BÖLÜM V. SONUÇ, TARTIġMA VE ÖNERĠLER
EK 9. ÇALIġMA GRUBUNUN ÖZELLĠKLERĠ Ek 9.a. Altıncı Sınıf Öğrencilerinin Özellikleri
Das 25 comunidades situadas no perímetro da Flona do Tapajós — UC de 600.000 ha criada pelo Decreto no 73.684, de 19 de fevereiro de 1974 —, vinte são ribeirinhas, entre as quais estão Taquara, Prainha do Tapajós, Prainha, Itapaiuna e Paraíso. Quando ela foi criada, os moradores não sabiam que seria transformada em UC, e a mudança da situação jurídica das suas posses trouxe diferentes implicações sobre o seu modo de vida (LEROY, 1991;
FATHEUER, 1998; IORIS, 2000)7.
A Flona possui, como limite norte, uma linha imaginária perpendicular cruzando o km 50 da rodovia Santarém–Cuiabá (BR 163); ao sul, a rodovia Transamazônica e os rios Cupari e Cuparaitinga; a leste, a rodovia Santarém–Cuiabá; e, a oeste, o rio Tapajós (BRASIL, 2005) (Figura 2). De acordo com Ioris (2000), na criação da Flona não se considerou a existência de comunidades na área, pois não houve estudo prévio sobre a sua presença ou sobre a sua situação fundiária8. A própria definição dos limites da área foi feita de forma aleatória, o que desencadeou uma série de conflitos e problemas (o fato de o município de Aveiro ficar dentro da área, por exemplo).
Os moradores perceberam a nova situação apenas em 1977, quando o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) realizou um levantamento com o propósito de desapropriá-los e indenizá-los (FATHEUER, 1998; IORIS, 2000), sob o argumento de que a área havia sido criada para “preservar a natureza” — como lembrou um morador da Prainha do Tapajós. Legalmente, uma UC de uso direto, como é o caso da Flona, não contemplava a presença humana residindo no seu interior, embora permitisse a exploração empresarial dos recursos madeireiros. Algumas famílias residentes nas comunidades próximas à BR 163 aceitaram a proposta do Governo Federal, receberam a indenização e se mudaram para outras localidades. No entanto, os moradores das comunidades ribeirinhas rejeitaram todas as ofertas, e, com o apoio do STR-STM, começaram a desencadear ações para garantir o direito de permanência na Flona. Esse conflito ocorreu num período de intensa mobilização de associados do sindicato para tomar a sua direção, então considerada aliada dos latifundiários (LEROY, 1991). É importante salientar que, na época, a política do IBDF era marcadamente contrária aos direitos das populações tradicionais sobre seus territórios.
7 Moreira e Anderson (1996, p.12), ao analisar os conflitos resultantes da presença humana em UCs, concluem
que elas “foram criadas por decreto, e não houve nenhuma tentativa de envolver a sociedade civil, e muito menos as populações locais, nos debates sobre a conveniência ou não de sua criação”.
8 Dados de um levantamento realizado em 2001 indicam a existência de 52 áreas tituladas, entre as quais uma
Em 1983, o órgão apresentou proposta de exclusão das comunidades ribeirinhas do perímetro da unidade, destinando-lhes uma faixa de 4 km, na margem do rio, e, para abrir um pico demarcando essa faixa de terra, contratou o BEC, do Comando Militar da Amazônia. Entretanto, os comunitários reagiram organizadamente, reivindicando uma faixa de 10 km ao longo da margem do rio, e impediram a continuidade dos trabalhos do exército (LEROY, 1991; FATHEUER, 1998; IORIS, 2000; BRASIL, 2005).
As comunidades, em 1984, se mobilizaram em mutirão para abrir sua própria linha de demarcação, fixada em torno de 10 km a partir da margem, que denominaram de “pico das comunidades”, em oposição ao “pico do IBDF”. Desde então, uma série de negociações vem ocorrendo, visando resolver a situação fundiária. Apenas em 1993 a área dessa faixa foi aparentemente reconhecida pelo Ibama, mas este ainda não definiu qualquer forma de regularização.
Em 1991, as comunidades tomaram conhecimento de um projeto da Organização Internacional de Madeira Tropical (Itto), que previa a exploração experimental de 5.000 ha de madeira. A marcação de árvores, na pesquisa realizada pela Embrapa e pelo Ibama com o objetivo de avaliar o potencial madeireiro para posterior extração na área da comunidade Piquiatuba, despertou a desconfiança dos comunitários, que se mobilizaram. A confirmação da suspeita desencadeou forte reação entre eles, que, articulados com o STR-STM e algumas ONGs, reivindicaram atitude mais transparente do governo e o reconhecimento dos limites estabelecidos pelas comunidades (10 km) (FATHEUER, 1998).
Como resultado da mobilização dos comunitários, e com amparo na nova legislação — Decreto no 1.298, de 27 de outubro de 1994, que reconhece o direito de permanência de populações tradicionais no interior do perímetro das florestas nacionais —, um novo momento foi instaurado. Desde então, o Ibama está para estabelecer o Contrato de Concessão de Direito Real de Uso com a população local, representada pela Federação das Comunidades da Flona–Tapajós. Tal movimento de mobilização e pressão por parte dos moradores visa, sobretudo, assegurar seu direito de permanência no território tradicionalmente ocupado.
É importante salientar que a criação da Flona à revelia dos moradores da área trouxe uma série de implicações na vida destes. Uma delas foi o não-investimento, por parte das famílias, durante longo tempo, nas áreas consideradas patrimônio familiar, devido ao risco de serem expulsas. Além disso, por causa do tempo dedicado à resistência, grande parte dos moradores deixou de trabalhar em suas roças, reduzindo, assim, a produção de alimentos, o que, segundo o pastor João Ribeiro, presidente da Federação das Comunidades, “causou muita dificuldade para as famílias”. Por outro lado, os comunitários passaram a enfrentar diversas
restrições às suas atividades de subsistência, especialmente a caça e a agricultura, porque a fiscalização do IBDF impediu com rigor a derrubada de mata, mesmo capoeiras, para abertura de roças, e atemorizou os comunitários com ameaças de prisão e multa, caso fossem flagrados caçando.
A partir de 1995, o Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais do
Brasil (PPG7)9, através do ProManejo, financiado pelo Banco Mundial e pela Comunidade
Econômica Européia, passou a atuar na definição de diretrizes para a gestão da Flona e a financiar projetos geradores de renda voltados à melhoria da qualidade de vida dos seus moradores. Entre os projetos financiados, está um de saneamento comunitário apresentado pelo PSA.
Desde então, várias reuniões envolvendo comunitários, técnicos da esfera federal e de ONGs têm sido realizadas com o objetivo de encontrar soluções para os problemas
enfrentados pela população desde a criação da Flona10 — de modo especial, resolver a
situação fundiária das comunidades. A partir da proposta de planejamento e gerenciamento da Flona, estabeleceu-se uma nova forma de relação entre os comunitários e o Ibama. De acordo com tal proposta, abre-se a possibilidade de maior participação da sociedade civil local nas questões referentes à Flona. Os conflitos se atenuaram, mas, até o momento (2008), a regularização fundiária não havia sido efetivada, e só deve ocorrer após a aprovação do Plano de Manejo de Utilização Comunitária (BRASIL, 2005), que ainda está em tramitação.
O processo de negociação do conflito e o discurso a ele associado fornecem elementos para que os ribeirinhos apreendam o Ibama a partir de categorias locais, especialmente em relação às suas mudanças de postura. Não obstante os seus técnicos adotarem então atitude mais tolerante, eles continuaram mantendo uma postura legalista quanto ao cumprimento das regulamentações sobre o uso do espaço, sobretudo a derrubada de árvores para abertura de roças e extração dos recursos naturais, e um discurso ambíguo sobre o processo de regularização fundiária. Essa ambigüidade revelava-se, sobretudo, nas diferentes reuniões realizadas para discutir as reivindicações dos comunitários ou as políticas definidas pelo próprio governo, e levou aqueles a adotarem posturas também ambíguas em relação ao
9 Segundo Salviani (2002, p.73): “Esse programa articulado de proteção às florestas amazônicas brasileiras
cujas negociações entre o governo brasileiro e os países do Grupo dos Sete iniciaram em 1990. Por ocasião da reunião de Houston do G7, o então chanceler alemão Helmut Kohl convidou o Banco Mundial e a Comunidade Européia a formular uma proposta de implementação do Programa que seria aprovada um ano mais tarde em Londres. A formulação do Programa marca algumas rupturas substanciais com modelos de intervenção e equilíbrios políticos nacionais e internacionais precedentes”.
10 Em 1995 ocorreram várias reuniões para discutir a possibilidade de exclusão da área das comunidades do
perímetro da Flona. No plebiscito realizado nesse ano, 62% dos votantes decidiram ficar fora da Flona. Num novo plebiscito, realizado em 2003, a maioria decidiu permanecer dentro dela (BRASIL, 2005).
discurso e às ações promovidas pelo órgão e a apreendê-lo como uma das formas nas quais a Curupira se “engera”, como já apontei.
Segundo Elias Serrão, as gerações mais novas “nasceram debaixo de uma unidade de conservação”, e as pessoas com menos de trinta anos viveram sob a tensão provocada pela possibilidade de expulsão. Entretanto, os discursos não são unânimes. Embora criticando as restrições impostas pelo Ibama, alguns avaliam positivamente as novas perspectivas apresentadas pelos projetos e pela segurança de permanência nas suas posses. Essa idéia está expressa na fala de Johnson Ribeiro: “daqui dez anos vai virar um paraíso pros moradores tradicionais. Muita gente vai querer morar aqui”.