5. ARAŞTIRMA SONUÇLARI
5.1 Pratik Maliyet Hesaplama Tablosu
Retomando o que já foi explicitado, via de regra, durante os discursos na igreja, o lar apresentado é composto por pai, mãe e filhos. Em momentos raros, quando se menciona os integrantes da família, algumas alusões são feitas aos avós paternos e maternos. Apesar da defesa de que é a Bíblia quem fornece o modelo para a estruturação familiar na CG, na prática não se repete a relação característica de Israel no Antigo Oriente que dava ao homem a possibilidade de casar-se com duas ou mais mulheres segundo as suas posses. Tampouco se reproduz o convívio e moradia das pessoas de uma mesma linhagem (bisavôs, avôs, pais, filhos, tios, sobrinhos, netos, bisnetos etc) e agregados (escravos e concubinas) num único espaço doméstico (Perdue,1997; Gerstenberger, 1996). Vigora nesta igreja o arquétipo caseiro, construído socialmente a partir do século XVIII na Europa e posteriormente adotado pelos países ocidentais, de uma família restrita e situada num espaço íntimo e separado das coletividades (Foucault, 2006: 193-207).
É fato a existência de pessoas divorciadas e casadas pela segunda ou terceira vez congregando na CG. Apesar da ausência de dados concretos, os pastores asseveram que esta situação de separação raramente ocorre com indivíduos que se converteram à igreja ainda jovens, freqüentam GCEM e estão inseridos na vida comunitária. Como exemplo, o pastor Luís Blotta usou o seguinte argumento de autoridade em sua palestra: “as estatísticas afirmam que para cada quatro casamentos na atualidade há um divórcio. Mas na igreja é diferente: para cada mil e cinqüenta casamentos um divórcio acontece. Glória a Deus”.123 Após esta assertiva os fiéis respondem favoravelmente ao pastor
gritando palavras de louvor e aplaudindo com veemência.
Na CG foram encontrados vários casos de divórcios que indicam que esta asserção categórica de Blotta é imprecisa, mas com a observação feita no campo de pesquisa presenciou-se uma forma de organização e relação afetiva entre os membros da igreja marcada por uma intensa auto-repressão, firmada em conceitos, habitus e experiências religiosas introjetadas e reforçadas com a interação coletiva (Bourdieu, 2001), atuando como inibidora do divórcio. Mesmo porque se ensina na igreja que a separação dos cônjuges, se não for motivada pelo adultério ou pela violência doméstica, trará a maldição para o casal e familiares mais próximos. Para a CG este opróbrio religioso é desdobrado em algumas situações pós-separação:
1) No rompimento da aliança do casal feita com Deus que redundará numa prestação de contas desfavorável aos envolvidos no além-túmulo.
2) Na ausência diária da referência masculina e feminina padronizada pela igreja em prejuízo à saúde espiritual e psíquica dos filhos.
3) No “mau testemunho” dado à igreja e a sociedade. 4) Nos sentimentos de rancor e ódio entre os cônjuges.
5) Na “tensa” divisão dos bens materiais que foram concedidos ao casal por Deus.
6) Na disputa judicial pela guarda de filhos.
7) Na adequação “traumática” da prole à realidade dos pais.
Não obstante ao caso supradito, existe um modelo familiar que vigora nos discursos da igreja caracterizado pelo pai, a mãe, os filhos e as filhas.124 O pai é o
provedor do lar por excelência e à mulher cabe a função de ser auxiliadora. A pastora Suely Brandoles Bezerra,125 no livro “Mulheres que fazem a diferença”, pontua que não há proibições para a mulher que queira trabalhar, fazer cursos universitários, especializações ou outros semelhantes, especialmente porque “nos dias de hoje o custo de vida é muito alto” (2006: 109). Contudo, o dever e a responsabilidade maiores recaem sobre os homens. Assim, se a mulher pode escolher, o homem não tem este direito. Neste sentido, a culpa pelo fraco desempenho acadêmico, a indisciplina, o fracasso profissional e o desvio espiritual dos/as filhos/as é de total responsabilidade do pai, pois ele foi ordenado por Deus para ser um cristão convicto, um marido bom, um pai exemplar e um gestor eficiente.
Conforme as considerações de Bezerra “é a família, a mais importante instituição criada por Deus, para expressar seu caráter neste mundo. O fracasso pode comprometer o plano divino de abençoar todas as nações e famílias da terra” (2006a: 3). Uma vez que existe a possibilidade da derrota é solicitado aos maridos exercer uma liderança familiar movida pelo amor e pelo dever de ser profeta, sacerdote e completo provedor do lar e às esposas é requerido uma “submissão responsável”. Se o casal proceder de acordo com as regras da igreja eles “reproduzirão descendentes piedosos com a finalidade de implantar e expandir o Reino de Deus” nas sociedades (2006a: 4). Ao trabalharem os conteúdos religiosos relacionados à família nos cultos, acampamentos, reuniões de pequenos grupos, cursos de capacitação e encontros de líderes, a CG visa solidificar os relacionamentos familiares com base na sua visão e, conseqüentemente, evitar ao máximo rupturas interpessoais (Donzelot, 1977). Somando-se a isso, os pastores da igreja se disponibilizam a acompanhar os membros e aconselhá-los em todas as situações que se fizerem necessárias.
124 Como será explicitado alhures, quando se pensa a família na CG o mais comum é caracterizá-la pelo pai, mãe e filhos/as. Dificilmente faz-se menção aos avós, tios, primos, sogros. É comum estes últimos serem citados para que a família receba diretrizes sobre a postura que devem ter em relação a eles. 125 Suely Bezerra é pastora e fundadora do ministério Mulheres Intercessoras, cujos propósitos são orar pela família, pela igreja e pela sociedade. Ela é casada com Carlos Alberto Bezerra, fundador e presidente da CG. Suely é uma das escritoras desta igreja que versa sobre assuntos como: família, oração, aconselhamento e ministério pastoral.
Os assuntos ligados à família despertam o interesse de muitos fiéis da CG. Um exemplo da fixação por este tema foi a realização do “Seminário da Família: Um tempo de Restauração” ocorrido entre os dias 22 a 26 de setembro de 2008 no templo desta igreja em São Bernardo do Campo, Rudge Ramos.126 Este evento ocorreu entre segunda e sexta-feira, iniciando-se pontualmente às 20h00 e terminando aproximadamente às 22h20, e coordenado pelo Pastor Luís Blotta. A média dos participantes foi de 1100 pessoas. As cinco palestras foram gravadas em CD e DVD, num sistema de alta definição de som e imagem. Posteriormente, o material foi disponibilizado para consumo dos fiéis sendo R$ 7,00 cada CD e R$ 40,00 o DVD. E durante vários cultos os crentes eram incentivados a comprar estes produtos, como também era ressaltado o êxito de vendas e o empenho do Ministério de Comunicação da igreja no fornecimento e confecção dos materiais.
Não obstante à omissão do contexto sócio-cultural dos tempos bíblicos, este conglomerado familiar contemporâneo é legitimado no âmbito religioso com a citação bíblica de Marcos 10,6-8: “desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe e unir-se-á a sua mulher, e, com sua mulher serão os dois uma só carne”. O Pastor Mantoan destaca que:
“Quando um homem ou uma mulher não deixa os pais, não prosperam no que Deus tem para eles, não atingem a plenitude que lhes está reservada e muito menos devem esperar chegar à estatura de perfeição de Jesus. Tornam-se imaturos, dependentes do oxigênio nutriente que vem pelo cordão umbilical ainda não desligado da mãe... Quem depende do básico obviamente com dificuldade alcançará o excelente” (2006: 21).
Uma vez que a Bíblia é a “Palavra Divina”, então ninguém pode contradizê-la, em outros termos, é o Deus quem sanciona esta forma de relacionamento e organização social. A idéia que se impõe é a de um “Plano Divino” para as famílias, em especial aos cônjuges, desde os primórdios. Nos cursos, aulas e sermões da CG a regra dada é para que nenhum casal, após o matrimônio, more com os pais e, se possível, não sejam nem
126 Os títulos das palestras foram estes: Vidas planejadas em Deus (22/09); Lares ao invés de casas(23/09); Uma só carne(24/09); Pais e filhos(25/09); Provisão financeira(25/09).
vizinhos.127 A justificativa para essa orientação última se firma naquilo que nomeiam simbolicamente de “cobertura” e liderança espiritual.
Acredita-se que o casal desta igreja está sujeito ao comando e à “cobertura” de Deus. Os filhos, por sua vez, estão debaixo da “cobertura” e da autoridade dos pais e de Deus. Uma vez que os pais têm a responsabilidade, dada por Deus, de liderar os filhos, eles devem levar com rigor esta tarefa de educar, cuidar e liderar. No momento que os filhos se casam, eles saem da “cobertura” dos pais e deverão exercê-la no lar que formarão. Conforme a doutrina da “cobertura espiritual” existe uma hierarquia estabelecida divinamente desde o início dos tempos entre Deus e as pessoas, e pessoas e pessoas. Cada fiel deve se conscientizar desta verdade e organizar-se segundo este parâmetro.
Entre os cônjuges o marido lidera a esposa e juntos comandam os descendentes. Nesta lógica de “cobertura” e comando, se o casal resolve morar com os pais ou se tornar vizinho deles a probabilidade de ocorrer uma ingerência dos progenitores em seu relacionamento é muito alta. Com isso a liderança do marido sobre a esposa e filhos será questionada e romperá a hierarquia religiosa determinada pelo Deus culminando em uma maldição familiar. O líder do lar é o marido, portanto a sua autoridade deve ser mantida. Ele deve exercer seu papel de representante da família nuclear, de mentor espiritual e moral destes familiares e também o de necessariamente trabalhar para suprir as carências de alimento, vestimenta e moradia em seu lar.
Segundo as orientações da CG os pais e sogros não têm direito e nem autoridade da parte de Deus para interferir na vida do casal, contudo se ambos morarem próximos a “tentação” para descumprir aquilo que está interditado será intensa. Portanto, a fim de preservar o casal e os seus pais das “maldições” decorrentes de atitudes contrárias às regras religiosas, a igreja ensina que o distanciamento é indispensável. A maldição neste aspecto atua como um mecanismo de preservação do “absoluto do casal” (Caillé, 1991), que delineia o modo de ser casal e seus limites,
127 Embora desconsiderando o princípio contemporâneo de autonomia do indivíduo e vontade individual por questões óbvias de periodicidade, este fato foi identificado por Lévi-Strauss (1975) em sua reflexão sobre a “aliança” no ato de casar e as relações de parentesco.
criado a partir da sua escolha religiosa e ratificado pelos sucessivos discursos teológicos emitidos na igreja.
Em meio à idéia da família ser uma “Instituição Divina” (Mantoan, 2006: 16), o que se nota nesta forma de concepção religiosa familiar é uma resposta às demandas individuais dos envolvidos que lhes dá a sensação de ordem e sentido existencial- espiritual (Berger, 1970). Tanto nas literaturas quanto nos demais discursos da igreja é evidente a concepção de que o homem obtém prestigio social e realização pessoal ao se colocar na sociedade como aquele que interage com ela a fim de liderar e zelar por seu lar. A igreja reforça que Deus escolheu o marido para governar a sua casa e ser o principal provedor do lar, logo ele lidera, estuda, trabalha e interatua socialmente para fazer jus aos deveres que lhes foram outorgados. Além disso, a sua família, os seus bens e demais conquistas demonstram fazer parte do seu patrimônio viabilizado por Deus. O homem que procede em conformidade com as doutrinas eclesiais é “abençoado”, por isso contempla a harmonia familiar, o engajamento dos filhos à causa da igreja, a felicidade e o sucesso de sua esposa e filhos, e a prosperidade financeira.
Há também nesta fórmula familiar a presença de um androcentrismo (Bourdieu, 2001) menos rígido, se comparado aos séculos anteriores, que é capaz de reconhecer a mulher com um papel importante na relação conjugal e familiar, na administração da casa, na instituição religiosa e na sociedade. Por conseguinte, diante da necessidade de “ajudar o marido” com as despesas da casa, ela está liberada por Deus e pelos pastores da CG para se preparar academicamente e inserir-se no Mercado de Trabalho.128 Se de um lado a visão do governo masculino é preservada, de outro os anseios femininos modernos são inseridos e naturalizados. Deus, para esta religião, está a favor da mulher contemporânea, que além de esposa e mãe, busca ser uma profissional competente, arcar com as despesas do lar, custear os seus desejos, ter seus ideais de liberdade individual preservados e até mesmo seguir a carreira eclesiástica de pastora ao lado do seu marido. Destas asserções tem-se como ilação que o discurso religioso desta
128 Nos questionários não se fez pergunta sobre a profissão das mulheres, mas na parte designada para a indicação do grau de escolaridade a maior parte delas afirmou ter formação universitária ou estar fazendo faculdade. Por outro lado, pelas conversas informais e pela observação dos cultos foi possível constatar que muitas delas trabalham. Nos cultos às quartas-feiras muitas vezes o pastor perguntou quem tinha vindo para a igreja logo após o trabalho. Nestas ocasiões várias pessoas levantavam as mãos, dentre estas mulheres. Então, o pastor pedia aos trabalhadores que se colocassem em pé e ele fazia uma oração por todos pedindo a bênção de Deus para o trabalho.
igreja constrói uma codificação aparente das atitudes entendidas como admissíveis para as famílias de classe média associadas à CG e legitima-as. Fortalece-se, com isso, um modelo familiar moderno e as funções convencionadas de seus integrantes.129