• Sonuç bulunamadı

4. SEYYĠD ĤASAN-İ ĠAZNEVÎ DîVÂNI’NIN NÜSHALARI ve ġĠĠRLERĠNĠN BULUNDUĞU MECMUA ve CÖNKLER

5.2. Uyak ve Redif

No ensaio sobre Joan Miró, João Cabral de Melo Neto (1950/2007, p.291) esclarece um dos pontos da sua teoria da composição, o significado do vazio, quando afirma:

... essa valorização do fazer, esse colocar o trabalho em si mesmo, esse partir das próprias condições do trabalho e não das exigências de uma substância cristalizada anteriormente , tem na obra de Miró , uma outra utilidade. Esse conceito de trabalho, em virtude, principalmente, dessa disponibilidade e vazio inicial, permite, ao artista, o exercício de um julgamento minucioso e permanente sobre cada mínimo resultado a que seu trabalho vai chegando.

A “ausência” que o homem leva o que é se não um vazio? Tanto a coletânea

Duas Águas como o poema “Uma faca só lâmina” remetem com insistência a conceitos negativos: “o vazio, o sem, o nada”. O trabalho é sentido com os lexemas que aparecem no prólogo: “enterrada”, “pesado”, “revoltoso”, “impiedade”, “doloroso”. Na série negativa, no encadeamento que a obra cabralina mostra ao longo de seu percurso, também encontramos palavras negativas (não, nunca, nenhum, nada, sem) que aparecem com bastante frequência, traduzindo objetos e traços ausentes. (REBUZZI, 2010, p. 78). É o que se nota nos versos:

Por isso é que o melhor dos símbolos usados é a lâmina cruel

(melhor se de Pasmado): porque nenhum indica essa ausência tão ávida como a imagem da faca que só tivesse lâmina, nenhum melhor indica aquela ausência sôfrega que a imagem de uma faca reduzida á sua boca, que a imagem de uma faca entregue inteiramente à fome pelas coisas que nas facas se sente. (MELO NETO, 2007, p.182).

39 As palavras - lâmina, ausência, faca - dão sinais da força semântica, do trabalho com a negatividade que traduz a possibilidade de um poema que exibisse uma agudeza cortante, linguagem incisiva, sem lirismo, precisa.

Solange Rebuzzi (2010), em sua tese de doutorado, cita o crítico Francis Ponge sobre a teoria do objeu (objeto que se reporta a um fora “ob” – ao mesmo tempo em que, de forma paradoxal, está inserido no jogo da linguagem). Afirma que Ponge se situa em uma ampla variedade de poesia de circunstância, na qual os objetos do cotidiano se mostram em potência de linguagem obscura. Eles estão fora da alma e, certamente, são como chumbo em nossa cabeça. (REBUZZI, 2010, p. 95).

Encontramos, no poema “Uma faca só lâmina”, objetos que compõem uma imagística que têm como sema comum a agudeza, a ausência, a precisão (faca, lâmina, esqueleto, ossos, sabres, espada, vértebras, agulha, deserto). Os semas negativos de - vazio, sem, nada, escasso - refletem na linguagem, como enfatiza Solange Rebuzzi (2010:95), “em forma de objetos concretos acompanhados de modificadores negativos e objetos incompletos, que introduzem a falta ou o vazio”.

A falta ou o vazio que esses objetos incompletos introduzem remetem-nos a alguns pontos de semelhança. A primeira diz respeito à prioridade dada ao “espesso” das palavras (REBUZZI, 2010, pp. 99-100), traduzido em “Uma faca só lâmina”:

Essa lâmina adversa, como o relógio ou a bala, se torna mais alerta todo aquele que a guarda, sabe acordar também os objetos em torno e até os próprios líquidos podem adquirir ossos. E tudo o que era vago, toda frouxa matéria, para quem sofre a faca ganha nervos, arestas. Em tudo o que era vago , toda frouxa matéria, para quem sofre a faca ganha nervos, arestas.

40 Em volta tudo ganha

a vida mais intensa, com nitidez de agulha e presença de vespa. Em cada coisa o lado que corta se revela, e elas que pareciam redondas como a cera despem-se agora do caloso da rotina, pondo-se a funcionar com todas suas quinas. Pois entre tantas coisas que também já não dormem, o homem a quem a faca corta e empresta seu corte, sofrendo aquela lâmina e seu jato tão frio, passa, lúcido e insone,

vai fio contra fios.(MELO NETO,2007, p. 190)

Nas imagens que compõem a parte I, o poeta trabalha a noção de corte, precisão, depuração. Os semas são comuns à agudeza, lucidez, obsessões. No ato da criação, no trabalho com a linguagem, Cabral não se deixa fascinar, ele sabe que o trabalho é constante, que o viés é de recusa para se chegar à apresentação da realidade.

No ensaio “O espaço literário”, Maurice Blanchot (2011, p. 25-26) lembra-nos que

escrever é entrar na afirmação da solidão onde o fascínio ameaça. É correr o risco da ausência de tempo, onde reina o eterno recomeço. É passar do Eu ao Ele, de modo que o que me acontece não acontece a ninguém, é anônimo pelo fato de que isso me diz respeito, repete-se numa disseminação infinita. Escrever é dispor a linguagem sob o fascínio e, por ela, em ela, permanecer em contato com o meio absoluto, onde a coisa se torna imagem, onde a imagem, de alusão a uma figura se converte em alusão ao que é sem figura e, de forma desenhada sobre a ausência, torna-se a presença informe dessa ausência, a abertura opaca e vazia sobre o que é quando não há mais ninguém.

Maurice Blanchot e Cabral discutem em suas poéticas: o que é a imagem? Segundo Blanchot (2011, p. 26) a poesia é uma linguagem que, mais do que as

41 outras, abriga e legitima as imagens; João Cabral usa o fio da navalha da palavra poética negativa que recusa o limite, quer uma estética entre a imagem no texto e o texto da imagem, quer a imagem do risco da lâmina, risco da palavra ainda não escrita, mais sonora para ser ouvida.

Nesse sentido, o lavoro é difícil, a luta com as palavras se dá num nível de obsessão. João Cabral segue à risca as precisões matemáticas de Paul Valéry. Exatidão era uma das obsessões de ambos os poetas na tão almejada hora da escrita. Podemos, aqui, evocar Italo Calvino de As seis propostas para o próximo

milênio, cuja terceira proposta “Exatidão” afirma que exatidão quer dizer principalmente três coisas: