causa de jornais, televisões e outros news media, as pessoas ficam cientes ou não, prestam atenção ou negligenciam, ampliam ou reduzem o destaque a questões específicas da cena pública. As pessoas tendem a incluir ou excluir cognitivamente o que os media incluem ou não em seu conteúdo. As pessoas também tendem a atribuir uma importância para o que eles incluem que se assemelha de perto com a ênfase dada a eventos, assuntos e pessoas pelos meios de comunicação de massa18 (SHAW, 1979, p. 96, tradução livre).

Vale ressaltar que o público não segue os moldes propostos pelos meios. Como debatemos ao longo desse capítulo, cada indivíduo é influenciado de maneira diferente, dependendo de conhecimentos anteriores, do contexto cultural em que está inserido e das representações sociais circulantes e produzidas nos grupos dos quais ele faz parte. Maxwell McCombs (2005) aponta, por exemplo, que a influência do que é apresentado pela mídia depende também da necessidade de orientação que o indivíduo tem sobre determinados assuntos. Há ainda uma variedade de agendas em diferentes veículos de comunicação, de áreas diversas. Mesmo assim, é mais provável que a visibilidade gerada pela presença nos meios de comunicação coloque em pauta certos acontecimentos e atores sociais em detrimento de outros.

Entre os diferentes veículos e meios de comunicação, há também uma relação em que um pauta o outro. Ou seja, além de influenciar a agenda pública, o jornalismo influencia também a própria agenda, o que está relacionado ao valor/notícia da concorrência, identificado por Wolf (2002). Os jornais não querem receber críticas do público por não abordar um acontecimento que foi noticiado por outros veículos. É o que Alsina (2009) caracteriza como redundância do sistema de mídia, um eco.

Isso não quer dizer que os acontecimentos recebam o mesmo tratamento. Veículos de comunicação seguem linhas editoriais diferentes, empregam jornalistas diferentes. Em termos de agendamento, porém, para Alsina (2009), os media tratam sempre dos mesmos assuntos:

Mesmo que cada meio de comunicação, de acordo com a sua política editorial, nos ofereça uma visão diferenciada dos assuntos, esses assuntos abordados pelos diversos meios de comunicação são praticamente os mesmos, e assim criamos essa imagem de uma única realidade. Mas se analisarmos o comportamento comunicativo, não o da mídia, mas o dos indivíduos, precisamos dizer que a mídia é

18Texto no original: “The agenda-setting theory says that because of newspapers, television, and other news

media, people are aware or not aware, pay attention to or neglect, play up or downgrade specific features of the public scene. People tend to include or exclude from their cognitions what the media include or exclude from their content. People also tend to assign an importance to what they include that closely resembles the emphasis given to events, issues, and persons by the mass media”.

apenas um só, talvez o mais importante dos meios de comunicação, dos possíveis canais aos quais o indivíduo tem acesso (ALSINA, 2009, p. 66).

Aliado ao agenda-setting, o enquadramento é outro conceito comum nas pesquisas em jornalismo. Segundo Robert Entman (1993), enquadrar, seja inconscientemente ou não, também é parte das operações de seleção que resultam no texto jornalístico. Nesse processo, alguns aspectos da realidade são realçados, em detrimento de outros.

Enquadrar é selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e torná-los mais salientes em um contexto comunicativo, de maneira a promover uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma avaliação moral e/ou uma solução recomendada para o item descrito (ENTMAN, 1993, p. 52).

É um conceito que trata de cognição, similar às representações sociais de Moscovici e aos mapas mentais de Stuart Hall. Enquadramentos são esquemas que facilitam a interpretação da realidade e só podem ser entendidos porque recorrem a imagens e valores socialmente compartilhados – são molduras de sentido em uma perspectiva específica. Ou seja, o enquadramento é também visto como uma forma de categorização. Os profissionais de comunicação lançam mão de frames (ou de representações sociais), que se manifestam no texto por meio de imagens estereotipadas e de palavras-chave, por exemplo. Os frames que guiam a produção da notícia podem não ser os mesmos que guiam o leitor, e não se pode falar numa influência universal sobre a audiência (ENTMAN, 1993; MENDONÇA, SIMÕES, 2012).

Por meio das discussões sobre critérios de noticiabilidade, agendamento e enquadramento, também percebemos como o jornalismo participa da construção social da realidade: como a notícia pressupõe importância, o público entende que aqueles acontecimentos divulgados são parte da realidade que deve ser considerada relevante por ele. Ao visibilizar alguns acontecimentos, porém, os jornais acabam por esconder outros, o que é inevitável.

Benzer Belgeler