II. BÖLÜM
2.1 ÇN SANATININ DOUU VE GELM
Guattari é iconoclasta, irreverente. Se expressa em um fluxo de ideias e palavras próprias; muitas delas verdadeiras metáforas, que com freqüência dificultam a tarefa de acompanhá-lo, mas a sua obra está invadida de forma constante por ideias originais, que permitem refletir sobre o tema subjetividade, longe de qualquer tentativa de substancialização da subjetividade em atributos concretos, invariáveis e universais. (In: GONZÁLEZ-REY, 2003, p.112)
Segundo González-Rey (2003) a maioria dos autores não consegue dar conta de uma explicação completa de subjetividade, a tendência é entender que vem de fora e se internaliza. Ora, a subjetividade não se internaliza, essa visão permanece limitada à dicotomia “dentro” e “fora”. O psíquico é formado no social, que é formado pelos indivíduos e seus mundos internos, que são fomados no sistema social subjetivo, e assim por diante – é um movimento recíproco, simultâneo e ininterrupto. Escreve González-Rey (2003, p.78): “Na minha opinião, trata-se de compreender que a subjetividade não é algo que aparece somente no nível individual, mas que a própria cultura na qual se constitui o sujeito individual, e da qual é também constituinte, representa um sistema subjetivo, gerador de subjetividade.”
Aqui encontra-se um ponto de contato entre a Socio-Histórica e as ideias de Guattari, cujo pensamento ultrapassa a teoria em suas bases psicológicas e entra fundo no questionamento filosófico, considerando as implicações sociais e culturais. “Para Guattari, a subjetividade é sempre uma produção social, processo que se apresenta em sua forma mais aguda com a formação maquínica e em série da subjetividade capitalística, que bloqueia os processos de singularização.”, diz Rey (2003, p. 113). A subjetividade capitalística é tão agressiva que, ao conectar-se ao mecanismo social de produção de subjetividade, sobrepuja as ligações afetivas, familiares, de raízes e as atravessa, conectando-se direto aos receptores psíquicos da percepção e desenvolvendo uma subjetividade dominante.
Pela perspectiva da psicanálise freudiana e lacaniana, o inconsciente produz o sintoma, e aí paralisa o sujeito. Pela perspectiva da esquizoanálise de Guattari e Deleuze, o inconsciente é produzido pelo choque de subjetividades e leva à ação. O inconsciente está comprometido com a ação, é preciso haver espaço vazio para ele se produzir. Com o conceito de semiótica a-significante, Guattari entendia que a percepção não vem somente coma subjetividade composta do que é dado; tanto a percepção do sujeito quanto o espaço do encontro entre sujeitos muitas vezes é um receptáculo vazio capaz de num momento criar uma nova subjetividade. A esse processo ele denomina revolução molecular, quando há uma recusa à subjetivação capitalística.
O que é produzido pela subjetividade capitalística, o que nos chega através da mídia, da família, enfim, de todos os equipamentos que nos rodeiam, não são apenas ideias; não são a transmissão de significações através de enunciados significantes; nem são modelos de identidade ou identificações com pólos maternos, paternos, etc. São, mais essencialmente, sistemas de conexão direta, entre, de um lado, as grandes máquinas produtoras e de controle social e, de outro, as instâncias psíquicas, a maneira de perceber o mundo...” (In: GUATTARI e ROLNIK, 1986, p.67).
Interessa-nos entender essa dimensão subjetiva expressa por Guattari, que vem sendo produzida nessa ordem capitalística, sendo a subjetividade uma produção social serializada (maquínica), chegando através dos meios de comunicação em massa (mídia impressa, televisiva) ou mesmo das pessoas que trabalham e convivem na sociedade já “contaminada” por ideias determinadas historicamente.Guattari e Rolnik (1986, p.34) escrevem: “é a subjetividade individual que resulta de um entrecruzamento de determinações coletivas de várias espécies, não só sociais, mas econômicas, tecnológicas, de mídia”. Tal subjetividade individual, quando se a transporta sem muito questionar não será favorável para a singularização do sujeito, que pertence à transformação do social.
Sobre isso, Ferrari (2011b) escreve:
O território tem um valor existencial, definido não só pelo espaço físico como também pelo espaço interno, numa dimensão subjetiva: subjetividade está em permanente produção, pelos mais heterogêneos vetores; nas relações que acontecem no cotidiano, os corpos se lançam, pensamentos se entrecruzam e subjetividade se produz nesses fluxos sociais. O território circunscreve, para cada um, marcas de permanência e de apropriação, resultantes de agenciamentos que engajam sempre dimensões heterogêneas.
Essa luta da singularização contra a serialização deve ser nosso papel, nos salvar do esmagamento pela subjetividade dominante. E o território que tem esse valor existencial como citado acima é o campo onde pode se dar essa batalha, o território onde há os laços afetivos, familiares, as raízes, o sentimento de permanência do sujeito – em meio a um mundo em incessante mutação e bombardeamento de produtos e subjetividades a serem consumidos.
Guattari e Rolnik (1986, p.37): “A questão que se coloca é saber como a micropolítica de processos singulares articula-se com esses processos de individuação.” Individuação deve ser entendida como a serialização a que é submetida o sujeito pelas características que o identificam semelhante a outros – classificação para o consumo. Micropolítica são os contatos entre sujeitos em que despontam as singularidades, onde há desejo e se produzem novas subjetividades. Guattari e Rolnik (1986, p.47): “O desejo só pode ser vivido em vetores de singularidade.” Se o movimento se dá da individuação para a singularização, ele é uma
libertação; se se dá no outro sentido, é um processo de culpabilização, ou de repressão. Então, em termos de subjetividade, vivemos essa tensão permanente entre o que Guattari chama de individuação e singularização.
A dimensão subjetiva e a importância de que se integre o social e o individual em heterogêneos agenciamentos que venham a compor o território do terceiro setor, mais especificamente em relação ao ato de doar, buscando apreender o território existencial dequem doa numa posição fronteiriça entre múltiplos territórios, pode atuar como um vetor de contágio. Onde o sujeito identifica sua própria história e se percebe reconhecido em sua singularidade, é possível para ele encontrar o outro em sua diferença e unir-se para somar forças. Quando o sujeito doa para uma organização do terceiro setor, ele transforma algo e leva consigo sua experiência em seu ato de doar, essa experiência pode estar contaminada por propósitos capitalísticos (doar para ganhar algo em troca) ou por propósitos altruísticos singulares (doar simplesmente para ajudar), o sujeito opera no sentido da singularização quando ocupa esses espaços, e contagia mais pessoas. Esse nível de contágio pode se fazer através de um agenciamento de subjetividades desprovidas de arrogância e acrescidas da vontade de ajudar e quando isso ocorre se tenta afetar subjetividades endurecidas, atuando como um vetor de singularização.
Tudo isso é possivel se o próprio doador examina suas modelizações subjetivas, entende-as e pratica a micropolítica, que ocorre em favor daquilo que é sentido como bom, justo. Qual o modo para declarar e exercer o direito à singularização no ato de doar? Para experimentar aquilo que nos força a pensar, aquilo que provoca deslocamento e mutação subjetiva é preciso ações e um pensar na contramão dos imediatismos das respostas universais, dadas pelo capitalismo. Assim o contágio será no sentido de criar, fabricar outros modos de vida a partir de passos de singularização, aqui dados por quem doa para modificar uma realidade sentida de injustiça. Sendo assim, a subjetividade pode não se submeter a um controle, pode não sofrer modelização, o sujeito pode não sofrer a dessensibilização que ocorre quando se fixa num território conhecido e aparentemente seguro.