• Sonuç bulunamadı

O Ar (O Céu) está sempre associado ao elemento Terra, que representa a matéria e oportuniza ao Ser tornar-se visível. Ela comporta o Ser em sua totalidade, superando dicotomias consideradas, historicamente, como opostas e excludentes, para convergir no Ser. Gonçalves (1999, p. 7) afirma: “Terra e Céu e Céu e Terra. O istmo do mundo marginal faz a mediação entre o mundo material e o mundo espiritual, entre o inteligível e o sensível, entre o imaginário e o simbólico”. Seria a materialização do espírito e a espiritualização da matéria. O Ser dialetizado precisa ter espaço para alojar-se no corpo material e não desprezado como sendo

pecaminoso e desprezível. Bachelard (1997, p. 54) reconhece que “a imaginação tem uma necessidade incessante de dialética”.

Trazer para o banho na fonte dos Saberes da Vida o Ser que bebe a água da sabedoria é proposta do trabalho desenvolvido, tendo como referência os pressupostos da corporeidade, que supera a visão fragmentada do Ser e o considera em toda sua plenitude. Jung citado por VIANA (2001) considera que

[...] se ainda estivermos apegados à velha idéia de uma antítese entre mente e matéria, o presente estado das coisas significa uma contradição incontrolável, pode até nos dividir contra nós mesmos. Mas se pudermos nos conciliar com a misteriosa verdade de que o espírito é o corpo vivo visto de dentro, e o corpo a manifestação do espírito vivo – os dois na verdade sendo realmente um – então poderemos compreender por que a tentativa de transcender o presente nível de consciência deve ser feita através do corpo. Veremos também que acreditar no corpo não pode tolerar uma visão que negue o corpo em nome do espírito.

É possível compreender que a matéria está longe de ser rejeitada ou escarnecida, como pregam algumas culturas. Ao contrário, ela é concreta e representa, ou é o próprio Ser. Bachelard (2002, p. 56) reconhece que “uma alma também é uma matéria tão grande! Não ousamos olhá-la”. O Ocidente, que favoreceu dissociações no Ser, privilegiando e discriminando partes do todo que representa o ser total, cria, dessa maneira, segundo Restrepo (1998), um ser abstrato que estabelece uma relação funcional com a natureza, não conseguindo perceber-se como parte integrante dela, compondo junto com ela o macrocosmos. Essa forma de viver fragiliza o ser, pois enfraquece sua conexão cósmica ao mesmo tempo que o leva equivocadamente a acreditar que domina a natureza e tem poder para agir indiscriminadamente sobre ela.

Na fonte dos Saberes da Vida, na proporção em que bebem de sua água humanescente, os professores em formação (re)estabelecem a relação de

harmonia com seu corpo, tomando posse dele, assumindo sua corporeidade, reconhecendo assim, como Maturana e Verden-Zöller (2004, p. 127), que “como humanos, existimos de fato no entrelaçamento de emoção e razão”. Seres humanos que vivem na terra – matéria, experimentando por meio de atos, conforme Csikszentmihalyi (1999, p. 17), “sentimentos e pensamentos”.

Dançando e brincando na fonte dos Saberes da Vida, os professores se transformam; percebem que estão, hoje, diferentes de ontem e amanhã não estarão como hoje. Conscientizam-se de que comportam dicotomias que os fazem Ser. Os professores são provocados, ao banharem-se nessas águas luderescentes, a perceberem que o vínculo que estabelecem com o seu corpo é, como nas palavras de Marzano-Parisoli (2004, p. 80-81),

[...] muito mais forte do que aquele que temos com todos os outros objetos: quando corremos, comemos ou nos alegramos experimentamos uma identidade entre nós mesmos e nosso corpo, porque somos o corpo que corre, come e se alegra. No entanto, vivemos às vezes nosso corpo como um objeto físico, não diferente dos outros objetos, que podemos utilizar e dominar e do qual, finalmente, podemos até nos alienar.

A proposta de Educação apresentada pelo Relatório “Delors”, quando reconhece o ser como foco irradiante do processo formativo, não pode conceber um corpo como objeto físico, pois a própria origem do conhecimento, não apenas o intersubjetivo, mas também o objetivo vive nele.

Quando o espírito se purifica na fonte dos Saberes da Vida, o professor passa a enxergar esse e outros equívocos cometidos historicamente contra o ser humano. O embotamento clareia e o Ser brilha, libertando-se da domesticação que lhe é imposta pela mídia contemporânea. Le Breton (2003) considera que essa domesticação construiu um modelo de corpo ideal, como um meio para convencer

os indivíduos do seu poder sobre a matéria, sem considerar o corpo como uma parte de cada pessoa ao mesmo tempo em que é um objeto do mundo.

Faz-se necessário ter bastante cuidado para não se perder de vista a unidade do Ser, visto que, fragmentado, ele se fragiliza. Na fonte de águas humanizantes, ele é forte na sua inteireza abandonando a docilidade histórica que permite a sua dominação. O alerta é feito por perceber que são criadas constantemente maneiras diversas de manter o domínio sobre o corpo para atingir a corporeidade, seja desprezando a matéria viva, inteira, seja marginalizando os sentimentos, seja negando a espiritualidade. Marzano-Parisoli (2004, p. 43) cita MacSween para afirmar que

[...] o corpo, enquanto lugar de controle prático, torna-se um corpo completamente dócil, cujas energias são regulamentadas a partir de fora e cujas sensações são cada vez menos diversificadas. O resultado desta construção do corpo é a introdução de uma nova forma de dualismo entre o corpo sinônimo de materialidade, e a vontade que representa, ao contrário, o verdadeiro si mesmo de cada pessoa. Este dualismo busca portanto opor o homem a seu corpo sem permitir-lha aceitar sua finitude material, como também seus desejos e suas emoções. A tendência geral se torna então, fazer do corpo um parceiro a bajular ou um adversário a combater ou remanejar.

Buscar o equilíbrio harmônico é o que a fonte dos Saberes da Vida estimula no ser em formação, livrando-o da domesticação e “alforriando” seus caracteres físicos, mas também as sensações, desejos e relações emocionais mais íntimas, sendo esse o meio encontrado para que a liberdade da totalidade possa fluir nas escolas da vida pelos que acreditam que estão aqui para transformar.