• Sonuç bulunamadı

1. BÖLÜM

1.1.3. Soylulaştırma Aşama Modelleri ve Soylulaştırma Dalgaları

Caso emblemático de acesa divergência sobre a legitimidade processual passiva para o processo em que se pleiteia indenização por danos morais é extraído do massacre promovido por um estudante de medicina dentro do cinema do conhecido Shopping Morumbi na Capital Paulista.

O caso foi assim resumido pela imprensa253:

Na noite de 3 de novembro, o acaso reuniu no mesmo shopping um exterminador à procura de alguma platéia e vítimas que, seguindo a rotina de sempre, encontraram a morte. Às 8h30min do dia 3 de março de 1999, uma quarta-feira, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira deixou o quarto 915 do Príncipe Hotel, no centro de São Paulo. Morava sozinho e tinha alucinações. Elas haviam começado a chegar dez dias antes, desde que suspendera a medicação antipsicótica e antidepressiva prescrita pelo psiquiatra. Eram 22h46min quando o telefone 190, do Comando da Polícia Militar de São Paulo, recebeu o primeiro dos três chamados para atender a uma ocorrência no Cine 5 do MorumbiShopping. Ali se consumara um massacre. Os policiais chegaram às 22h55min, tarde demais. Deveria estar sendo exibido o filme Clube da Luta. A projeção fora interrompida. O estudante de Medicina havia executado três pessoas. Outras cinco pessoas, também atingidas, sobreviveram. Depois de deixar o hotel onde dormira, Mateus Meira foi à Zona Sul de São Paulo. Comprou uma submetralhadora 9mm. Semi-automática, é capaz de disparar 1.200 balas por minuto. Mateus pôs tudo numa sacola e rumou para seu destino. Armado, sentia-se pronto para lutar contra as alucinações. Já no shooping, o estudante de medicina sacou a metralhadora da bolsa, apontou para sua imagem no espelho do banheiro e atirou. O disparo foi abafado pelo barulho do filme. Ninguém na platéia percebeu que se tratava do som de um tiro. Ninguém suspeitou de que assassino estava fora da tela, pronto para agir. Mateus deixou o banheiro, passou por trás da tela da Sala 5 e postou-se diante da platéia. Olhou para o filme e apertou o gatilho da submetralhadora uma vez. Mateus virou-se para a platéia e apertou várias vezes o gatilho. O pente de balas tinha cerca de 40 cartuchos. Descarregou todos. Alguns espectadores que estavam próximos avançaram sobre o assassino e conseguiram imobilizá-lo. A segurança do shopping finalmente prendeu Mateus da Costa Meira, que foi levado à 96ª Delegacia de Polícia de São Paulo.

As vítimas sobreviventes e as famílias das vítimas fatais pleitearam na justiça indenização por danos materiais e morais contra o Shopping Center Morumbi e contra a responsável pela sala de cinema, o Grupo Internacional Cinematográfico, alegando que entre as empresas e as vítimas havia uma relação de consumo, em virtude da prestação de vários serviços, como de estacionamento, de gastronomia, de entretenimento e de segurança principalmente.

Indagava-se, à época do ajuizamento das ações: como fica a questão da responsabilidade civil neste caso, de um terceiro que invadiu o local e matou e feriu pessoas? Respondem as empresas ou não? Podem alegar que a culpa pelo acidente foi de terceiro? A responsabilidade não é objetiva, sem culpa? Enfim, como se constitui o pólo passivo dos respectivos processos.

A seguir, tem-se um resumo de como a questão foi resolvida na justiça paulista de primeira instância, tendo quatro Varas Judiciais do Fórum Central da Capital se pronunciado (21ª, 23ª, 25ª e 27ª unidades judiciárias).

Os juízes da 23ª e 25ª julgaram improcedentes os pedidos, acolhendo os seguintes argumentos das empresas: 1) a indenização só poderia ser reconhecida caso provada a falha de algum de seus funcionários ou representantes, o que no caso não ocorreu; 2) não houve culpa pelo evento, não tendo havido falha no sistema de segurança, pois uma pessoa não pode ser tida como suspeita em razão de seu aspecto físico ou maneira extravagante de se trajar; 3) o fato se constituiu num episódio inédito, imprevisível e inevitável (caso fortuito ou força maior), e mesmo com todos os seguranças atentos e as câmeras ligadas, com funcionários monitorando o movimento no shopping, o evento era inevitável; 4) as empresas não têm poder de polícia, porque segurança pública é dever do Estado.

Os juízes da 21ª e 27ª julgaram procedentes os pedidos, acolhendo os seguintes argumentos das vítimas: 1) o dever de indenizar funda-se no risco- proveito, isto porque, aproveitando-se da violência generalizada que existe na sociedade moderna, a segurança passou a ser um produto agregado ao serviço prestado pelos shoppings, vendido na busca de se conquistar o mercado de consumo; 2) houve falha do serviço de segurança do shopping quando da entrada do agente com uma submetralhadora, além disso, testou a metralhadora no banheiro do shopping, efetuando um disparo contra o espelho do local, fato incomum que poderia ser atentado pelos seguranças.

Nos dois casos de procedência as sentenças foram mantidas no Tribunal de Justiça de São Paulo (apelações nº 421.435.4/1-01 e 385.046-4/3-00), mas com um voto divergente na primeira apelação citada.

Nas duas apelações, os relatores afirmaram o que segue. Na apelação nº 421.435.4/1-01, o Relator Desembargador Beretta da Silveira pontuou que: Os réus bem poderiam ter cuidado da segurança de modo a impedir a entrada de alguém portando arma de fogo no interior do shopping, ou, no mínimo, no interior das salas

de projeção de filmes. Na Apelação nº 385.046-4/3-00, o Relator Desembargador Arthur Del Guércio ponderou que: Nunca é demais lembrarmos que a segurança e a tranquilidade é que fazem com que as pessoas procurem os shoppings, por que isso é da sua essência.

Já o voto divergente acima citado nos pareceu o mais adequado à situação, da lavra do Desembargador Gilberto Souza Moreira:

Não há como incluir o ato imprevisível de um louco, cuja doença não é identificável, como justificativa para aplicar-se a teoria objetiva do risco. Não parece razoável considerar a ação inesperada de um doente mental, em surto de loucura e violência, como defeito de serviço de segurança. Certamente, os seguranças dos réus, seus vigilantes, seus guardas, enfrentaram o inopinável, não havia como identificar o agressor. Imagina-se que tenha chegado ao shopping dissimulado, por óbvio com a arma perfeitamente escondida na mochila usada a tira colo. Não havia como supor que trazia nada menos que uma metralhadora; disso não cogitaram os guardas nem ninguém. Anormal seria o contrário, a infundada desconfiança e a suposição dos horrores que viriam a acontecer. Não há – e espera-se nunca venha a haver – revista pessoal para entrar-se num cinema do shopping center. Enfim, foram acontecimentos inopinados, imprevisíveis, absolutamente inesperados. Caso fortuito por excelência, fato de terceiro, não há como responsabilizar as empresas, a menos que se adote a responsabilidade objetiva sem limitações, o que se tem por impossível. A seguir esta tese, o estabelecimento pagaria pelos danos causados por um meteorito que desgraçadamente atingisse a vítima.

As decisões foram submetidas à competência do Superior Tribunal de Justiça por meio de recurso especial e lá as empresas administradoras do shopping e do cinema obtiveram êxito total na declaração de sua isenção de responsabilidade pelo fato, que foi atribuído unicamenta ao terceiro – o homicida.

No Resp 1.164.889, a Quarta Turma do STJ, por votação unânime, de acordo com o relator do recurso, o desembargador convocado Honildo de Mello Castro, afirmou que, para que haja o dever de indenizar, não é suficiente ao ofendido demonstrar sua dor, e “somente ocorrerá a responsabilidade civil se estiverem reunidos, no caso em questão, elementos essenciais como dano, ilicitude e nexo causal”. O desembargador afirmou, também, que não existe no Brasil nenhuma lei específica obrigando os shopping centers a fiscalizar os clientes e seus pertences antes de adentrarem as dependências desses locais. Trata-se de um tipo de fiscalização que, conforme destacou, “não existe nem mesmo nos Estados Unidos, onde esse tipo de crime ocorre com certa frequência”. O desembargador relator ainda considerou que a imputação de responsabilidade civil supõe a presença de dois elementos de fato, que são a conduta do agente e o seu consequente resultado

danoso, e um elemento lógico-normativo, que é o nexo causal. Nesse sentido, deixou claro que “somente se considera causa o evento que produziu direta e concretamente o resultado danoso de uma ação”. E citou outros juristas ao enfatizar que “pode existir responsabilidade sem culpa, mas não pode haver responsabilidade sem nexo causal”. Aduziu, finalmente, que:

O crime ocorrido choca e causa espanto, pois todos nós acreditamos que esse tipo de situação não aconteceria dentro de um shopping center, estando, portanto, fora do risco inerente à atividade empresarial exercida pelo recorrente (o Morumbi Shopping). Não se ignora aqui a dor das famílias que perderam seus entes queridos de forma tão selvagem. Porém, não se pode perder de vista que o mesmo crime poderia ter sido cometido no saguão de um aeroporto, por exemplo, onde qualquer pessoa pode chegar com uma arma dentro da mochila, sem ser notado, começar a disparar a esmo e causar a morte de várias pessoas, exatamente como fez Matheus, até que a segurança chegue e controle a situação.

Pensa-se que, realmente, não havia espaço para imposição do dever indenizatório no caso em comento às empresas acionadas, por conta da quebra do nexo causal e impossibilidade de reconhecimento de realização de atividade de risco por parte do shopping ou do cinema.

De qualquer sorte, a questão ainda não está totalmente resolvida, havendo um outro recurso especial a ser examinado também pela Quarta Turma do STJ (nº 1087717/SP).

Lamentável, todavia, foi o caso do sujeito que não foi vítima de qualquer disparo e ainda assim ajuizou ação por danos morais por conta do mesmo fato, num pedido absolutamente improcedente e ganancioso, que acabou dessa forma reconhecido na Apelação nº 270.064-4/1-00 do TJ/SP. Segundo se entende, esta pessoa deveria se contentar e agradecer a Deus pela sua vida, não se podendo esquecer que famílias ficaram sem seus filhos, maridos e mães, enquanto ele, não contente com a preservação de sua vida e integridade física, propôs mais uma ação perante o Poder Judiciário, que, já atolado com as demandas dos verdadeiros vitimados, teve que examinar mais um processo absolutamente temerário.