• Sonuç bulunamadı

3. NLP ve Tarihçesi

4.2. KiĢisel GeliĢimin Din Eğitimde Kullanılamayacak Yönleri

4.2.7. Tüketim Toplumu ve Ġsraf

Como vimos, as duas embarcações encontravam-se em péssimas condições sanitárias antes da concessão do asilo. As condições da Affonso d’Albuquerque haviam melhorado um pouco após o cruzeiro higiênico ao Cabo Frio. Porém, a situação de saúde da tripulação da !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

164

SÁ, 1894, vol. III, p. 190. [Nota n.54 de Augusto de Castilho para o Conselho do Almirantado de Portugal. 06.03.1894 – Doc. B].

165

Idem, ibidem, p. 192. [Nota n.54 de Augusto de Castilho para o Conselho do Almirantado de Portugal. 06.03.1894 – Doc. C].

Mindello era péssima. Além disso, esta corveta apresentava diversos problemas materiais

relacionados ao longo período de missões pela costa da África, assim como o longo tempo que estava estacionada na baía de Guanabara, onde acompanhou a crise da Revolta da Armada desde o seu princípio.

Assim, no dia 13 de março de 1894, após receberem os mais de quinhentos asilados brasileiros na Mindello e na Affonso d’Albuquerque, a situação a bordo desses dois navios se tornou desesperadora. A grande aglomeração humana causou problemas em atividades corriqueiras como manobras, refeições e limpeza, o que gerou apreensões em todos. O próprio encarregado de negócios de Portugal no Brasil, Conde de Paraty, comentou aquela situação inusitada quando visitou a Mindello no dia 14 de março:

Subo a bordo da Mindello, e com penosa surpreza encontro tudo na maior confusão: nem vi a guarda, se por acaso pôde formar, nem via quasi por onde andar, tudo atravancado com embrulhos, trôxas, gente sentada e deitada, e só a custo logrei desembaraçar-me do aperto, atravessar os grupos e descer ao camarote do commandante, sitio ainda respeitado. (PARATY, 1895, p. 58).

O registro dessas dificuldades também foi feito pelo aspirante Roberto de Barros, que anotou em seu diário, apenas dois dias depois de entrar na Mindello, que “passamos uma vida de cão aqui a bordo.”166 Também o vice-almirante Antônio Carlos de Souza e Silva apontou

em suas “reminiscências de um revoltoso” as lembranças daquele embarque na Mindello, quando ele era um Guarda Marinha de 20 anos de idade:

Nossa situação a bordo é tudo quanto ha de mais inconfortável; as duas corvetas portuguesas são navios pequenos, com parcas acommodações. Castilho, que tem sua esposa a bordo, partilha sua camara com o Almirante [Saldanha]; o Chefe Eliezer e mais seis officiaes superiores, e os feridos, são acommodados em camarotes e coberta abaixo. O resto fica amontoado no convés, á popa, num pequeno espaço; ahi ficamos todo o dia e dormimos, cobertos por uma grande vela do traquete. (SILVA, 1940, p. 310-311).

Mesmo com todas essas penúrias, a partir do momento em que as corvetas saíram do Rio de Janeiro e rumaram para o Rio de Prata, a esperança renasceu entre os asilados. O último combate da Revolta da Armada no Rio de Janeiro, o tão prometido e aguardado Dies

Irae, havia sido evitado.167 As anotações do aspirante Roberto de Barros refletem todo esse

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

166

COSTA, 1944, p. 296. [Anotação de 15 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros].. 167

Ver o editorial do periódico O Paiz, em 10 de marco de 1894, intitulado Dies Irae. Igualmente, ver a dedicatória feita por Joaquim Nabuco (1896), em seu livro A intervenção estrangeira na Revolta da Armada: “Ao Commandante da ‘Mindello’, Augusto de Castilho, que pela sua resolução prompta, sua firmeza inquebrantável, seu explendido desassombro e sua incomparável humanidade impediu o dia 13 de Março de

otimismo quando dizia “saudades e muitas saudades era o que levávamos das nossas famílias, todos, porém, alimentando a esperança de entrarem na mesma cidade, mas vitoriosos.”168 As

lembranças do vice-almirante Antônio Carlos de Souza e Silva apontam para o mesmo sentido: “Contamos recomeçar a lucta no Sul; isso nos reanima e, em breve, a alegria reponta em todos, na esperança de uma desforra”. (SILVA, 1940, p. 311).

Deste ponto em diante, nem mesmo as adversidades climáticas, que tornavam aquela viagem ainda complicada, abalariam a felicidade daquelas pessoas que haviam escapado daquele que seria, possivelmente, o último combate de suas vidas. Roberto de Barros descreveu em seu diário um “dia medonho, chuva a cântaros e nós à mesma expostos no limitado convés do Mindello”, para, em seguida, descrever a beleza das noites em alto mar: “Temos tido luar sublime que me traz à memória as noites barbacenenses.”169

Nas memórias de Souza e Silva, a resignação de todos, com disciplina e sem reclamações, surge como elemento importante na descrição da confiança no líder de que dias melhores viriam: “Nossa confiança e nossa dedicação a Saldanha continuam inabaladas. Não há queixas, não há reclamações, encaramos a sorte adversa como homens dispostos a tudo e que não se deixam vencer”. (SILVA, 1940, p. 311).

A rotina a bordo também é tema importante das lembranças do vice-almirante Antônio Carlos de Souza e Silva, pois ele foi designado responsável para uma das funções mais essenciais: rancheiro. As suas reminiscências apontam para uma distribuição de tarefas organizada por Saldanha da Gama, e que os oficiais mais antigos ficaram responsáveis por dirigir as atividades. Para Souza Silva, o rancho era o problema mais complicado. Sua descrição sobre suas funções foi a seguinte: “Entendo-me com o Comissario e com o Fiel, um marinheiro chamado Britto, e tomo a direção do serviço. Faço a distribuição das gamelas; cada um leva a sua com sua colher, e vae comer a um canto do navio”. (Idem, ibidem, p. 311).

Por outro lado, o percurso até Buenos Aires, que durou aproximadamente dez dias, deixou a situação ainda mais alarmante. A viagem foi descrita pelo comandante Augusto de Castilho em seu relatório de 24 de maio de 1894, portanto, pouco mais de dois meses depois da concessão do asilo.170 Em sua exposição, o comandante destacou as preocupações com as

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

1894 de ficar para sempre nefasto no Brasil como o prophetizado dies irae nacional, é este livro dedicado em testemunho da mais alta admiraçãoo. J. N.”.

168

COSTA, 1944, p. 299. [Anotação de 18 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. 169

Idem, ibidem, p. 300. [Anotação de 20 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. 170

Sua exposição deve ser compreendida dentro do contexto dos acontecimentos ocorridos ao longo desses dois meses, que culminaram com o rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e Portugal em 13 de maio de 1894. Ou seja, essa descrição contém elementos que visam destacar as dificuldades enfrentadas de forma a justificar atitudes e procedimentos adotados pelo próprio comandante.

doenças, dificuldades em distribuir alimentos, a falta de espaço para dormir e problemas na limpeza. A importância desta descrição justifica a extensão da citação:

Quem conhecer bem as dimensões d’este nosso pequeno navio, poderá bem avaliar o grandissimo incomodo que tanta gente nos deveria causar. Em um navio onde a guarnição tinha sido tão duramente atacada pela febre amarella, e onde parecia existir o gérmen d’esta infecciosa moléstia, tornava-se perigosíssimo este grande accrescimo de população em que além d’isso havia doentes de beri-beri, alguns tuberculosos, e outros com pernas e braços partidos e mais ferimentos que reclamavam espaço para estarem, descanço, abrigo e cuidado que nós lhe não podiamos dar!

Note-se mais que o fogão da corveta Mindello estava estragado, tendo ido para o concerto em terra as suas caldeiras. Para o substituir tinha sido mandado construir um pequeno fogareiro de ferro, para n’elle se adaptar uma caldeira de cobre do vapor nacional Moçambique, onde se cosinhava o racho da guarnição. Haviam-se alugado também dois pequenos fogões para cosinhar para os officiais e commandante, os quaes eram tão deficientes e imperfeitos que não tinham a tiragem conveniente e não podiam funccionar com carvão só, apresentando diversas condições conforme havia ou não vento. O trabalho dos cozinheiros era portanto sempre difficil e muito irregular, havendo occasiões em qeu tínhamos o almoço prompto as 10 horas a.m. e outras só á 1 hora da tarde! Não havia padeiro nem cosinheiro dos officiaes!

Além d’isto, como não era possível cosinhar rancho egual ao da nossa guarnição para tanta gente a mais, e como a gente brazileira prefere uma alimentação especial em que predomina a carne secca, teve o rancho dos officiais que mandar comprar uma grande porção d’este gênero, bem como bacalhau, batatas, cebolas, alhos, além de café e assucar em grande quantidade, que em parte não foram consumidos, porque os revoltosos trouxeram comsigo estes gêneros em um grande batelão de ferro d’onde tirámos o que precisávamos.

É evidente que estes gêneros todos não podiam caber nos nosso paioes, e que, portanto, uma grande parte d’elles teve que ser arrumada no convez, exposta ao tempo que podessemos encontrar, e misturada com bagagens de toda a espécie, e com os prorpios asylados que à noite se deitavam por onde podiam ou ficavam sentados e mesmo em pé por falta de espaço, em uma promiscuidade que causava horror e sem commodidades de espécie alguma.

Como é fácil de vêr, estes gêneros estavam ao alcance de toda a gente, sendo impossível qualquer fiscalização, e havendo por isso desfalques, os quaes todavia nada eram em comparação dos estragos produzidos depois pela água do mar e das chuvas, pela exposição ao sol, etc., etc. Foi por isso que uma grande porção de carne secca, de assucar e de café foi no Rio da Prata lançada ao mar em estado de putrefacção e com grande prejuízo do rancho dos officiaes.

Os toldos e os barracões do navio achavam-se há muito em um lastimoso estado de ruína, rotos, podres e insusceptíveis de qualquer concerto; offereciam, portanto, um irônico abrigo negativo à grandíssima maioria da gente que tinha que dormir em cima, na tolda, nos xadrezes do tomabadilho, no convez, no castello e por cima das antenas. Outros ainda, e não eram dos mais infelizes, dormiam dentro das embarcações miúdas, dentro das trincheiras e dentro dos escudos da artilharia. Os mais felizes dormiam nos beliches vagos do alojamento dos aspirantes, no chão de alguns camarotes, no chão e em macas na praça d’armas e na camara dos officiaes, sobre a meza e nas almofodas dos sofás e no chão da camara do commandante. As baldeações, lavagens e outras limpezas eram sempre um trabalho difficilimo, imperfeito, que só podia ser feito por parte, e que nunca podia dar um resultado satisfatório. O navio estava em um estado que mettia medo!

A distribuição das refeições era uma tarefa que deu grandes preoccupações aos diversos rancheiros. Além de duas mesas na camara dos officiaes, e cada uma das quaes cabiam por um milagre de esforço 22 pessoas, era servida a comida a outros officiaes, aspirantes e indivíduos de similar categoria, em pratos de folha de sobressalentes do rancho da marinhagem, em uma desordem inevitavel, e que nunca podia satisfazer os menos exigentes. Ao principio, porém, os asylados que só pensavam na salvação das suas pessoas, que lhes tinha sido garantida pelo meu acto,

sujeitavam-se não só resignados mas de animo alegre, a todas as horriveis contrariedades e desconfortos que tiveram que padecer. Durante a sua permanencia no Rio de Janeiro, a qual se prolongou mais do que seria para desejar, esta resiganação e conformidade attingia as raias de verdadeiro estoicismo.171

Se este relato do comandante Augusto de Castilho priorizou a narração das condições internas da corveta após o asilo, nada informou sobre as condições da viagem em si. Já as descrições de Roberto de Barros em seu diário nos ajudam a localizar o percurso realizado pela Mindello ao longo da costa brasileira. A Affonso d’Albuquerque, desde a manhã do dia 19 de março, “pediu licença para navegar à vontade e logo desapareceu no horizonte.”172 No

dia 21 de março, por exemplo, a Mindello cruzava a costa de Santa Catarina com “mar calmo como um lago, dia lindo. [...]. Vento escasso, pouca marcha e a 35 milhas da costa. Luar divino.”173

Conforme a corveta rumava para o Sul, a nostalgia tomava conta dos comentários de Roberto de Barros: “Que vontade de passar esta semana em Barbacena!”174 Mas, ao que

parece, o aspirante não era o único que se sentia desta forma:

Durante à noite, os marujos cantaram as suas cantigas que se iam perder na amplidão que nos cercava, trazendo-nos uma nostalgia profunda dos nossos lares, enquanto no fundo escuro do infinito brilhavam irrequietamente pontos cintilantes e melancólicos.175

As impressões românticas e nostálgicas são intercaladas com informações objetivas sobre o clima, as condições do mar e o cotidiano de bordo. No dia 23 de março, por exemplo, Roberto de Barros percebeu quando os portugueses “que nos davam bacalhau todos os dias, deram-nos hoje carne fresca. Dia lindo. [...] À noite, nublou-se o tempo e o mar se tornou cavado, com grande vagalhões.”176 Na noite de 25 de março, às 22h, a Mindello cruzou por

Montevidéu. A cidade comemorava o feriado católico de Páscoa, e o aspirante descrevia a visão noturna da cidade “cuja iluminação produzia deslumbrante efeito. Lá havia festas porque subiam ao ar foguetões de cores.”177

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

171

SÁ, 1894, vol. III, p. 227-229. [Nota Extra de Augusto de Castilho para o Conselho do Almirantado de Portugal. 24.05.1894].

172

COSTA, 1944, p. 299. [Anotação de 19 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. O gradual posicionamento geográfico e as condições internas da Affonso d’Albuquerque ao longo da viagem não são conhecidas. A única referência encontrada dessa viagem foi um diálogo entre um cruzador inglês e a corveta portuguesa pelo Código de Sinais: – Como está? – Muito bem. Obrigado. – Contente em saber isso. Ver: ESPARTEIRO, 1963, p. 175-177.

173

COSTA, 1944, p. 300. [Anotação de 21 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. 174

Idem, ibidem, p. 300 [Anotação de 22 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. 175

Ibidem, p. 301. [Anotação de 23 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. 176

Ibidem, p. 301. [Anotação de 23 de março de 1894 no Diário de Roberto de Barros]. 177