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A categoria de infraestrutura e mobilidade traz 41 textos no total. Alguns deles mostram que a capacidade de Fortaleza para receber os megaeventos, no aspecto infraestrutural, era motivo de dúvidas, o que é também uma preocupação com o modo pelo qual a cidade seria vista pelos visitantes. Isso ocorre no Diário do Nordeste principalmente no início, como mostram as notícias Mobilidade e segurança preocupam, de 8 de junho, e A Copa de 2014 fora da Arena Castelão, de 12 de junho. A primeira notícia traz um levantamento feito com empresários, por uma empresa de consultoria, sobre as oportunidades e os desafios trazidos pela Copa:
Conforme o levantamento feito pela consultoria Gomes de Matos, fatores como a deficiência da segurança pública e da mobilidade urbana estão entre as principais preocupações dos representantes de estabelecimentos. [...] O segundo fator mais
citado foi a infraestrutura deficiente da cidade para receber quem vier à Capital cearense.
Uma das reportagens de O Povo, do dia 11 de junho, é Como estão os lugares que os turistas vão ou deveriam ver em Fortaleza, que tem como foco o estado dos pontos turísticos da capital, principalmente no centro da cidade. O gancho é o turismo para a Copa, mas o descaso cotidiano é criticado – segundo o jornalista, ele ficou evidente justamente por essa preocupação com o que o turista verá na cidade.
Com o andamento da competição, porém, as dúvidas sobre a capacidade da cidade saem do foco dos jornais e os aspectos negativos são mencionados com menor frequência no corpus analisado. Os próprios protestos organizados não aparecem mais nos jornais, à medida em que perdem importância. Em uma das últimas reportagens do corpus (Copa do Mundo também deixa herança imaterial, de 15 de julho), é tornado evidente, na própria fala do jornal, a transformação da descrença inicial na certeza da competência de Fortaleza. A Copa é percebida e apresentada, nesse caso específico, de forma exclusivamente positiva:
Torcedores do Ceará e Fortaleza em clima de congraçamento e respeito durante os jogos da Copa do Mundo na Capital; os moradores nas ruas, "reconquistando" a sua cidade; o convívio e generosidade entre as nacionalidades nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nos espaços de relações entre as pessoas e, sobretudo, a volta da confiança de que a cidade está preparada não só para promover grandes eventos, como também para levar adiante formam o legado imaterial do Mundial para a cidade (grifo nosso).
As notícias do período após a Copa (terceira semana de julho; a final ocorreu no dia 13/07) são poucas: três no Diário do Nordeste, todas com foco positivo, no legado imaterial e no bom funcionamento dos atendimentos de saúde, e duas em O Povo, com foco negativo, sobre o atraso das obras e a violência em junho. Isso não significa dizer que o pós- Copa foi apenas elogioso no Diário – a data de coleta coincidiu com o último dia de uma série sobre o legado do megaevento; outros aspectos foram abordados na série, mas os textos que entraram no corpus têm um viés predominantemente positivo.
É possível entender os megaeventos como catalisadores de renovações urbanas, mas isso indica também que as intervenções não são realizadas tendo como prioridade o cidadão local, mas sim os visitantes. Nem sempre são necessárias grandes obras para o bom funcionamento infraestrutural da cidade, mas o jornal O Povo associa mesmo as pequenas mudanças ao megaevento. No trecho abaixo, de Reparos em avenidas continuam na semana
da Copa, de 10 de junho, o uso do termo “ações simples” pode ser interpretado como um
questionamento: se são simples e eficientes, poderiam ter sido realizadas antes. O questionamento é também, na fala da moradora, sobre o esquecimento e a falta de manutenção cotidiana. Aproveita-se a Copa para cobrar do poder público o seguimento de ações que deveriam e poderiam ter sido colocadas em prática sem ela.
Nas avenidas que levam à Arena Castelão e nos acessos entre o Aeroporto Internacional Pinto Martins e a Praia de Iracema, o fortalezense tem visto vias com sinalização horizontal mais aparente, asfalto recapeado e canteiros reformados ou pintados. Ações simples do poder público e que chegaram com mais frequência no último mês em preparação para a Copa do Mundo 2014. […] “Por que a cidade não tem sempre essa manutenção?”, questiona a aposentada Suzete Silvestre, 61, ao observar os serviços de tapa-buracos na avenida Silas Munguba [antiga Dedé Brasil, via de acesso ao Castelão], na manhã de ontem. Para ela, que costuma frequentar a Parangaba e a Serrinha, os espaços da Capital passam muito tempo sem reparos (grifo nosso).
O preparo da cidade também é questionado em outros momentos, mas aspectos da infraestrutura e, principalmente, os esquemas especiais de trânsito e de estacionamento são elogiados, tanto por torcedores quanto pelos jornais, e vistos como necessários. O atraso das obras de mobilidade urbana (em especial do VLT) pouco aparecem – é citado quatro vezes por O Povo e nenhuma pelo Diário.
Já próximo ao fim da Copa em Fortaleza, O Povo publicou a reportagem 10 obras prometidas para a Copa estão fora do prazo, no dia 3 de julho84, um balanço das obras de mobilidade que trata de prazos e de investimentos. As obras pararam durante o megaevento – segundo o texto, para não atrapalhar o trânsito – e enfrentaram outros problemas, como a falta de proteção ao que já havia sido construído. Esse tipo de texto faz parte do papel de fiscalizador que o jornalismo pretende cumprir.
Ainda que as obras prometidas não tenham ficado prontas a tempo, isso não parece ter afetado o andamento da Copa do Mundo. Em outras oportunidades, as intervenções estruturais são lembradas como o legado positivo, como mostram os trechos abaixo (respectivamente, O que a cidade está aprendendo com o mundial, 25 de junho, O Povo, e
“Investimento humano e social é o maior legado do mundial”, de 15 de julho, uma entrevista
com a Secretaria Especial da Copa no Diário do Nordeste).
O termo “aprendendo” do primeiro título revela que há questões que a cidade não
consegue sozinha e precisa de ajuda externa para realizar. No trecho dessa matéria, a crítica
sobre os espaços beneficiados e a execução de obras consideradas simples apenas para a Copa e não regularmente é mais explícita e feita na própria voz do jornal, sem precisar recorrer a discursos diretos. O jornal assume a crítica, mas faz também um juízo de valor sobre o mundial e determina a opinião da população, logo nas primeiras frases. A linguagem escolhida também beira a informalidade e a opinião explícita, o que pode ser percebido pelo
uso do adjetivo “inegável”, pouco comum em textos informativos:
A maioria da população está se divertindo com o Mundial. Isso é inegável. Mas há um ranço quando as pessoas lembram que os pequenos e importantes cuidados com a Cidade poderiam ser executados não apenas durante, mas antes e depois do torneio – além de serem levados para as áreas periféricas de Fortaleza. A realização do Mundial trouxe uma preocupação maior com a mobilidade urbana e consciência para a população, que passou a reivindicar pela melhoria dos serviços básicos. [...] Mário Azevedo, professor do Departamento de Engenharia de Transporte da Universidade Federal do Ceará (UFC), dialoga com esse pensamento: “não acho que exista um legado negativo. Existem legados atrasados. Com a ‘desculpa’ da Copa, foi investido um montante bem maior em obras de mobilidade. Elas não ficaram prontas a tempo, mas acho que ficarão. Essas obras serão boas para quem visita Fortaleza, mas são necessárias para quem mora aqui”.
O que a senhora destaca ainda como positivo?
As obras também transformaram o humor das pessoas. As intervenções urbanísticas, a prioridade pelo transporte público, as faixas preferenciais de ônibus que serão ampliadas resultam em maior movimentação, menor tempo entre os percursos, isso é melhora na qualidade de vida. A imagem de Fortaleza foi ainda mais positiva para todo o mundo e isso gera turismo.
Nesses trechos, temos as falas de uma fonte especialista e de uma fonte oficial, que concordam entre si e reforçam o discurso tradicional das intervenções estruturais como legado, utilizado para justificar a realização dos megaeventos esportivos. O atraso é minimizado no primeiro texto e nem chega a ser mencionado no segundo – afinal, não interessa ao governo relembrar os próprios equívocos. O Povo, principalmente, alterna momentos de crítica e de elogio à cidade, aos governantes e à Copa, e não constroi, portanto, um discurso unicamente positivo ou negativo. O Diário traz mais textos elogiosos à cidade e à Copa.
No segundo caso, as respostas da entrevistada não foram questionadas em nenhum momento: foram citados apenas aspectos positivos, mesmo nas perguntas85. Em
85
É provável que o jornalista tenha ido à entrevista com as perguntas já definidas. São elas: Qual o maior legado deixado pela Copa do Mundo para a Capital cearense?; A respeito das parcerias entre os vários órgãos e a iniciativa privada, a senhora acredita que esse trabalho possa continuar?; Quais os números da Fan Fest e qual o
outro trecho, a secretaria afirma: “A cidade se preparou para o evento sem improvisações ou jeitinhos”, o que contradiz o que foi publicado pelo próprio Diário, poucos dias antes do
início da Copa. É, portanto, um texto que aceita passivamente o discurso oficial, sem mostrar contrapontos à fala da secretaria – quase um release de assessoria de imprensa ou um texto publicitário, o que vai de encontro à prática jornalista. É também por meio de matérias assim que os governantes conseguem a adesão ao modelo de gestão que defendem e aplicam na cidade.
A frase escolhida para virar título da entrevista já se traduz em um desvio do que
seria considerado o “maior legado” da Copa do Mundo. As principais consequências, na verdade, seriam essas temporalidades: a festa e a “troca cultural”, legados não palpáveis nem possíveis de medir, além do tão falado turismo. Para a entrevistada, os turistas “visitaram a cidade”, mas entendemos que essa Fortaleza visitada é a das rotas turísticas oficiais. Ela menciona também uma “integração com a população”, que não é destrinchada. Mais adiante,
veremos formas distintas da relação entre os turistas e os cidadãos, uma que vale para a convivência na avenida Beira-Mar e outra que corresponde à relação com os moradores do entorno do Castelão.
Recebemos 400 mil turistas que se encantaram com as nossas belezas. Eles não conheceram somente a Arena Castelão ou foram assistir os jogos ou shows na Fan Fest. Eles visitaram a cidade, se integraram com a população, torceram e se divertiram. Essa troca cultural, esse enriquecimento entre os povos, ainda não temos a dimensão positiva que trouxe para a cidade.
Além do legado intangível, o discurso de renovação urbana e grandes obras como legado positivo é reproduzido pelos jornais, ainda que com críticas. Fortaleza é representada como uma cidade capaz de receber turistas e grandes eventos, mesmo com as dúvidas iniciais e os vários problemas cotidianos, que algumas vezes são minimizados. Os trechos citados também ajudam a comprovar a importância da infraestrutura básica na formatação da cidade- mercadoria – é preciso que a cidade seja funcional para que receba bem seus visitantes.