Não é tarefa simples estimar a população brasileira que vive no exterior. Segundo dados do IBGE (2000), mais de dois milhões de brasileiros residem no exterior, dos quais metade vive nos Estados Unidos. Tal número já despertou interesse em alguns pesquisadores que realizaram estudos para compreender os aspectos motivadores dos deslocamentos populacionais e dinâmicas de socialização, seja no país hospedeiro, seja na possível volta ao Brasil. Das pesquisas localizadas, apenas uma é da área de Estudos Organizacionais (Freitas, 2005) e trata de profissionais brasileiros expatriados na França.
Embora nenhuma pesquisa aborde especificamente a percepção que esses brasileiros residentes fora do Brasil têm da cultura brasileira, temas como bagagem cultural e referência sobre o imaginário da brasilidade são recorrentes nesses estudos.
A seguir, serão apresentados aspectos de algumas dessas pesquisas que enriquecem o entendimento do contexto do presente estudo.
Pesquisas realizadas em regiões metropolitanas americanas com grande concentração de imigrantes brasileiros (SALES, 1999, MARTES, 2000, MARGOLIS, 2003, OLIVEIRA, 2003, BESERRA, 2005), como Boston, Nova York e Los Angeles, são estudos extensos, em sua maioria, etnográficos, que analisam o fluxo migratório, perfil dessas pessoas, motivadores e dinâmicas sociais de integração com a sociedade americana.
Enquanto, na década de 80, os primeiros imigrantes brasileiros nos Estados Unidos vieram da cidade de Governador Valadares, Minas Gerais, hoje a população imigrante tem origem bem mais diversificada, caracterizada por pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro, além de cidades do Oeste, Centro-sul e Sul do Brasil (MARGOLIS, 2003).
A decisão de emigrar é sempre conseqüência de um conjunto de circunstâncias (MARTES, 2000); porém as pesquisas apontam que, mesmo não admitindo abertamente, a maioria dos brasileiros vão para os Estados Unidos com o objetivo inicial de ganhar o máximo de dinheiro no menor tempo possível para viabilizar a volta ao Brasil (MARGOLIS, 2003). Isso configura uma aventura de riscos e incertezas para “tentar uma outra vida” (MARTES, 2000).
Uma aventura, mas não um projeto individual. Em muitos casos (SALES, 1999; MARTES, 2000; OLIVEIRA, 2003), nota-se que a migração faz parte de um empreendimento que conta tanto com o apoio da família que fica no Brasil quanto com redes sociais na cidade de destino. Assim, a maioria desses brasileiros saem do Brasil já com destino certo; depois de contato prévio, seguem para o mesmo local onde amigos e conhecidos já estão estabelecidos, o que facilita não apenas o alojamento ao recém-chegado, mas também o acesso ao primeiro emprego que, em geral, se insere no mercado informal de trabalho daquele país (OLIVEIRA, 2003).
Ainda que tais redes sejam fonte de solidariedade, sobretudo no início da vida no novo país, não raro, geram também situações de conflito e rivalidade (MARTES, 2000; OLIVEIRA, 2003). Margolis (2003) ressalta que muitos desses brasileiros têm dois ou três empregos; portanto, não existe muita disposição para agregar clubes e outras associações de base comunitária. Relatos apresentados por Sales (1999) indicam que o excesso de trabalho interfere também nas relações entre cônjuges e nas estruturas familiares.
Em contrapartida, em pesquisa realizada entre os anos de 1992 e 1997, na região metropolitana de Boston, Martes (2000) encontrou diversas entidades, organizadas por brasileiros, cujos objetivos giram em torno da representação diante de autoridades públicas e outros grupos imigrantes. A autora percebeu que tais entidades são sustentadas por profissionais brasileiros diferenciados quanto ao domínio da língua inglesa, documentação e grau de instrução. Em comparação com outros estudos, tais entidades conferem à comunidade brasileira da região metropolitana de Boston como uma das mais organizadas dos Estados Unidos. Nos demais estudos, igrejas são identificadas como pólos de apoio social e também centro de informações para recém-chegados e visitantes (BESERRA, 2005; MARGOLIS, 2003).
Não obstante o objetivo inicial de grande parte dos brasileiros que permanecem trabalhando nos Estados Unidos seja ganhar o máximo de dinheiro no menor tempo possível, as pesquisas indicam que não raro esse é um caminho sem volta (SALES, 1999; MARTES, 2000; OLIVEIRA, 2003; BESERRA, 2005). Mais uma vez, se a decisão de mudar para os Estados Unidos é a congruência de diversos fatores, também o é o adiamento da volta.
Sales (1999), cujo trabalho é fruto de uma investigação profunda entre o período de 1991 e 1997 e conta com cerca de setenta entrevistas, identificou a rápida redefinição das expectativas dos imigrantes, sobretudo depois das primeiras viagens de volta ao Brasil, quando se elabora uma imagem de que “nada mudou”. Ao mesmo tempo que alguns vínculos com o Brasil são mantidos, como a preservação da língua pátria, são tomadas ações no sentido da permanência nos Estados Unidos, como a compra de imóveis e até a constituição de família.
Martes (2000), que entrevistou 130 pessoas, das quais 40 foram por meio de narrativas de história de vida, aponta que os brasileiros, mesmo em situação clandestina, conhecem na sociedade americana outras dimensões de cidadania e respeito aos direitos individuais; tal
experiência suplanta possíveis aspectos de discriminação e hostilidade da interação com a sociedade hospedeira. A pesquisadora identificou que a memória trazida do país de origem é carregada de experiências frustradas tanto do ponto de vista econômico quanto social, o que reforça positivamente as percepções em relação à sociedade hospedeira. A vida nos Estados Unidos revela-se, portanto, como “uma boa surpresa”, pois oferece muito mais do que conquista econômica. Esse panorama também contribui para que uma situação que, a princípio, era transitória, torne-se definitiva.
Beserra (2005) realizou pesquisa etnográfica em dois grupos diferentes de brasileiros residentes em Los Angeles: um dos grupos gira em torno de uma igreja, o outro é uma associação informal de brasileiras que jantam juntas mensalmente. A pesquisadora percebeu que à proporção que os brasileiros se acostumam com o estilo de vida americano, deixam de perceber diferenças entre os dois países. No processo de acomodação à cultura hospedeira, alguns exageram nos aspectos negativos do Brasil como uma justificativa para a decisão de permanecer nos Estados Unidos. Conclui que “a vida nos Estados Unidos é muito mais fácil para aqueles brasileiros cujas vidas seriam também mais fáceis no Brasil” (BESERRA, 2005, p. 249) e o desejo de retornar ao Brasil é muito maior entre aqueles cujas expectativas em relação à vida no solo americano não foram correspondidas; para estes, voltar ao Brasil seria uma salvação.
Identidade e etnicidade são outros aspectos que perpassam as pesquisas sobre brasileiros vivendo nos Estados Unidos. Para Margolis (2003), a identidade de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos é construída em torno da perspectiva “não somos como eles”. O discurso é aplicado tanto para diferenciar-se de outros grupos imigrantes como os hispânicos, quanto de outros brasileiros também residentes nos Estados Unidos. O aspecto é percebido também nas outras pesquisas já citadas e corrobora com a baixa organização da comunidade local.
Enquanto as pesquisas realizadas nos Estados Unidos se preocupam com a emigração em si e as dinâmicas de socialização dos imigrantes, Freitas (2005) situa seu estudo num panorama tanto mais amplo quanto específico. Amplo porque sua investigação orienta-se por pressupostos ques discutem o caráter plural do mundo e do homem deste início de século. Específico, porque estuda a mobilidade internacional também como decorrência de estratégias e políticas organizacionais, além da vontade individual.
No sentido de revelar aspectos que contribuam na elaboração de políticas de expatriação que sejam mais objetivas, humanas e proveitosas para todos os envolvidos, Freitas (2005) traz da França depoimentos de executivos e seus cônjuges sobre a experiência de viver e trabalhar longe da terra natal. Tais depoimentos abrangem aspectos práticos, como a mudança e instalação no outro país; aspectos emocionais, como as saudades e estranhezas na experiência de ser estrangeiro; além de relatos sobre aprendizagem, autoconhecimento e dinâmicas familiares.
A autora pondera que as falas de seus sujeitos exprimem de maneira cabal a transitoriedade da situação de suas vidas, uma vez que demonstram a permanente reelaboração tanto de experiências práticas quanto de suas interpretações de mundo. Ainda que a pesquisa trate de executivos brasileiros na França, a autora ressalta que o caráter do ser estrangeiro e as inquietações do homem quando longe de sua terra natal são muito semelhantes, daí o tom universal de sua pesquisa.
Os expatriados da pesquisa de Freitas (2005) são atores de um mundo plural caracterizado pela mobilidade espontânea, uma vez que, diferentemente de exilados políticos ou refugiados de guerra, essas pessoas têm opções e qualificações profissionais, e, portanto, uma mobilidade encarada de forma positiva. Freitas destaca que a experiência do descobrir outros mundos concretos, tais como o idioma, códigos de conduta e ritmos temporais, é acompanhada da descoberta também “de um si diferente, estranho, medroso, assustado,
inseguro” (FREITAS, 2005, p. 291). Com essa afirmação, a autora humaniza e reforça o aspecto de aprendizado permanente a que esse brasileiro que não vive no Brasil está submetido.
Enquanto os brasileiros pesquisados por Sales (1999), Martes (2000), Oliveira (2003) e Beserra (2005) encontram em redes sociais o apoio tanto para a mudança quanto para o estabelecimento no outro país, os expatriados de Freitas (2005) os têm na organização que promoveu a mudança de país. Se os imigrantes do primeiro grupo, em alguns casos, devem favores, os expatriados do segundo grupo são cobrados pelo sucesso da experiência.
Outra diferença marcante entre os dois grupos está na ocupação profissional. O grupo pesquisado que vive nos Estados Unidos desempenha, em sua maioria, atividades no setor de serviços, que não requerem mão-de-obra qualificada; muitos, inclusive, no mercado informal de trabalho. Por sua vez, Freitas (2005) oferece um retrato de um profissional executivo, ou seja, daquele que ocupa cargos qualificados.
O perfil dos entrevistados da pesquisa ora apresentada se aproxima dos sujeitos da pesquisa de Freitas (2005).
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este item apresenta a abordagem metodológica que orientou a pesquisa de campo e a análise de conteúdo. Além disso, traz algumas considerações sobre conceitos que conferem clareza ao objeto da pesquisa e contribuem para sua confiabilidade e rigor científico do trabalho.