3. BULGULAR
3.4. Marjinal Açıklık (MA) ve Mutlak Marjinal Açıklık (MMA) Bulguları
3.4.4. Simantasyon Sonrası Mutlak Marjinal Açıklık (MMA) Bulguları
Ao analisar a relação com a escola da EJA e com o local onde ela se localiza, percebi que os professores sempre fazem uma associação entre os fins da instituição e a vida na comunidade. Para eles, a função primordial da escola é preparar os alunos para a vida em sociedade, ainda que haja pequenas variações na explicação acerca dessa tarefa. De um modo geral, a principal ligação dessa relação é a de “socialização do aluno”; e as variações presentes podem ser agrupadas em duas perspectivas: a que considera relevante a aprendizagem para o momento presente do aluno e a que se propõe a produzir saberes como base para seu futuro, conforme mostrarei na sequência.
Na primeira delas, observei que os professores levam em consideração o momento presente do aluno. Com isso, a preparação para a vida em sociedade começa a ser praticada a partir da adaptação do aluno no âmbito do espaço escolar e da convivência pacífica junto os demais, com quem divide esse mesmo espaço.
O aluno [jovem e adulto] vem para a escola já conhecendo o ambiente escolar, como ele é, certo? Para aprender a convivência com as outras pessoas [alunos] pra que consiga, realmente, se situar no ambiente escolar. Essa é a minha opinião (WANJA, 2009).
A escola ensina o aluno a se socializar com as outras pessoas, porque tem aluno que não se dão bem, eles brigam, até mesmo porque, às vezes, moram perto... Aí, acontece dos pais chegarem e dizer pra gente: - Não deixe fulano ficar perto dele porque estão de mal. Então, eles vêm adquirir conhecimento da vida (RAIMUNDO, 2009).
A preocupação com o desenvolvimento de relações justas, amistosas e solidárias está presente tanto na fala de Wanja quanto na de Raimundo. Por isso, atitudes egoístas e de constantes rompimentos das amizades, muito frequentes entre os jovens e adultos, não devem, conforme o que expõem os professores, transformar-se em “acontecimentos naturalizados” na convivência entre os alunos. Portanto, a perspectiva que orienta sua preparação para a vida é, de acordo com o exposto, aquela em que se valoriza o tempo mesmo da adolescência, com necessidades e características particulares dos adolescentes, com seus dilemas, pré-conceitos e distúrbios sociais.
Ainda com base nessa orientação, alguns professores trazem para a sala de aula os fatos vividos na comunidade como forma de preparar os alunos para se defenderem dos perigos. No período em que estava a realizar a pesquisa, presenciei a angústia que tomou conta da escola devido ao estupro, seguido de assassinato, de um jovem que era aluno da EJA. A partir desse episódio, os professores começaram a ficar muito atentos à saída dos alunos, e, além disso, passaram a desenvolver leituras e outras atividades que tocassem nesse assunto e, por meio delas, pudessem advertir os jovens e adultos para determinados perigos aos quais eles estivessem sujeitos.
A escola deve preparar pra vida, né? Bom, como no caso que houve agora... Da morte desse jovem! Do rapaz que matou esse jovem! Dois dias antes, eu tinha feito com eles uma leitura sobre... “violência”... Um negócio assim! Então, eu li pra eles essa... Esse texto. Um texto muito bom que falava de violência na sociedade, é... Que preparava esses jovens pra vida! Então, com dois dias, aconteceu a morte, exatamente, é.. Mais ou menos tudo o que eu conversei com eles. E se esse jovem tivesse ouvido isso, ele não tinha
seguido sido morto. Eu acho assim! Então, a isso eu chamo preparar pra vida lá fora (ANSELMO, 2009).
Os alunos precisam saber se situar, saber repassar alguma, por exemplo, o que ele vê num jornal ou num filme qualquer que seja, depois ele chega contando na escola. Eu acho muito importante, né? Essas questões que são questões básicas! Que devem ser trabalhadas, no dia a dia, porque são essenciais! (GILKA, 2009).
Como se pode observar, os professores entrevistados têm a preocupação de proteger os alunos para que eles não sejam vitimados pelos perigos que a sociedade oferece. Nesse contexto, o trabalho docente parte do que ocorre no lado de fora da escola para oportunizar aos alunos uma experiência educativa voltada para a realidade da comunidade.
A respeito da segunda perspectiva de preparação dos alunos para a vida, os professores deixam claro que a mira está, de modo mais acentuado, em seu futuro, por meio do que pode ser aprendido em seu momento presente.
A escola deve prepará-los pra que eles se tornem pessoas boas dentro da sociedade, porque esse mundo velho é muito cheio de desigualdades, de discriminação! Muitas mães estão perdendo seus filhos pras drogas, pra prostituição, pra muitas coisas, e... Eu penso, assim, que com a ajuda da mãe e da escola esses alunos se tornarão pessoas melhores no mundo do futuro, no futuro... Porque os alunos são os profissionais de amanhã! Então, eu acho que eles terão sucesso dentro da escola, dentro da educação (ELIETE, 2009). Eu acho que escola deve ensinar as boas maneiras. Acho muito importante aquele obrigado! Por favor! Com licença! Eu acho, até, que a gente deveria expor em todos os cantos da escola: Com licença! Obrigado! Porque, hoje em dia, a gente vê que os jovens vão pegando um ritmo de... como se fossem uns adultos, já mal-educados, né? E isso não é bom para eles, nem para a gente, nem pra educação, de um modo geral! Futuramente, vão ser pessoas mal-educadas! Então, a educação deve dar prioridade a essas boas maneiras... pra que eles vão pegando aquele costume, aqueles bons hábitos (GILKA, 20009).
Orientadas por essa visão, as professoras citadas acreditam que a escola para jovens menores de dezoito anos deve se organizar, com a ajuda da família, a fim de lhes promover a construção de saberes necessários ao enfrentamento de uma vida adulta, diferentemente, em seus aspectos negativos, daquela que se conhece na comunidade. Nessa perspectiva, uma das “figuras do aprender” que pode ser explicitada aqui é o domínio da própria atividade de educar, pois ao falar dos fins da escola, as professoras Eliete e Gilka demonstram uma consciência reflexiva acerca de como estão aprendendo também o seu próprio papel na instituição da EJA.
Como se pode observar, a aprendizagem da função de educar, bem como a execução dessa atividade, por parte das professoras têm a ver com suas próprias histórias de vida. No caso de Eliete, a defesa por uma educação que transforme os alunos em pessoas boas dentro da sociedade se dá em função de que sua história de discriminação e desigualdade social foi transformada a partir do momento em que ela iniciou uma escalada de aprendizagens cheia de determinação. No que diz respeito à professora Gilka, ensinar as boas maneiras para o alunos é tão importante e necessário quanto lhes oportunizar bons exemplos de comportamento, ético, moral e profissional, como o que ela teve em sua vida.
No entanto, essas professoras defendem, com bastante propriedade, que essa tarefa da escola, e consequentemente o seu, poderia ser otimizado com outras atividades se elas pudessem contar com uma estrutura física mais adequada. Diante disso, a defesa se sustenta na medida em que as tensões vivenciadas no interior das relações intersubjetivas são consideradas como um problema menos relevante, e por certo, contornável por elas mesmas.
A escola é a base, né? Infelizmente, ela ainda não é como a gente gostaria que fosse. Porque eu acredito que pra receber [ofertar] a educação, a escola deveria ser melhor... Eu estou falando, agora, na parte física! Eu ainda acho muito longe para o quê um aluno merece, entendeu?! Em termos de escola, em termos de estrutura física, eu acho que ainda está muito longe, né? Você veja que as nossas salas são superlotadas, abarrotadas de cadeiras... que pra gente chamar eles aqui para a frente, pra fazer aquela conversa um pouco, precisa afastar, né? Bom, mas, futuramente, as perspectivas são de melhoras, graças a Deus! Como você vê, a quadra está sendo coberta e tem todo um projeto pra escola, incluindo um refeitório e tudo, né? Agora, no lado humano, eu acho, assim, que a gente se dá muito bem, né? Se não estamos errando... se está faltando alguma coisa, assim, relacionada à relação entre professor e aluno, mas o que a gente procura fazer é sempre o melhor (GILKA, 2009).
A professora citada sabe que as condições físicas da escola para receber os alunos são inviáveis, na medida em que se torna impossível, naquele estado das coisas, a promoção de um ambiente acolhedor, seguro, alegre e instigador do ponto de vista da adequabilidade. Assim sendo, por mais boa vontade que tenham, fica difícil para os professores organizar os espaços de modo que possam oferecer aos alunos uma rica experiência educativa em termos de aprendizagens relevantes a sua vida.
Se recordarmos os momentos que descrevi no capítulo 2, a referência feita por Gilka em relação ao refeitório não é gratuita. Em sua avaliação, as condições nas quais os alunos fazem as refeições na escola tendem a ser, certamente, inaceitáveis. Além disso, o comentário acerca do amontoado de cadeiras na sala de aula remete ao fato de as salas serem utilizadas
por vários professores e turnos, com turmas diferentes, o que acentua ainda mais os problemas. De qualquer modo, vale destacar o saber-fazer da professora, pois, segundo ela, sua ação se configura como “sempre o melhor” que pode ser feito naquelas condições.