• Sonuç bulunamadı

Tal como ocorre na fase amorosa antecessora, os contraentes obtêm apoio, encorajamento e direção na CG. Há GCEMs específicos para pessoas em vias de casar- se e recém-casadas. Sem embargo, os pastores fazem o acompanhamento ministrando cursos e aconselhando os noivos, e, em havendo, necessidade os pais dos futuros cônjuges recebem orientações pastorais sobre o noivado, o casamento e as posturas que deverão ter. Alhures fora explicado sobre os quatro principais propósitos do casamento entre fiéis nesta igreja, portanto não será retomado aqui. Firmando-se nos conteúdos doutrinários concernentes ao namoro, os nubentes aprendem que existem algumas motivações lícitas para o casamento, mas não são as mesmas de Deus: a solidão é uma delas, ou seja, casar-se para deixar de viver sozinho; assumir um matrimônio para libertar-se dos problemas familiares; unir-se com uma pessoa em razão dela ter uma família bem estruturada; submeter-se ao enlace matrimonial a fim de prosperar financeiramente; apreciar crianças; coligar-se com alguém em razão de sua beleza estético-corporal; e casar-se para ter relações sexuais. Estas não são as razões religiosamente corretas (Mantoan, 2006, 10).

Na perspectiva do Pastor Mantoan o casamento é uma aliança que o casal faz com Deus no altar “empenhando a palavra” em juramento. Embora na CG não se afirme que o enlace é um sacramento nos moldes do Catolicismo, entende-se que ele é um acordo sagrado que não pode ser dissolvido e/ou invalidado, com exceção à infidelidade sexual de um dos cônjuges. Independente de o sentimento amoroso diminuir ou cessar, para a Deus o que vale é o voto nupcial feito. Para tanto, Mantoan faz uma menção bíblica do livro de Eclesiastes 5,4-5: “Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não cumpras”. Em outros termos, o mal recai sobre os cônjuges que quebram o juramento optando pelo divórcio (Duarte e Giumbelli: 1994,98). De vez que esta idéia faz parte do imaginário religioso, cabe aos noivos avaliarem sua escolha e concluírem que anelam pela continuidade da relação ou o término do noivado. No casal é inculcado o juízo de que todos os juramentos verbais pronunciados a alguém são mais valiosos do que contratos assinados e oficializados perante os órgãos governamentais. O

ato de “empenhar a palavra” é tomado de maneira inevitável pelo Deus como algo que será cumprido. Descumprir é desonrar a Deus.

Ao optarem por dar seguimento à preparação ao casamento, os noivos precisam conhecer as diferenças culturais e temperamentais entre eles para não se frustrarem posteriormente. A fim de contribuir com o êxito do relacionamento o rapaz e a moça são instruídos a fazerem uma primeira atividade, a saber, preencher os seguintes dados de um relatório:

1. Nome; 2. Como foi a sua infância?; 3. Como foi sua adolescência?; 4. Quais as características de sua família, a saber: comunicação, religião, nível sócio-econômico, nível de compromisso entre si e de serviço em amor?; 5. Qual o momento mais alegre de sua vida; 6. Qual o momento mais triste de sua vida? 7. Qual sua maior virtude e seu maior defeito? 8. O que lhe falta para completar sua alegria (Mantoan, 2006, 27).

Outra tarefa designada ao casal é pontuar as dez diferenças mais marcantes entre cada um nos seguintes temas: usos e costumes, tradição, personalidade, temperamento, gostos, hábitos de higiene, preferências alimentares, espirituais, hobbies, atividade física. Em seqüência eles devem nomeá-las como: toleráveis; insuportáveis; espero mudanças; não me afeta; me completa. Subseqüentemente, o rapaz e a moça farão uma síntese daquilo que a religião instruí sobre as características e funções de um marido e de uma esposa. Ao concluírem estas três atividades eles precisarão dialogar sobre todas as respostas dadas, comprometerem-se com as mudanças e o respeito às diferenças, traçar metas para obterem melhorias e orarem sobre cada um dos tópicos abordados.

Acrescentando-se aos anteriores, mais seis relatórios são exigidos e objetivam obter um apanhado sobre a intimidade de cada um com Deus e a igreja, analisar as prioridades, os propósitos, as noções sobre vida familiar, a compreensão doutrinária do casamento, a gestão das finanças e a visão sobre o sexo. (Mantoan, 2006). Todos estes exercícios visam o estreitamento dos vínculos entre os nubentes, a inculcação do habitus da comunidade emocional e a auto-repressão modeladora dos corpos como meio de reprodução do ideário religioso da CG. Todavia, o enredo se amplifica pelo fato do casal levar obrigatoriamente os resultados de todas as tarefas cumpridas para comunicá-

los ao pastor da igreja, durante o curso de noivos, e receberem outras recomendações compreendidas como profícuas para estes que almejam casarem-se, tais como:

o planejamento familiar, a administração das finanças, a aquisição de novos bens, a educação dos filhos, os cuidados com a vida espiritual, a formação do caráter e de bons hábitos, apoio e controle dos estudos, cuidados com a saúde e recreação e a realização do trabalho da igreja (Bezerra, 2006d: 52).

Nota-se com este procedimento uma dependência emocional que se estabelece do casal para com a igreja, na figura do pastor, porém mascarada pela valorização discursiva da autonomia e independência do indivíduo religioso, isto é, cada pessoa faz a sua escolha sem “nenhum” tipo de influência externa. Entretanto, o que se nota no campo de pesquisa é que este controle eclesiástico visa a aquisição e a reprodução da gestualidade, da etiqueta corporal, da expressão e percepção sensoriais aprovadas pela igreja. Conforme o jargão religioso excessivamente utilizado nos encontros dos GCEMs: “antes de agir o irmão tem que ouvir a Palavra, receber a revelação, pensar e sentir de Deus aquilo que é preciso fazer”. Um exemplo sobre este procedimento se encontra na decisão de um rapaz e uma moça entre iniciar ou não um namoro: “o namoro deve começar depois da certeza que tal pessoa é indicada por Deus. (...) A união de dois jovens só faz sentido quando o objetivo for o de cumprir a vontade de Deus” (Bezerra, 2006: 6). Se o casal está adequado ao padrão da igreja, têm a aprovação dos pais e o apoio dos líderes espirituais, o rito da oração corrobora o relacionamento.