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Neste ponto, tentaremos identificar como a teoria semiolingüística de Charaudeau (2008) poderia fortalecer mais essa preterida junção entre a forma de colocar os sujeitos enunciadores em relação, investigando não apenas uma teoria do sujeito na linguagem, mas sim uma teoria dos sujeitos das trocas lingüísticas, todos contribuindo ativamente para se determinar, ou tentar visualizar, a construção do sentido nos discursos.

Ao invés de estabelecermos essa referência em face do sujeito, concebido como subjetividade substancializada, como pretenderia estabelecer, por exemplo, a Teoria da Enunciação33, a representação dos papéis sociais envolvidos nas trocas comunicativas multiplicaria as referências que o sujeito tem para se expressar socialmente. Nesse sentido, o detalhe que compreendemos que seria importante é pensar que, sob a ótica de conceber os sujeitos submetidos a um conjunto estruturado de relações – e seria esta a avaliação que buscamos no modo de pensar relativamente constituído por uma perspectiva estruturalista – eles não teriam sua subjetividade apagada ou excluída. De modo contrário, acreditamos que a noção de sujeito não precisaria, necessariamente e para toda e qualquer perspectiva científica, se confundir com a noção de subjetividade, onde esta estaria vinculando uma ideia solipsista à enunciação. Não acreditaríamos, portanto, que, embora seja de grande valia a análise que busque a representação subjetiva na linguagem (como, por exemplo, na psicanálise, nos estudos literários, na filosofia, na música, etc), não haveria prejuízos para a análise se não consideramos a presença hierarquizante de um “eu”, que estaria acima e independente do da força de interpretação “tu”.

Nesse aspecto, seria de grande valia, de um modo geral, nos ater nas análises feitas por Charaudeau sobre esse peso ou relevância pela qual o sujeito seria colocado

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Nesse sentido, seria válida a leitura das análises que Mello (2003) faz sobre uma das linhas de desenvolvimento dessa teoria.

na pauta da análise discursiva. Entendemos que Charaudeau conseguiu visualizar e esclarecer quais seriam as condições necessárias para se entender como se comporta a construção dos sentidos no discurso, não como estabelecido dentro de um sistema fechado e formal (como querem, por exemplo, os semiólogos mais ligados a um estruturalismo “ortodoxo”) ou inserido numa concepção puramente analítico-semântica da constituição dos significados. Charaudeau avaliaria, por meio de outro ângulo, os papéis que os sujeitos têm no e pelo processo de comunicação, mas esses papéis não seriam representados por uma concepção substancialista do sujeito, ou, em outras palavras, por uma concepção em que o sujeito é uma só coisa ou representa apenas uma coisa essencial, que poderia reclamar o domínio de sua fala em relação a um “tu” apenas decodificador ou interprete semiótico(isotópico).

Poderíamos dizer que os sujeitos dos discursos, em Charaudeau, são concebidos como seres de fala que estariam, necessariamente, em relação uns com os outros, e que, ainda, estariam agregando significados às suas falas, pois eles estariam inseridos em práticas sociais baseadas em simbolismos, em rituais e em práticas socialmente compartilhadas e constitutivamente históricas. Seria, portanto, esse modelo de determinar o significado a partir da relação entre os sujeitos, e suas respectivas falas concretas, ou seja, seus enunciados, que deslocaria a análise do sentido dos signos lingüísticos de um conjunto lexical (como nos dicionários ou na análise lexical) para a análise do significado que represente os lugares sociais que ele ocupa e que o definiriam situacionalmente.

Se formos estabelecer uma retomada do que até agora foi dito neste trabalho, poderíamos dizer que, diante da situação proporcionada pelo corpus que está sendo analisado, os sujeitos envolvidos nas trocas linguageiras (que estabeleceriam um processo de comunicação) estariam não mais somente na ordem de análise da enunciação de um “eu”, ou seja, de um sujeito em que estivéssemos seguros quanto a suas estratégias e categorias discursivas, deixando a figura do “tu” como apenas uma referência, um espécie de “anteparo” que não teria uma função ativa na comunicação. Esta função, por sua vez, estaria representada, como já foi anteriormente explicitado, pela figura do doutrinador, cujos domínios de interpretação se voltariam para exercer aquele poder simbólico de que falamos anteriormente e para os sujeitos que também foram citados.

Neste caso, a recepção do discurso legal, ou da lei, não estaria tão distante ou tão incerto de ser determinada. Haveria uma força, de pertinência social e política, que faria

com que o doutrinador fosse um interprete privilegiado e simbolicamente reconhecido da lei. Por isso, procuraremos definir as bases que conjugariam a concepção relacional dos sujeitos dos discursos a partir de uma representação comparativa entre um quadro comunicacional, pensado para se aplicar à tradução de obras literárias, e um possível quadro representando a relação da lei com doutrinador e com o “público” em geral. Todavia, e, em consequência do que foi dito até agora, esse quadro não teria apenas um conteúdo comparativo ou análogo, mas sim teria um sentido relacional.

Para podermos deixar mais claro como aqueles sujeitos poderiam estar organizados linguageiramente, de modo a criar um vínculo comunicativo, vamos primeiramente apresentar o quadro semiolingüístico de Charaudeau (2008), para podermos passar para um quadro mais específico, que poderia explicar mais complementariamente os objetivos deste trabalho.

O quadro comunicacional de Charaudeau (2008), bastante claro e utilizado por pesquisadores em AD, representa o momento em que os sujeitos entram em processo de comunicação, constituindo dois circuitos que relacionam os sujeitos em suas expectativas e finalidades de fala. Expectativas no sentido de se fazer compreender e de compreender os enunciados (obtenção de sucesso com a fala) e finalidades, pode-se dizer, no sentido de que as intenções tanto do sujeito comunicante, quanto do sujeito interpretante, sejam contempladas. Contudo, deve-se somar a essa nossa interpretação do quadro os três elementos que comporiam o contrato, que já foram elencados no capítulo I da presente dissertação.

Colocaremos o quadro a seguir de modo a podermos visualizar como se daria os circuitos que constituem a comunicação, podendo estabelecer, em princípio, que o sujeito comunicante estipulado neste trabalho seria o legislador (do Código Civil especificamente) e o sujeito interpretante se constituiria do doutrinador jurídico. Os sujeitos enunciadores e destinatários estariam na ordem da imagem e das idealizações que aqueles dois sujeitos fariam no processo de fala e de recepção.

Figura 1: O quadro dos sujeitos da linguagem

Fonte: Charaudeau, (2008, p.52)

Mello (2006) procurou explicar e condensar a dinâmica deste quadro de forma a bem apresentá-lo, mostrando sua operacionalidade, mas sem perder sua força teórica e metodológica. Faremos, aqui, uma longa citação do autor, porque pensamos que seria melhor do que parafrasearmos sua análise, já que esta é muita clara. Diz ele, que, neste quadro:

(...) temos o nível situacional que é o lugar do fazer psicossocial, que corresponde às circunstâncias de produção do discurso, nas quais encontramos sujeitos empíricos dotados de intencionalidade e interligados por uma situação de comunicação concreta. Tais sujeitos são seres empíricos, historicamente determinados, que Charaudeau chama de parceiros. Em virtude de suas funções, obrigações e intenções, decorrentes de uma situação de comunicação específica, eles realizam, respectivamente, um projeto de fala e uma expectativa de interpretação (...).

No nível discursivo, encontram-se dois seres de fala, que Charaudeau nomeia protagonistas: o sujeito enunciador e o sujeito destinatário. Eles constituem o resultado da encenação do dizer realizada pelo sujeito comunicante, a qual será interpretada pelo sujeito interpretante (...). Esse sujeito enunciador é, portanto, uma imagem de si que o indivíduo constrói através da linguagem. Essa imagem, segundo as situações de enunciação, é constantemente re- construída pelos falantes. Já o sujeito destinatário pode coincidir ou não com o sujeito interpretante. Nesse sentido, o ato de linguagem torna-se uma expedição rumo a um interlocutor, do qual não se pode prever a reação exata: esta nem sempre coincide termo a termo com a prevista ou idealizada. (MELLO, 2006, p. 109).

Diante dessa explicação, podemos destacar dois pontos que nos serão importantes para podermos avançar em uma nova configuração deste quadro. O primeiro ponto seria

aquele que já tentamos esboçar anteriormente, qual seja, o de identificar os sujeitos que comporiam o quadro, quais sejam, os legisladores, como representando o sujeito comunicante, e o doutrinador jurídico, representando o sujeito interpretante. Um segundo ponto diz respeito àquele fator de assimetria (Charaudeau 2008) entre os protagonistas da comunicação. Quando Mello fala que o ato de linguagem torna -se uma expedição, onde nem sempre a interpretação do sujeito destinatário coincide com a idealização ou a expectativa de fala do sujeito comunicante, esta situação se constitui da assimetria. De um modo geral, ela se caracterizaria pela desigualdade entre a imagem que o sujeito enunciador faz, no ato de linguagem, do sujeito interpretante e a imagem que este faz do sujeito enunciador quando do momento da recepção discursiva.

Todavia, pensamos que além do jogo de expectativas (imaginárias) desiguais entre o ato de fala e a recepção do discurso se encontraria o fato da real possibilidade de desigualdade daquilo que se diz em face da interpretação do que foi dito. Em outras palavras, se há uma assimetria entre as imaginárias expectativas dos sujeitos responsáveis pela comunicação, ilustrada pelas estratégias usadas do sujeito enunciador em relação às hipóteses formadas do sujeito interpretante, então poderíamos dizer que essas expectativas se acentuariam ainda mais se considerarmos que o sujeito interpretante também é um sujeito enunciador em relação aquilo que ele está para interpretar.

Nesse sentido, se consideramos, com Bakhtin (1988; 2003; 2008) e Authier- Revuz (2004), que o sujeito interpretante possui um estatuto de responsividade-ativa, então deveríamos tomar em conta, especialmente como perspectiva semântica, que o discurso concretizado também deveria entrar no conjunto das expectativas com que o sujeito enunciador constrói em seu ato de linguagem. Portanto, se o “eu” enunciador e o “tu” destinatário estão inseridos em um estatuto exclusivamente linguageiro, independente em parte do “eu” comunicante e do “tu” interpretante (Charaudeau, 2008), ficaria difícil visualizarmos uma maneira como este “tu” destinatário poderia não se portar como um sujeito que tem por função internalizar a fala do “eu”, sem que no processo de interpretação ele produza um discurso sobre e pelo discurso do “eu”.

Desse modo, poderíamos ampliar as condições de possibilidade das funções comunicativas do “tu”, colocando-o como um sujeito que, além de traçar hipóteses de decodificação das intenções discursivas do “eu”, mas também como um ser concreto de fala, fala esta que seria constitutiva de seu modo de interpretar. Isto se realizaria, por exemplo, se fôssemos pensar na diferenciação de apreciação estética e de juízo de gosto,

como nos sugere Bourdieu (2009a). Na primeira hipótese, poderíamos dizer que tratar- se-ia de uma operação exemplar do ponto de vista daquela assimetria, enquanto que no juízo de gosto, voltada a uma crítica institucional, o “tu” destinatário/interpretante tem uma função mais ativa, não só de traduzir o conteúdo da obra de arte, mas também de discursivizar sobre ela, dando-lhe algum tipo de pertinência, colocando-a dentro de um momento histórico junto com um grupo de outros artistas do mesmo movimento artístico (heterogeneidade discursiva).

Pode-se dizer, portanto, que o ponto central de análise não estaria concentrado em um “eu” representado pela figura do doutrinador jurídico, mas sim na relação entre o legislador e o doutrinador; determinando que os fatores e marcas principais de heterogeneidade constitutiva ou de interdiscursividade relacionariam o discurso legal às formas de recepção e de leitura do doutrinador. Desse modo, não se analisará somente a presença da função social na doutrina jurídica como uma forma de integração de discursos outros, mas também como um modo de marcar que se trata de um texto de recepção, interligando os dois sujeitos de modo concreto e socialmente estruturado.

Todavia, ressalvados essa analogia com o crítico de arte, proporemos a seguir um diferente modelo do quadro explicado anteriormente, tentando mostrar como estaria disposto, dentro do processo de comunicação, o sujeito interpretante e enunciador.

2.5 Uma Representação de Quadro Comunicacional: leitura ativa e