1.5. KUZEY AFRİKA
1.5.3. Son Kale: Trablusgarp’ta Yaşananlar
Duas características apontam na direção de que o ciclo de crescimento recente, apesar de se beneficiar do ciclo de expansão da economia mundial, tem sólidas bases domésticas. A primeira é que o crescimento no período 2003-2008 foi acompanhado de expansão da produtividade total dos fatores, que contribuiu com 42,6% do crescimento do produto no período (ver tabela 8). A segunda é que o forte crescimento dos preços internacionais das commodities não redundou em elevações muito expressivas dos termos de troca. Estes ganhos foram concentrados somente no primeiro semestre de 2008, e foram relativamente modestos, da ordem de 10%. Assim, é perfeitamente possível imaginar que a economia tem potencial de crescer 4,5% ou 5% de forma sustentável.
No nosso entender a grande dúvida é se a economia conseguirá financiar o investimento. Haverá poupança? Neste ponto concordamos com o diagnóstico de Hausmann.6 O maior limitador ao crescimento da economia brasileira hoje parece ser a
baixíssima taxa de poupança doméstica. Em geral há forte correlação entre poupança doméstica e crescimento.7 Um canal sugerido pela teoria é que o crescimento causa a elevação da poupança. O crescimento eleva a renda da população ativa que poupa para a aposentadoria no futuro. Já os atuais aposentados despoupam em função de uma riqueza que foi acumulada quando a renda era muito menor. Assim, o crescimento eleva a poupança dos ativos sem elevar a despoupança dos inativos. No entanto, o Brasil apresenta uma série de características institucionais que tem elevado o valor do benefício da aposentadoria, para inúmeros trabalhadores, mais do que os salários da ativa. Além disto, todos os funcionários públicos apresentam aposentadoria integral cujo benefício acompanha o salário dos ativos. Assim, uma elevação da renda, fruto de uma elevação da taxa de crescimento, não redunda em elevação da poupança.
A figura 19 apresenta a evolução da taxa de poupança. A poupança pública foi calculada empregando-se o conceito de superávit operacional do setor público. Isto é, a poupança pública é a soma do superávit operacional do setor público com o investimento público. Desta forma não se considera como gasto público a correção monetária da dívida pública.
6 Ricardo Hausmann, 2008, “In search of the chains that hold Brazil back,” Center for International Development, Harvard University.
7 Loayza, Schmidt-Hebbel e Servén, 2000, “Saving in Developing Countries: An Overview,” The World Bank
Figura 19: Taxa de poupança
Fonte: Contas nacionais anuais, IBGE. Os dados do superávit operacional do setor público foram obtidos no Ipea-Data. O investimento do setor público para 2007 e 2008 é o investimento somente da União, obtido no site do Tesouro Nacional. Para obtermos o investimento total em 2007 e 2008 supusemos que a razão entre o investimento da União e dos Estados e Municípios em 2007 e 2008 fora a mesma de 2006.
Nota-se que o período de forte crescimento recente foi acompanhado por redução da poupança privada de aproximadamente seis pontos de percentagem. Contrariamente à percepção que há entre diversos analistas este foi um período que a poupança pública elevou-se. Evidentemente, é possível que uma parte da redução da poupança privada seja conseqüência da forte elevação do crédito pessoal que houve no período. Como visto no período 2003-08 houve acelerado crescimento do crédito.
Assim, um problema que se apresenta na retomada da economia brasileira é a capacidade de financiamento externo. Tudo leva a crer que o país para crescer terá que conviver com déficits externos elevados e persistentes. A pergunta que se apresenta é se é viável a economia apresentar déficits na casa de 3 ou 4% do PIB por muitos anos. A literatura de sustentabilidade externa não conseguiu desenvolver indicadores consistentes. Os estudos de caso apresentados por Milesi-Ferretti e Razin (1996)8 sugerem que mais importante do que o valor do passivo externo líquido é a sua composição. Como o caso da Austrália ilustra, uma economia que funciona no regime de câmbio flexível, tem dívida externa preponderantemente em moeda local e parcela significativa do passivo externo
8 Gian Maria Milesi-Ferretti e Assaf Razin, 1996, “Current-Account Sustentability,” Princeton Studies in International Finance, # 81, outubro de 1996.
líquido na forma de renda variável, IED e portfólio, tem capacidade de absorver expressivos volumes de poupança externa por algumas décadas. Nossa impressão é que o Brasil está fazendo esforços para caminhar nesta direção. Ao zerar a dívida denominada em dólares o setor público deixou de prover head cambial ao setor privado. O país tem construído e mantido uma institucionalidade favorável ao investimento externo. Não tem havido quebra de contratos nem há força política com viabilidade eleitoral que defenda algum tipo de quebra contratual. De sorte que boa parcela do passivo externo líquido é na forma de renda variável. Finalmente parece-nos que o regime de câmbio flutuante está consolidado. Evidentemente o crescimento baseado em poupança externa produzirá câmbio valorizado e baixo crescimento do emprego na indústria não ligada ao agronegócio nem ao setor extrativo mineral, que constituem as vantagens absolutas do país. E, evidentemente, um crescimento calcado no setor de serviços requer que a sociedade brasileira equacione o problema educacional caso contrário dificilmente o crescimento produzirá empregos de qualidade.
Até o momento enfatizamos duas características estruturais da economia brasileira: o crescimento recente foi fruto de ganhos de produtividade e o gargalo maior da economia é a baixa taxa de poupança. A terceira característica refere-se à particular forma de inserção externa que houve no período 2003-08. Como discutimos ao longo do trabalho a particular ligação da economia brasileira com a China e com a América do Sul permitiu que o forte crescimento da demanda chinesa por bens primários não valorizasse em demasia o câmbio e mantivesse um forte crescimento da indústria e do emprego industrial. Isto é, a economia brasileira não foi acometida pela doença holandesa. O ganho de renda nos demais países da América do Sul conseqüência da elevação da demanda por bens primários gerou demanda cativa pelos produtos da indústria brasileira. A perspectiva à frente é que a indústria brasileira perca o mercado latino americano para as exportações chinesas de manufaturas. Esta perda do mercado internacional irá reforçar a tendência ao baixo crescimento da indústria em função da baixa poupança da economia.