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RUMEN ASİDOZU Tanım:

É preciso terminar. Mas, o que é terminar perguntou-me o orientador. Tentando arriscar responder, diria que terminar seria “dar um tempo”. Parar por uns instantes para (re) pensar no que já foi escrito, conversado, pensado. Terminar também se faz necessário para cumprir um protocolo burocrático e receber um título que como nosso modelo econômico capitalista, neoliberal insiste em instituir, me dará uma posição hierárquica na academia: serei mestre!

Contudo, isso seria ir por um lado oposto ao qual me propus escrever. Justamente, o que quis mostrar nesse trabalho é que jamais poderei saber mais que alguém ou mesmo ser mais que alguém. O que eu me propus foi reconhecer que o saber das pessoas consideradas dispensáveis, refugos da sociedade (Bauman, 2005), são apenas diferentes que os saberes científicos, são saberes da vida. Lamentei muito não ter podido explanar amplamente as idéias surgidas nas entrevistas, tendo que me deter aos aspectos principais. O modelo protocolado do Programa de Pós Graduação em Psicologia limitou-me a escrever dois capítulos com número de páginas contados, (como também me limitou a conhecer outras áreas que não a da psicologia) mas confesso que extrapolei um pouco esses limites.

Não quero, de forma alguma, idealizar o saber popular, mas mostrar que não há um estado absoluto de ignorância ou de saber. “Todo mundo sabe alguma coisa do mesmo modo que ninguém ignora ou domina todo saber” (Streck, D.; Redin, E.; Zitkoski, J. 2008, p.377).

De qualquer forma, seria impossível terminar esses dois anos de mestrado, e outros que vieram antes desses, nessas folhas de papel. As pessoas que encontrei, os caminhos por onde passei, não terminarão dentro de mim. Também, a luta pelo acesso aos direitos sociais através das políticas sociais, numa condição em que elas possam, realmente, dar conta da pobreza e da desigualdade, é o que motiva a seguir essas linhas adiante.

Contudo, penso que outra grande luta está em mostrar à comunidade acadêmica que os saberes da vida, da experiência prática, são conhecimentos valiosos, tais quais os que geramos em laboratórios e que são considerados científicos. Guareschi (2002, p.18) diz que a ciência é “um conjunto de teorias que tentam explicar a realidade” então, por que não deixar a própria realidade falar por si mesma?

Referências

Bauman, Z. (2005). Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Guareschi, P. (2002). Sociologia Crítica: Alternativas de mudança. 52 ed. Porto Alegre: Edipucrs.

Streck, D.; Redin, E.; Zitkoski, J. (orgs.) (2008) Dicionário de Paulo Freire. Belo Horizonte: Autêntica, p. 377.

Porto Alegre, 03 de novembro de 2007.

Ilmo. Sr

Prof. Dr. José Roberto Goldim DD. Coordenador do CEP-PUCRS

Prezado Prof. Goldim,

Recebi, hoje cedo, sua comunicação solicitando retornar o projeto de pesquisa “Representações sociais do programa bolsa família” com modificações, conforme as observações. E as observações diziam: “Solicita-se anexar a carta de autorização da Prefeitura de Porto Alegre para que o estudo possa ser desenvolvido”.

Após refletir sobre a solicitação feita, e tendo conversado com alguns colegas, pensei em fazer-lhe algumas consultas antes de progredir na busca dessa carta, também porque nem sei por onde começar, já que a Prefeitura de Porto Alegre é uma instituição ampla e complexa, como toda burocracia. Além do mais, tenho vários colegas que estão desistindo de fazer pesquisas que, mesmo indiretamente, tenham a ver com seres vivos ou instituições, pois não conseguem dar conta das inúmeras exigências solicitadas.

Meus pensamentos caminham na seguinte linha:

- Tendo como ponto de referência fundamental que as questões éticas que devam ser levadas em consideração na pesquisa têm a ver com “seres humanos”, isto é, pessoas, e estando bem claro no projeto que será preenchido um termo de consentimento com as mulheres entrevistadas que recebem bolsa família, fico me perguntando se essa questão ética abrangeria também uma instituição que apenas aplica recursos vindos de outra instituição, o Governo Federal, e exigindo que ela desse permissão para a pesquisa. Aliás, não seria o caso, logicamente, de solicitar permissão ao Governo Federal, pois é a primeira fonte de r ecursos?

- Mas minhas preocupações vão mais além e se ligam também, e principalmente, com a questão da liberdade de investigação, característica fundamental da liberdade de pesquisa, que faz parte integrante da liberdade da Universidade. Só há verdadeira universidade se nela houver liberdade de investigação. Por que digo isso? Exatamente por que todo estudioso das

instituições sabe, como muito bem nos mostra Foucault, que toda instituição, à medida que se estabelece, cria e desenvolve relações de poder, de vários matizes. É algo constitutivo delas. Agora me pergunto: minha pesquisa é sobre uma prática social recente, chamada “bolsa família”. Tal prática vem sendo questionada por diversas vozes na sociedade, com sugestões, da parte de muitos, que se constitui numa prática assistencialista. Pelo projeto, nós iremos, como foi dito, tentar compreender e investigar essa prática a partir das falas de mulheres que recebem tal benefício. Essas mulheres estarão plenamente livres de responder ou não, e de interromper a investigação no momento que quiserem. Além de tudo, seu anonimato está garantido, e isso está no próprio termo de consentimento. Vem agora a questão: Se, supostamente, a instituição “Prefeitura Municipal de Porto Alegre”, através de algum de seus funcionários responsável pelo programa, suspeitar que isso poderá trazer algum prejuízo à instituição e negar a permissão, como ficamos? Como avançar na pesquisa em ciência social e institucional? A liberdade de pesquisa na Universidade, algo fundamental para que a Universidade seja livre, continuará a ser garantida? Quem poderá pesquisar instituições, ou práticas institucionais, se devemos pedir permissão a elas para pesquisá-las?

O que ficamos nos perguntando é o seguinte: há algum ser humano que será ferido em seus direitos e em sua ética com a pesquisa? É a instituição que irá garantir isso e por isso ela deverá dar a permissão para se realizar a investigação? A permissão não poderá ser negada pelo fato de se suspeitar que o programa contém limitações pedagógicas, ao menos como supõem alguns pensadores sociais? Quem irá investigar as práticas das instituições, se isso depende das próprias instituições interessadas?

A pari, temos feito muitas investigações sobre práticas pastorais, principalmente na Igreja Católica e em outras Igrejas, mas nunca nos passou pela cabeça pedir permissão ou aos bispos e, no caso da Igreja Católica, à CNBB. Pesquisamos, como no caso presente, pessoas, seres humanos, e para com eles nos sentimos responsáveis.

Talvez a questão de fundo, aqui, esteja no esclarecimento que deve ser feito entre pessoas e instituições. Até entenderíamos que a instituição devesse ser consultada se houvesse alguma relação intrínseca entre as pessoas e instituições. Mas não vejo que uma mulher do povo, numa periferia de Porto Alegre, pertença, ou tenha algo a ver com a Prefeitura, pelo fato de receber um benefício, isto é, uma pequena quantia em dinheiro, com a qual ela faz livremente o que deseja. Tenho dificuldade em conseguir ver possíveis prejuízos a seres humanos, quando são investigadas determinadas práticas subjacentes à atividade de

determinadas instituições. Pelo contrário, penso até que essas instituições deveriam garantir e agradecer tais investigações.

Pois eram essas considerações que gostaria de dialogar com o Senhor, pensando que, talvez, possa ser dispensada essa autorização da Prefeitura. Fico no aguardo das decisões de V.S.

Com saudações e amizade,

Prof. Pedrinho A.Guareschi

Orientador do Projeto de Mestrado “Representações sociais do programa bolsa família”.

Em tempo: Conversando com minha orientanda, fiquei sabendo que a lista de mulheres que recebem bolsa família está disponível no site da Caixa Econômica Federal, de modo que isso dispensaria até mesmo dirigir-se à Prefeitura. Escolheríamos uma mulher e, através dela, no processo metodológico que se costuma chamar de “bola de neve”, iríamos descobrindo outras, até fechar a amostragem.

Programa de Pós-Graduação em Psicologia Mestrado / Doutorado

ATO NORMATIVO Nº 002 / 07