Apesar de não se inserir nas responsabilidades dos papéis familiares analisados no presente estudo, um dos símbolos da peça exige uma atenção especial. A criança enterrada do título da peça de Shepard permanece o mais perturbador e intrigante mistério da peça. No Ato I, a família apresenta alusões implícitas de um segredo que
não pode ser contado. Quando eles realmente o contam, nos Atos II e III, seus relatos são irreconciliáveis. Somando-se a isso, muito do que é dito na peça carrega um segundo ou terceiro significados na luz do segredo parcialmente revelado. O dramaturgo resolutamente recusa-se a resolver o mistério. Numa entrevista de 1984, Shepard diz “Acredito que seja um truque barato dar uma solução para as coisas. É uma completa mentira propiciar soluções” (LIPPMAN, 1984, p. 10).
Muitas das inconsistências ou incompatibilidades são explicadas num ensaio de Christopher Whiting (1988), Digging up Buried Child. Whiting compara as três versões rascunhadas da peça com a versão definitiva encenada e publicada para esclarecer algumas das confusões. Linhas das duas primeiras versões, na qual Dodge mata seu filho recém nascido, permanecem na versão final, complicando a ‘verdade’ da peça definitiva: a referência de Dodge a sua carne e sangue sendo enterrado no quintal, por exemplo. Linhas persistem da terceira versão na qual Bradley, então uma criança pequena, matou seu irmão e teve que ser acobertado por seus pais. Seu pânico no Ato III do texto final, quando a revelação está prestes a acontecer, é realçado na versão na qual Dodge tece um comentário que, se você vai dormir “Eles matarão suas crianças” (p. 93). Encontrar as fontes de algumas ambiguidades, entretanto, não resolve o problema de interpretar “o que realmente aconteceu”.
O que é indiscutível é que o assassinato dessa criança é algo que não deve ser comentado, especialmente na frente de estranhos. Buried Child é um exemplo marcante sobre o grau do segredo - a inabilidade para falar sobre problemas – ao invés da sua severidade, que define o quão disfuncional a família pode se tornar e o quão severamente seus membros são prejudicados.
A primeira referência pública feita sobre a criança enterrada é de Dodge: “[Bradley] não é minha carne e sangue! Minha carne e sangue estão enterrados no quintal” (p. 75). Halie diz somente, “É o suficiente, Dodge. É mais que o suficiente” (p. 77). Depois que Halie sai, Tilden faz uma objeção: “Você não deveria ter tido isso para ela” (p. 77). No Ato II, é Tilden que revela e Dodge que reage. Não observado por Dodge, Tilden começa a contar a história para Shelley: “Tínhamos um bebê. (apontando para Dodge) Ele fez. Dodge fez. Podia pegá-lo com uma mão. Colocá-lo na outra. Um bebezinho. Dodge o matou” (p. 103). Quando Tilden continua, Dodge luta freneticamente para impedi-lo, mas Tilden continua falando e Dodge cai no chão tossindo. De acordo com Tilden, Dodge “disse que ele tinha suas razões. Disse que isso vinha de muito longe. Mas ele não contaria para ninguém” (p. 104).
A explicação de Dodge fornece uma razão, e provoca reações desesperadas tanto de Halie quanto de Bradley. Shelley estimula Dodge a revelar seu segredo. Ela diz, “Eu sei que você tem um segredo. Todos vocês têm um segredo. É tão secreto que todos vocês estão convencidos que ele nunca aconteceu” (p. 122). Quando ele ameaça contar para Shelley o que aconteceu, Halie diz, “Dodge, se você contar isso – se você contar isso, você estará morto para mim.” (p. 123). Bradley, incapaz fisicamente de impedir Dodge porque Shelley está com sua perna, evoca o ‘pacto’ de segredo que a família fez, mas Dodge recusa-se a parar. A última palavra de Halie sobre o assunto invoca Ansel: “Ansel o teria impedido de dizer essas mentiras!” (p. 124).
Na versão de Dodge, ele matou a criança, ele a afogou, pois não era filho dele. Dodge afirma que “Halie engravidou novamente” quando “não estávamos dormindo na mesma
cama por mais ou menos seis anos” (p. 123). Ele também diz que “Todos a nossa volta sabiam disso. Todos. Todos os nossos garotos sabiam. Tilden sabia” (p. 124). Dodge explica:
Não podíamos permitir que algo como aquilo continuasse. Não podíamos permitir que aquilo crescesse bem no meio das nossas vidas. Aquilo fazia com que tudo que nós alcançamos parecesse nada. Tudo foi cancelado por esse único erro. Essa única fraqueza. (p. 124)
Na história de Dodge, o infanticídio era um tipo de expiação, um ‘bode expiatório’ definitivo, mas claramente o sacrifício não trouxe nenhuma redenção.
A interpretação crítica mais amplamente difundida desse mistério é que a criança que Dodge afogou era o resultado de uma relação incestuosa entre Halie e Tilden. Esse ponto de vista origina-se na referência de Tilden, “Eu tive um filho uma vez, mas nós o enterramos”, e da afirmação de Dodge que “Tilden era o que sabia de tudo. Mais do que qualquer um de nós” (p. 124). Dodge também descreve o cuidado que Tilden tinha pela criança. A abordagem sobre o filho de Tilden é necessária para sustentar a interpretação que Vince e a criança enterrada são um e o mesmo, ambos são o filho sobre quem Tilden fala.
O presumido incesto, como aquele insinuado em Curse of the Starving Class, pode ser considerado como outra consequência da disfunção nessa família. A referência gráfica de Halie sobre beijar Ansel no dia do seu casamento pode também sugerir incesto e como consequência um padrão de desposar os filhos como substitutos de Dodge. Seja lá qual for a sua paternidade, a criança afogada permaneceu enterrada por um longo período e existem mais maneiras do que afogar e enterrar uma criança. Mottram (1988, p. 143) sugere uma interpretação desses atos:
Dodge recusa-se a ser um pai para os seus filhos, e como resultado um está exausto, o outro está mutilado, e o terceiro está morto. O misterioso quarto está enterrado no campo atrás da casa, enquanto Vince, o neto, está fadado a continuar uma linha de cadáveres, a imagem de um criador o qual o negou. A busca de Vince por um pai termina no túmulo de uma criança a qual, na verdade, não teve pai.
Dez anos depois de ter escrito Buried Child, ao falar sobre ser um pai para o seu próprio filho, Sam Shepard disse: “Porque eu nunca tive um pai no sentido de ele ter sido um ‘pai’ para mim, eu ainda estou experimentando em descobrir que papel é esse” (SESSUMS, 1988, p. 78).