O saber sentir apresenta-se como um saber da corporeidade, juntamente com o saber criar e o saber brincar, formando os três primeiros raios da teia, sendo responsável por sua estabilidade vivencial. Com o saber pensar e o saber humanizar-se completam-se os saberes fundamentais da corporeidade. Esses saberes não se coadunam com uma educação mecânica, acrítica e racionalizante, mas com uma educação criativa, sensível e lúdica que visa a amar e respeitar a
vida.
No presente estudo, o corpo e a mente são parceiros constitutivos do Ser, de maneira harmônica, complementar e integral. O sentimento, nesse contexto, apresenta-se, segundo o que considera Damásio (2004, p. 95):
Na sua essência, um sentimento é uma idéia, uma idéia do corpo, uma idéia de um certo aspecto do corpo quando o organismo é levado a reagir a um certo objeto ou situação. Um sentimento de emoção é uma idéia do corpo quando este é perturbado pelo processo emocional, ou seja, quando um estímulo emocionalmente competente desencadeia uma emoção.
O autor acrescenta que “os sentimentos de emoção são funcionalmente distintos porque a sua essência consiste em pensamentos sobre o corpo surpreendido no ato de reagir a certos objetos e situações” (DAMÁSIO, 2004, p. 93).
Os estudos acerca da forma como os pensamentos desencadeiam as emoções e de como essas emoções modificam o corpo no momento em que se transformam nos fenômenos mentais, aqui chamados “sentimentos”, possibilitam um novo olhar sobre a mente e sobre o corpo, contribuindo para que ambos sejam percebidos, como afirma Damásio (2004, p. 15-16), como “duas manifestações aparentemente separadas de um organismo integrado e singular”.
Trazer o amor, como sentimento essencial do saber sentir, é ousado, uma vez que falar de amor é ser romântico e, afinal, quem vai ter respeito intelectual por um romântico? Que ciência vai abandonar seu status alcançado devido a sua objetividade racional para enveredar no caminho da subjetividade amorosa?
No entanto, tratar de educação por essa seara exige ousadia, coragem e compromisso com a vida. Fazer formação docente tendo como pressupostos teórico- práticos advindos da corporeidade conduz por esse caminho. É relevante o respaldo
de Freire (2001, p. 50-51) quando afirma que:
O que importa, na formação docente, não é a repetição mecânica do gesto, este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, emoções, do desejo, da insegurança a ser superada pela segurança, do medo que, ao ser ‘educado’, vai gerando a coragem.
As emoções como, por exemplo, a alegria e a tristeza são, conforme Damásio (2004, p. 62), “um meio natural de avaliar o ambiente que nos rodeia e reagir de forma adaptativa”. Equivocadamente, tende-se a acreditar que os sentimentos antecedem a expressão das emoções. No entanto, esse é um equívoco que causa atraso nos estudos neurobiológicos dos sentimentos. O autor ensina que: “temos emoções primeiro e sentimentos depois porque na evolução biológica as emoções vieram primeiro e os sentimentos depois. As emoções foram construídas a partir de reações simples que promovem a sobrevida de um organismo e que foram facilmente adotadas pela evolução” (DAMÁSIO, 2004, p. 37).
É possível afirmar que os sentimentos falam do estado da vida na linguagem do espírito e que, segundo Damásio (2004, p. 91), “é diferente de qualquer outro tipo de pensamento”, sendo a representação mental do corpo. Ele é “o sentimento de uma emoção”.
A relação que o ser estabelece com a vida não é apenas pensada, mas é também sentida, para poder ser plenamente vivida. Ao atuar sobre a natureza exterior a ele e modificá-la, o Ser também é modificado e se modifica interiormente, uma vez que o Eu e o Outro é uma relação dicotômica que se encontra harmonizada no contexto de formação aqui abordado. Nessa perspectiva, é compreensível o que afirma Régis de Morais (2003, p. 20) quando analisa que “ao longo do tempo foi-se percebendo que aqueles que não se aceitam e não se amam, mostram enorme dificuldade de amar ao próximo”. Não é possível uma educação humanizante sem
amor.
O professor, ao vivenciar o sentimento do amor no seu processo formativo, contribui para que sua vida melhore, e assim sendo melhorará a de todos que estão à sua volta. De outro modo, dificultando ou impedindo o sentimento do amor, dificulta-se e impede-se o seu crescimento, sua evolução humana, pois, segundo Byington (1996, p. 114) “sentimentos constituem expressões de vida”. Impedidos, a energia do Ser acumula-se e a pessoa estagna.
Aqui, uma bifurcação configura-se, e Régis de Morais (2005, p. 61) apresenta a seguinte alternativa:
Ou somamos mais tumulto e sofrimento a um mundo demasiado tumultuado e sofrido, ou estimulamos a alegria de viver – isto sem alienações estagnantes [...] alegria deve ser um sentimento luminoso e sereno dentro de cada um de nós. Alegria de viver será a percepção de que, se não podemos mudar o mundo, podemos ao menos mudar a nossa forma de nos relacionar com o mundo.
O autor acrescenta que se existe o desejo de alcançar esta alegria é necessário que se esteja em paz e para tanto é preciso despertar para a “amorização da vida” (RÉGIS DE MORAIS, 2005, p. 20).
Amar a vida de corpo e alma. Talvez seja necessário reaprender. Conhecer-se e amar-se para poder conhecer e amar o outro e a vida. Gonçalves (1994, p. 17) reconhece que,
o homem foi tornando-se, progressivamente, o mais independente possível da comunicação empática do seu corpo com o mundo, reduzindo sua capacidade de percepção sensorial e aprendendo, simultaneamente, a controlar seus afetos, transformando a livre manifestação de seus sentimentos em expressões e gestos formalizados.
O desconhecimento de si traz riscos à saúde do ser, empobrecendo sua qualidade de vida. Em relação a esse aspecto, Maslow (1975, p. 87) considera que “a grande causa de muita doença psicológica é o medo de conhecermo-nos a nós próprios – as nossas emoções, impulsos, recordações, capacidades, potencialidades, o nosso próprio destino”.
O processo formativo vivenciado na fonte dos Saberes da Vida sustentada pelos quatro pilares da Educação e de onde jorram os saberes, em águas humanescentes, oportuniza aos professores fazerem descobertas e experimentarem sentimentos que se encontravam adormecidos, às vezes manifestados – vividos, mas poucas vezes sentidos – refletidos. Talvez pelo que pondera Maturana e Verden-Zöller (2004, p. 237), afirmando que “é corriqueiro que [...] se ache que as emoções são uma perturbação que interfere com a racionalidade”, ou talvez, e também porque, como afirma Csikszentmihalyi (1999, p. 25):
[...] as emoções são, em certos aspectos, os elementos mais subjetivos da consciência, já que só a própria pessoa pode dizer se sente verdadeiramente o amor, a vergonha, a gratidão ou a felicidade. Porém, uma emoção é também o conteúdo mais objetivo da mente, porque a sensação física que experimentamos quando estamos apaixonados, assustados ou felizes é geralmente mais real para nós do que aquilo que observamos no mundo exterior, ou o que quer que aprendamos com a ciência e a lógica.
O fato é que a situação de marginalidade imposta aos sentimentos e emoções no Mundo Ocidental torna o ser geralmente incapaz de perceber o entrelaçamento natural entre eles, a fisiologia e a anatomia como um aspecto normal e espontâneo da história de vida individual, do nascimento até a morte. Segundo
Pierrakos (1990, p. 19), “a emoção é uma pulsação do todo do organismo” e manifesta-se corporalmente. Desse modo, conforme Maturana e Verden-Zöller (2004, p. 237), “se quiseres conhecer a emoção olha para a ação, se quiseres conhecer a ação, olha para a emoção”. Enquanto Damásio (2004, p. 35) considera que
[...] as emoções são ações ou movimentos, muitos deles públicos, que ocorrem no rosto, na voz ou em comportamentos específicos [...] os sentimentos, pelo contrário, são necessariamente invisíveis para o público, como é o caso com todas as outras imagens mentais, escondidas de quem quer que seja exceto do seu devido proprietário.
Em assim sendo, busca-se em Alves (1995, p. 155) o apelo de que “é preciso reaprender a linguagem do amor, das coisas belas e das coisas boas, para que o corpo se levante e se disponha a lutar”.
Diante da relação evidenciada entre corpo e emoção é possível perceber que a vida, vivida corporalmente, é complexa e comporta atos, sentimentos e pensamentos.