BÖLÜM IV. BULGULAR VE YORUM
4.3. ARAġTIRMA SÜRECĠNĠN KATKILARINA ĠLĠġKĠN BULGULAR
4.3.2. Sorumluluk Alma
O município de Aveiro, que fica a montante da Prainha do Tapajós, na margem direita do rio Tapajós, abrange uma área de 17.000 km e tem população de aproximadamente 18.000 pessoas, que residem em comunidades situadas nas duas margens desse rio. Originalmente, Aveiro era uma aldeia Munduruku; depois, transformada em missão jesuítica, para ali eram levados índios descidos de diferentes localidades. Em 1781, durante o período pombalino, foi elevada à categoria de vila, condição mantida até 1848, quando foi juridicamente extinta, passando a integrar o município de Itaituba. Em 1883, passou a município autônomo, condição modificada em 1930, quando foi incorporada a Santarém como parte do distrito de Alter do Chão. Voltou a ser município em 1961, mas, com a criação da Flona, em 1974, a sede do município, bem como grande parte de sua área, passou a integrá-la. Desde então, há um movimento visando sua exclusão do perímetro da Flona, de modo a assegurar a sua autonomia.
Das comunidades da Flona, Paraíso, Jatuarana, são Francisco das Chagas, São Francisco Godinho e Tapuama estão sob jurisdição de Aveiro. Os ACSs dessas comunidades estão vinculados a esse município, mas, pelas informações que obtive, não há qualquer acompanhamento das suas atividades por parte da sua Secretaria Municipal de Saúde. Recentemente, a prefeitura municipal estabeleceu um convênio com o PSA para a realização de atendimento à população ribeirinha no âmbito do Programa Saúde na Floresta.
4 Vários projetos de exploração de recursos não-madeireiros (óleos, essências, látex, madeira desvitalizada,
artesanato com sementes e madeira) visando o aumento da renda familiar estão sendo implementados em algumas comunidades com apoio e financiamento do ProManejo, PSA, CNS e Ipam (BRASIL, 2005). Sobre a produção e o comércio de produtos extrativos não-madeireiros pelos moradores da Flona, ver Gonçalves (2001).
Belterra, situada na região de planalto, a 152 m de altitude, tem sua origem num projeto de Henry Ford cujo objetivo era garantir suprimento de borracha natural para os automóveis construídos em suas fábricas norte-americanas. A primeira visita dos diretores da Companhia Ford à região onde foi implementado o empreendimento (um extenso seringal de cultivo) ocorreu em 1926; em 1927, houve a concessão da área à empresa (DEAN, 1989). A inauguração da nova vila, que Vicentini (2004, p.137) chama de “cidade empresarial na selva”, deu-se em 4 de maio de 1934 (DEAN, 1989). Sua localização geográfica foi escolhida em razão da necessidade de solo apropriado para os propósitos da companhia: os clones de seringueira vindos de Sumatra não se adaptaram ao solo de Fordlândia, primeira cidade construída por aquela, e pensava-se que terras altas evitariam a praga do mal-das-folhas, pois os clones estariam “mais expostos aos ventos e menos sujeitos às brumas” (DEAN, 1989, p.118).
Desde o início, Belterra possuía toda infra-estrutura urbana, incluindo modernos sistemas de captação, tratamento e distribuição de água (VICENTINI, 2004), e o melhor hospital da região, equipado com aparelhos e profissionais médicos trazidos dos Estados Unidos (AMORIM, 1995). Caracterizava-se por ser uma vila operária que se transformou em cidade, cuja força de trabalho foi imobilizada por meio da moradia5.
Amorim (1995), historiando a presença da Companhia Ford na região, escreve que a sua direção difundia, nos jornais de Santarém, que aquela prestava assistência médica, hospitalar e farmacêutica aos seus funcionários e às famílias destes. Entretanto, um relatório redigido pelo tenente-coronel Luiz Guedes de Oliveira mostra que nem tudo era como propagandeado pela empresa. Em seu relatório, o militar criticou as condições de instalação, considerada fora dos padrões, de uma casa de saúde e denunciou que, nos casos de pneumonia — causa mortis mais freqüente —, esta era contraída no próprio hospital. Além disso, apontou que os trabalhadores não eram atendidos indistintamente e, nas situações de afastamento por doença, os trabalhadores braçais, cuja maioria era originária da própria região, não eram remunerados pela empresa durante o período de afastamento.
A partir de relatos de ex-trabalhadores, Amorim (1995) registra a tentativa da Companhia Ford de impor, pela violência e arbitrariamente, o “trabalho metódico” e “disciplinar” ao caboclo. Além disso, o “Projeto Ford” proibia festas e bebidas e tentou mudar hábitos e costumes alimentares, impondo “bandejões” com alimentos estranhos aos caboclos e
5 Leite Lopes (1979) e Ribeiro (2000) demonstram como projetos de imobilização da força de trabalho podem
constituir-se em elemento de urbanização. De acordo com Vicentini (2004, p.138), nessas “cidades empresariais”, “todo espaço urbano pertence à esfera privada da empresa, que dele se apropria”.
deixando de fornecer farinha. Segundo Dean (1989), tais esforços para disciplinar o trabalhador e mudar seus hábitos e costumes não surtiram efeito; ao contrário, motivaram várias revoltas, obrigando a empresa a recrutar empregados em outras regiões do Brasil, particularmente do Nordeste.
Com o fracasso do empreendimento devido às doenças que afetavam as árvores e, conseqüentemente, à pouca produtividade, no final da década de 1940 a companhia transferiu as plantações para o governo brasileiro. Em 1956, a “cidade americana” foi transformada em Estabelecimento Rural do Tapajós, sob jurisdição do Ministério da Agricultura, para que este pudesse supervisionar as plantações remanescentes. Durante quarenta anos Belterra foi esquecida, até obter emancipação política, em 1997.
Como são poucas as construções recentes, a cidade ainda mantém as características arquitetônicas originais em madeira, indicando a divisão hierárquica entre diretores, administradores e trabalhadores braçais. O hospital construído pela Ford foi destruído por um incêndio e, com ele, foram destruídos todos os prontuários que poderiam fornecer dados sobre os atendimentos ali realizados. Entre as construções recentes, destaca-se o Posto de Saúde, que atende precariamente a todo o município.
Com uma população de 18.000 habitantes, distribuída entre as áreas urbana e rural, Belterra continua carecendo da maioria dos serviços públicos. Até o início de 2007, todos os médicos e enfermeiros plantonistas do Posto de Saúde residiam em Santarém ou em Alter do Chão. É para esse serviço de saúde que os ACSs da Flona encaminham os moradores que precisam de atendimento, e, como não está capacitado para atender agravos mais complexos, as pessoas que necessitam de especialistas são encaminhadas para Santarém.
O Pacs foi implantado em Belterra em 1998, mesmo ano em que foi criado o seu Conselho Municipal de Saúde, como deliberação da I Conferência Municipal de Saúde, do qual participava a Associação Intercomunitária do Tapajós (Aita), uma das associações intercomunitárias de moradores da Flona, mas que não se fazia presente nas reuniões. Em maio de 2007, foi realizada a 4ª Conferência Municipal de Saúde, na qual a Federação das Organizações Comunitárias da Flona do Tapajós foi eleita para integrar o conselho. Da Flona, oito ACSs estão vinculados a esse município, para atender quatorze comunidades ribeirinhas. De acordo com as informações obtidas em campo, a Secretaria Municipal de Saúde de Belterra não tem realizado o “trabalho de capacitação” e reciclagem dos ACSs. Grande parte desse trabalho tem sido feita pelo PSA, com o qual a prefeitura dessa cidade (da mesma forma que a de Aveiro) estabeleceu um convênio, no âmbito do Programa Saúde na Floresta, para atendimento à população ribeirinha.
Santarém
No início do século XVI, Santarém era uma grande aldeia Tapajó; atualmente, é a terceira maior cidade do Pará e a quinta maior da Amazônia, contando com uma população de 270.000 habitantes, distribuída em 24.314 km² (1,93% do território paraense). Praticamente todas as famílias das comunidades ribeirinhas possuem um ou mais dos seus membros residindo na periferia dessa cidade.
As primeiras referências ao lugar onde atualmente se encontra também remontam ao século XVI, em escritos do frei Gaspar de Carvajal, que passou pela região acompanhando a viagem de Gonçalo Pizarro e Francisco Orellana, em 1542. Já no século XVII, devido a sua localização geográfica e pelo fato de o encontro dos rios Tapajós e Amazonas ocorrer ali, possuía posição destacada na região, seja como centro comercial, político e militar, seja como pólo irradiador de evangelização (WOORTMANN, 1967; REIS, 1979). Spix e Martius ([s.d.], p.111), que passaram por Santarém e vizinhanças em 1819, relatam que “não se conhecem doenças endêmicas, somente a varíola e o sarampo fazem, de quando em quando, grandes devastações entre a população, particularmente a indígena”.
Situada a 900 km de Belém, continua um centro econômico, político e cultural, para onde convergem todas as cidades do Oeste do estado. Conforme parâmetros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Santarém caracteriza-se como cidade de porte médio. A principal ligação com o restante do país é feita por via aérea, a partir de Belém ou de Manaus.
Woortmann (1967), em estudo realizado entre 1959 e 1960, apontou que Ita-Açu (Santarém)6 era um centro regional de dominância institucional e econômica de toda a região do interfluvio Tapajós-Amazonas. Segundo esse autor, a prosperidade da cidade esteve ligada à extração da borracha, embora não exclusivamente, uma vez que, simultaneamente àquela, mantinha atividades agrícolas e pastoris, o que lhe garantiu relativa estabilidade econômica nos períodos posteriores, de declínio da economia gomífera.
Nos últimos cinqüenta anos, Santarém teve um vultoso crescimento populacional na zona urbana, passando de 14.061 habitantes, em 1950, para 186.567, em 2000. Da década de 1950 até 2000, houve inversão entre os índices populacionais apresentados pela área urbana e pela rural: em 1950, sua população somava 60.229 habitantes, dos quais 76,66% estavam na
6 Conforme comunicação pessoal desse autor durante a Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM)
área rural; em 2004, contava com 262.538 habitantes, 71% deles na zona urbana (SANTARÉM, 2004).
Além da migração da população das comunidades da região do planalto para a cidade, tal mudança se deve, também, a um processo migratório de famílias originárias dos estados do Sul do país. Vicentini (2004, p.230) assinala que parte da população de Rurópolis7, em sua maioria constituída por sulistas, tem migrado para Santarém. Ainda, o aumento da sua população está associado ao fim do garimpo de ouro na região do alto Tapajós — muitos garimpeiros, especialmente de outros estados, ao deixar a região aurífera dirigiram-se para Santarém, em busca de emprego.
A partir da década de 1970 começaram a ocorrer mudanças significativas em Santarém, especialmente o surgimento de novos bairros, resultado da invasão de áreas urbanas, nos quais residem pessoas oriundas das comunidades situadas nas margens dos rios Amazonas, Arapiuns e Tapajós. Mais recentemente, o processo de concentração fundiária no planalto santareno desencadeado pelos produtores de soja obrigou muitas famílias a dirigir-se para a área urbana. Com isso, algumas comunidades do planalto praticamente desapareceram, sendo recriadas em bairros periféricos de Santarém. Os bairros dessa cidade e as comunidades ribeirinhas estão interligados por uma ampla rede tecida pelas relações de parentesco e reciprocidade — relações que adquirem ainda mais importância no caso de uma doença, pois é na casa dos parentes que os ribeirinhos hospedam-se durante um “tratamento prolongado”.
Santarém está habilitada como referência de média e alta complexidades para dezoito municípios do Oeste do Pará (SANTARÉM, 2005). Como contém praticamente todos os serviços em saúde, para lá se dirigem aqueles que deles precisam, e isso implica em sobrecarga do sistema, que fica impossibilitado de atender satisfatoriamente até mesmo a população santarena residente na área urbana. Dados quantitativos apresentam um quadro dos serviços de saúde no município em 2004, mas não alterado até 20078:
Santarém é uma referência regional para diversos serviços de saúde, como internação hospitalar e consultas médicas especializadas. É o único município em que há assistência hospitalar, com 445 leitos distribuídos em 10 hospitais. Conta também com 87 unidades ambulatoriais, 34 postos e 14 centros de saúde, além de 120 consultórios médicos e 22 odontológicos. Em 2000, foram realizadas 21.686 internações hospitalares, com uma taxa de internação de 8,3 por 100 habitantes do município. [...] este índice seria bem
7 Rurópolis é um município implantado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no
entroncamento da rodovia Santarém–Cuiabá (BR 163) com a rodovia Transamazônica, e o seu espaço urbano foi planejado para apoiar as atividades rurais (VICENTINI, 2004).
8 Desde 2005, aguarda-se a inauguração do Hospital Regional, uma unidade de alta complexidade. Entretanto,
disputas entre grupos políticos estão retardando a sua entrada em operação porque não foi definida a forma de sua administração.
inferior se considerada a referência regional e não somente a municipal, assim como o índice de consultas médicas especializadas, que foi de 0,11 por habitante. (SANTARÉM, 2004)
Mesmo sendo onde a sua população urbana e a ribeirinha do interior buscam tratamento segundo o modelo biomédico, em Santarém encontram-se inúmeros curadores (mulheres, em sua maioria) oriundos do Arapiuns e do Tapajós (VAZ, 1997). Foram freqüentes os relatos de pessoas que complementaram ou alternaram as terapias biomédicas com as prescritas pelos curadores — caso de Jocenita, ACS que atende Prainha do Tapajós e Itapaiuna. Em relação aos comunitários, uma possível explicação para que procurem curadores residentes na cidade pode ser a de que, nesta, podem ampliar suas opções terapêuticas, uma vez que, em sua perspectiva, parece não haver incongruência entre o sistema biomédico e o tradicional (CARDOSO, 2005). Foram recorrentes as indicações de que muitas pessoas dirigem-se à cidade para se “tratar” com curadores, como fez o ACS de Suruacá quando sua filha foi “atacada” pelo Boto e começou a ter “visões”.
Entre Santarém e o interior há temporalidades, espaços intermediários distintos, de onde se chega e de onde se parte; e há um lugar limítrofe: da cidade, da viagem e da comunidade. Trata-se de uma calçada, de aproximadamente 2.000 m de extensão, situada na margem direita do rio Tapajós, em frente a Santarém, a que chamam de cais ou cais de arrimo, e que tem, como extremidades, o “porto” de cada uma das localidades por onde os barcos passam pegando ou deixando passageiros. Ali atracam e partem barcos que, além de pessoas, transportam cargas, mercadorias, encomendas e cartas para as comunidades ribeirinhas, as cidades regionais e as capitais Belém, Manaus e Macapá; ali desembarcam os doentes que chegam a Santarém em busca de tratamento médico e dali eles partem, após realizá-lo — ou sem tê-lo realizado, no caso de não ter sido possível marcar consulta com especialistas nos dias em que o barco permaneceu na cidade.