A bebedeira de Dodge é sinalizada pela primeira ação da peça. As luzes são acesas e revelam o velho homem sentado no sofá olhando fixamente para televisão.
Ele vira sua cabeça vagarosamente para esquerda e olha fixamente para a almofada do sofá próxima da que ele está sentado. Ele tira seu braço esquerdo debaixo do cobertor, enfia sua mão embaixo da almofada, e tira uma garrafa de uísque. Ele olha para baixo, do lado esquerdo em direção a escada, ouve atentamente, então abre a garrafa, toma um longo trago e a fecha novamente. (p.64)
O primeiro som que ouvimos é Dodge tossindo, o segundo é a voz de Halie lá de cima, oferecendo uma pílula para Dodge. Ele continua bebendo disfarçadamente enquanto ele conversa com sua esposa, que permanece no andar de cima. A necessidade, ou a necessidade observada, de esconder o suprimento de álcool é sintomática do ‘cabo de guerra’ que existe na família; para controlar a bebida, a família tenta, e fracassa, em controlar o suprimento de álcool enquanto que Dodge usa todos seus recursos para obter e protegê-lo.
Quando Tilden, um pouco mais tarde, pede para seu pai “um pouco daquele uísque que você tem... debaixo do sofá” Dodge raivosamente nega possuí-lo:
DODGE: Eu não tenho nada debaixo do sofá! Agora cuide da sua própria vida! Deus do céu, você vem para casa saído do nada, não ouvimos falar de você ou vimos você em vinte anos e repentinamente você está fazendo acusações.
TILDEN: Não estou fazendo acusações.
DODGE: Você acabou de me dizer que eu tinha uísque debaixo do sofá! (p.71 -72).
Dodge está na defensiva e com a intenção de impedir seu suprimento de ser consumido por Tilden ou confiscado por Halie.
Esse momento na peça é significante porque encapsula as condições de comunicação na família: ninguém pode discutir o que está realmente acontecendo na família, tanto uns com os outros como com os estranhos. Tanto Dodge quanto Tilden sabem que tem uísque debaixo da almofada do sofá, mas a resposta de Dodge nega essa realidade. Ao mesmo tempo, Dodge transfere a vergonha e culpa para Tilden. O tratamento de Shepard desse pequeno segredo é emblemático do milho, das cenouras, e da criança enterrada; é uma disjunção entre o que realmente está acontecendo e o que os personagens reconhecem como sendo real.
A devoção de Dodge para o álcool é muito mais intensa que seus relacionamentos com qualquer pessoa ou qualquer coisa. Ele passa a maior parte do Ato II tentando fazer com que alguém substitua a garrafa de uísque que Tilden bebeu. Dodge volta-se para Vince e Shelly quando Tilden recusa-se a ir até a cidade para buscar bebida. “Ninguém”, Dodge afirma, “compreende a urgência” (p. 96). Mais de vinte dos discursos de Dodge no segundo ato são devotados a sua sede, sua necessidade de uma garrafa. Ele julga cada um dos personagens levando em consideração sua habilidade ou boa vontade em provê- lo com uísque. Quando Shelly sugere que talvez Vince devesse ir até a cidade para comprá-lo, Dodge diz: “Ela é uma garota bonita. Excepcional” (p. 95). Dodge reavalia Shelly, entretanto, quando ela é contra a partida de Vince que pretende deixá-la na casa: “Não a deixe convencê-lo do contrário! Ela é uma má influência sobre você. Eu percebi isso no momento que ela pisou nessa casa” (p. 96). Quando Vince hesita em ir porque, “Tilden diz que você não deveria beber”, Dodge opõe-se: “Tilden perdeu os miolos! Olhe para ele! Ele está enlouquecendo. Dê uma olhada nele”. (p. 98).
De maneira geral Dodge percebe um mundo ameaçador preenchido por pessoas hostis que querem manipular e/ou controlá-lo. Tal percepção explica a mania que ele tem de guardar segredo, sua aparente indiferença e sua hostilidade efervescente. Explica também, sua necessidade de distanciar-se emocionalmente dos outros, incluindo
especialmente, sua própria família.
Encontramos esses três fatos mencionados acima em Dodge desde o inicio da peça. A distância que ele mantém da sua família e sua devoção correspondente ao álcool é reforçada visualmente e verbalmente do começo ao fim da peça. A conversa entre os andares que começa na peça é um exemplo visual admirável da separação de Dodge e Halie, uma separação que é mais que física. Nos primeiros momentos, Halie ameaça lá
de cima, “Vou descer em cinco minutos se você não me responder!” (p. 64). Dodge responde, duas vezes, “Não desça” (p. 64). Ele imita Halie e faz comentários desagradáveis que ela não pode ouvir deste modo corroendo a superfície polida da conversa deles. Ele também não responde a ária dela enaltecendo Ansel, o segundo filho que “teria tomado conta de nós, também” (p. 73). Durante a peça, Dodge nunca menciona Ansel diretamente.
Dodge está enfaticamente distante de seu filho Bradley e desafoga sua hostilidade dizendo: “Ele nasceu em uma maldita pocilga! Lá foi onde ele nasceu e lá que ele pertence! Ele não pertence a essa casa!” (p. 76). O desprezo de Bradley pelo pai fica igualmente claro. Assim como Dodge previu, Bradley vem quando o velho está dormindo para cortar o seu cabelo, ostensivamente sem nenhuma preocupação com a aparência de Dodge, mas “Ele olha para a face de Dodge dormindo e balança sua cabeça indignado” (p. 82). O corte de cabelo que ele proporciona para Dodge: “o cortou extremamente curto e em alguns lugares o couro cabeludo está cortado e sangra” (p. 83). No Ato III, os dois se insultam e batem boca sobre o cobertor de Dodge como se fossem duas criancinhas.
Dodge também mantém distância do seu neto que irá ser seu herdeiro. Durante o Ato II, Dodge nunca reconhece Vince. Seu primeiro comentário ao vê-lo é: “Você trouxe o uísque?” (p. 87). Depois que ele percebe que Vince não é Tilden, Dodge questiona os dois jovens perguntando quem eles são e de onde eles vêm. Quando Vince se aproxima, ele diz: “Mantenha distância!” e quando Vince o chama de avô, Dodge protesta: “Pare de me chamar de avô! É repugnante. ‘Avô’. Eu não sou avô de ninguém!” (p. 89-90). As palavras proféticas de despedida de Dodge para Vince quando o jovem vai pegar dinheiro para comprar ‘Gold Star Sour Mash’ (Jack Daniel's Old No. 7 Brand Tennessee Whiskey, Sour Mash 750 m) são: “Não vá para nenhum outro lugar. Não vá a algum lugar e beba. Volte direto para cá” (p. 99). Assim que o Ato III abre Dodge, certo de que Vince desapareceu, não está preocupado com Vince, mas com sua garrafa e com seus “dois dólares”.
Dodge está mais próximo do personagem Tilden. Como foi demonstrado acima, ele não recebeu seu filho mais velho exatamente com os braços abertos, mas ele defende Tilden dos ataques verbais de Halie. Dodge parece sentir-se mais confortável com Tilden do que com qualquer outro personagem. A conexão entre pai e filho é estabelecida pela ordem formal de Halie: “Dodge! Ele não está bebendo, está? Cuide para que ele não beba nada! Você deve tomar conta dele” (p. 72).
Shepard retrata Dodge como uma vítima, e é o que ele é, mas não tem nada a ver com a idade, a conduta deplorável de Halie, desespero por ter perdido seus sonhos, ou culpa por seu crime indizível que destrói Dodge. Dodge afogou seus sonhos e seus relacionamentos assim como ele afogou a criança enterrada; ele e sua família são vitimas do sistema que eles mesmos criaram.