4. BÖLÜM: OSMANLI VE HELEN DÜNYASINDA RUMLAR
4.3. RUM HELENCİLİĞİ
Paris, 10 de agosto de 1927 Meu querido Pai e querida Mãe, Muito satisfeito estou por ver a boa camaradagem do Ministro com Papai, só assim poderá ele fazer muita coisa. E espero que papai consiga a Reforma, principalmente no ponto que toca à admissão à Escola.
Aqui, tanto na Escola de Belas Artes como na Escola Superior de Arquitetura a admissão é feito mediante apresentação de diploma de arquiteto ou exames que correspondem a todos preparatórios. Muito me alegrou também saber o que Bernardelli vai expor por deferência a um pedido de Papai.
Papai, estou frequentando a Academia de La Grande Chaumiére, onde estou desenhando modelo vivo..! Eu não sei se é decadência, ou se é porque são gênios, mas a verdade é que eu vejo lá cada um de arrepiar, fazendo cada bota como nunca vi. Aqui ainda há muito gravatão com cabeleira e barba à Nazarena. O professor de escultura aqui é o A. Bourdelle e é o curso mais caro que tem, eu pago 30 francos por 10 seções.
Aquele artigo que mandaram do Vasconcellos sobre o Agache me indignou muito, pois as idéias que ele tem sobre os concursos de casas econômicas foram dadas por mim para que fossem levadas ao conhecimento do prefeito, o que ele nunca quis fazer, e vivia sempre protelando as audiências ao prefeito, naturalmente para fazer o que fez. Mas não há dúvida, eu vou mandar aquele artigo pelo correio com um cartão meu felicitando-o [...].
Attilio Corrêa Lima escrevia aos seus pais assiduamente. Ele o fazia depois do jantar. Redigia correspondências longas e detalhadas como “cartas-diário”. As primeiras em “papel almaço”, as demais em papel de seda e as últimas, de 1930 em diante, em papel timbrado contendo seu nome e sua profissão, urbanista formado pela Sorbonne.
A temática central dessas correspondências está relacionada à descrição do seu dia a dia, suas atividades acadêmicas desenvolvidas no IUUP, a vida com sua esposa Olga Fernandes,13 com os amigos e colegas, havendo comentários detalhados sobre as notícias que chegavam do Brasil através dos jornais ou de cartas recebidas. Apesar de os assuntos serem mais direcionados ao pai, era a mãe, a Sra. Marzia, quem abria as cartas, e as lia, sendo também ela, quase sempre, que as respondia, uma vez que o “Sr. Diretor estava sempre ocupado com seus bonecos”. Era assim que Attilio C. Lima referia-se aos motivos pelos quais as cartas do pai eram raras, pois ele estava envolvido na direção da ENBA e com execuções de encomendas de esculturas. Quase todas as missivas iniciam-se com: “Queridos Pais”, “Meu querido Pai e querida Mãe,” e ainda “Querido Pai e querida Mãe”, demonstrando a afeição e uma relação muito próxima. Nas despedidas, pode-se ler: “Lembranças a todos e muitos beijos e abraços do filho que muito os quer”, “Muitas lembranças a vovó e a todos de casa, a todos do ateliê e muitos beijos e abraços do filho que muito os quer”, expressões que exemplificam os laços estreitos de família.
Outra faceta presente nas correspondências de Attilio C. Lima é seu lado espirituoso e bem- humorado para tratar de suas dificuldades financeiras, “sobrevivendo com a bolsa miserável de estudos” em Paris, como demonstra este versinho escrito ao final de uma das cartas:
Faça chuva ou faça Sol! Quer soirée ou matineé! Com o mesmo terno cinzento Todo o mundo há de me ver! Não fique Patrão assustado Com estas palavras Sapecas Pois podia ser pior
Podia só ter as cuecas!!! Mas com tudo me conformo Exceto... e esse caso é bem astuto Não é que o terno cinzento?...
(Aos Domingos). Sózinho!!! Vai ao Instituto Aqui a Musa cala
Porque assim os comovo O que eu desejo é Boas-festas E um Feliz Ano Novo. Lutetia
Attilius Fexit Anno Dominus 192814
13 Olga Fernandes era professora e, enquanto esteve acompanhando Attilio Corrêa Lima em Paris, também
cursou Psicologia na Sorbonne.
Quando trabalhou no ateliê de Alfred Agache nos planos para o Rio de Janeiro, Attilio Corrêa Lima destacou de forma irônica o tratamento dado ao urbanista francês pelos brasileiros. Em uma das cartas lê-se: “[...] O que é preciso é a gente se Agachar diante dessa gente que se Agacha para o Agache!”.15
A distância do Brasil era expressa em seu entusiasmo pelo país e por tudo que fosse brasileiro:
[...] E ao Agache, Papai fará o favor de dizer que eu mando dizer que, se ele acha que no Rio é preciso acabar com “esses cubos medievais e anti-higiênicos”, será preciso destruir toda Paris! Em matéria de higiene das habitações o Brasil está muito adiantado. Começa que no Brasil toda casa tem ar, luz e banho!!... banho!... (palavra que em francês não existe). Aqui só existe ar, luz e banho nas casas feitas pelos arquitetos ultra-modernos. E quando aparece um Corbusier com seu “Vers une
Architeture e seu Urbanisme” que é uma maravilha, o chamam de maluco. Se for
possível me arranjem as conferências do Agache, seria muito bom.16
À medida que as transcrições e leituras das correspondências foram progredindo, em paralelo, houve a preocupação em como trabalhar o material epistolar como objeto histórico. Para tal, foram empreendidas leituras teóricas, buscando tratar esse documento com problematizações pertinentes e procedimentos metodológicos adequados. Entendeu-se que, através das cartas de Attilio C. Lima, seria possível construir uma biografia, um recorte de sua vida no período em que o arquiteto morou em Paris cursando urbanismo no IUUP (1927 a 1931).
Compreendida essa abordagem, é necessário tecer algumas considerações sobre as biografias. François Dosse (2009, p. 2), em O desafio biográfico: escrever uma vida, reflete sobre as dificuldades que os pesquisadores em biografias encontram, e questiona: “[...] a biografia cerca-se somente da inventividade ficcional ou de uma identidade puramente científica?”. Para o historiador francês, segundo Solano (2010, p. 2), “[...] a memória para o biógrafo é o artifício que lhe possibilita lembrar e fazer recordar uma vida, assim há a necessidade do outro, que partilha suas recordações sobre figuras históricas inolvidáveis ou não”.
Mas Dosse (2009, p. 55) considera a biografia um gênero híbrido: “[...] a biografia se situa em tensão constante entre a vontade de reproduzir um vivido real passado, segundo as regras da mimesis, e o polo imaginativo do biógrafo, que deve refazer um universo perdido segundo sua intuição e talento criador”.
15 Correspondência de Attilio Corrêa Lima de 2 de julho de 1928 enviada aos pais.
A biografia dá ao leitor a ilusão de um acesso direto ao passado, possibilitando-lhe, por isso mesmo, comparar sua própria finitude à da personagem biografada. Ademais, a impressão de totalização do outro, por ilusória que seja, responde ao empenho constante de construção do eu em confronto com o outro. Ainda, diz o autor:
O passado, pelos olhos atentos do agora, nos traz imagens diversas de um mesmo indivíduo, permitindo-nos a reconstrução de faces não reveladas, de sujeitos em aspectos plurais. Somos levados a conceber múltiplas interpretações que envolvem uma única vida, tendo a hermenêutica, além da memória, a tarefa de revelar o ‘real’ em sua complexidade, uma realidade posta sob distintas descrições. (DOSSE, 2009, p. 14).
Na abordagem do indivíduo, daquilo que lhe é próprio, e do coletivo social, daquilo que é compartilhado, os estudos de hermenêutica colaboraram para uma reflexão madura sobre o gênero biográfico. Esta ordem de reflexão buscou compreender o que é o sujeito e quais são “os processos de subjetivação”. O outro, aquele que pretendemos estudar, revela-se não só em sua singularidade, mas numa unidade definida na relação entre biógrafo e biografado e seus respectivos pertencimentos sociais.
No jogo entre o próprio, o socialmente construído e os processos de subjetivação, Solano (2010, p. 9) observa com acuidade “[...] a concepção do indivíduo múltiplo, plural, trouxe novas questões, que apontaram para uma inquietação convidativa: ao furtar-se do unitário, do sujeito no seu aspecto singular, não estaria o historiador criando ruptura e fragmentos sem significados?”. Buscando propor aos historiadores uma saída plausível, o autor evoca Paul Ricoeur e os conceitos de ipseidade e mesmidade.
O primeiro termo, ipseidade, é assim explicado: “[...] o Si (Ipse) se constrói, não pela repetição do mesmo (Idem), mas pela relação com o outro” (RICOEUR, 1990 apud DOSSE, 2009, p.14). Ou seja, ipseidade seria aquilo que caracteriza o indivíduo como ser único, singular, como nenhum outro, possível na relação com o Outro. Quanto ao conceito de mesmidade, Ricoeur se refere ao sujeito situado, no tempo e espaço, susceptível de mudança no decorrer da história. A coesão entre os dois conceitos se dá por meio da narrativa, nos termos de Ricoeur e assim explicitado por Solano (2010, p. 10):
[...] No entanto, pelo aspecto narrativo, conseguimos fazer uma mediação, como demonstra François Dosse, entre a ipseidade e a mesmidade, reconstruindo assim uma coesão que se centra no fazer e no desfazer de uma vida. Não obstante, estudar
o homem é analisar as múltiplas imagens que se formam sobre ele ao longo dos olhares e “reolhares” da história.
Segundo Lorenzetti (2010), outras perspectivas acerca do biográfico anunciam-se mais fortemente a partir da chamada “guinada crítica” ocorrida na historiografia francesa a partir da década de 1980, quando se buscou romper com o estruturalismo e com as generalizações demasiadas na interpretação da história. Dosse denomina esse rompimento idade hermenêutica, ligada, sobretudo, à singularidade individual, à reflexão sobre as heterogeneidades, às identificações diversas dos sujeitos no decorrer de sua trajetória, que não é mais linear e centralizada, mas apresenta reentrâncias e singularidades. É o momento da biografia existencialista e não causalista de Jean Paul Sartre (L’ idiot de la famille: Gustave Flaubert de 1821 a 1857), do uso da história oral, da valorização do indivíduo e da narrativa, da micro-história de Carlo Guinzburg (O queijo e os vermes), Jacques Le Goff (São Luis) e Michel Foucault (Eu, Pierre Riviére...), também da história psicológica de Sigmund Freud (Moisés e o monoteísmo) e da ego-história: “[...] é o retorno do sujeito após um longo eclipse ao peso das estruturas” (DOSSE, 2009, p. 252).
As biografias obedientes à cronologia e dedicadas aos heróis são definitivamente superadas no século XX, como também as biografias totalizantes, tais como as realizadas pela Nova História, que pretendiam dar conta do contexto a partir do sujeito. Segundo François Dosse (2009, p. 359), a idade hermenêutica caracteriza-se pela: “[...] variação do enfoque analítico, pela mudança constante da escala, que permitem chegar a significados diferentes com respeito às figuras biografadas”. É a unidade do passado vista pelos olhos das singularidades individuais, não estando mais a escrita biográfica relegada ao cronológico e linear.
Para Dosse (2009, p. 344), o grande desafio do historiador em relação à escrita biográfica é encará-la como possível, pois ela é, segundo o autor, aquela que: “[...] oferece um acesso privilegiado para nos aproximarmos ao máximo da interioridade/exterioridade, do singular/geral, sendo, portanto, o que mais lembra o ideal impossível de globalidade”.
O historiador francês, então, convida os interessados em construir biografias que ultrapassem a concepção de Pierre Bourdieu, para quem a biografia seria uma ilusão, dada a impossibilidade em contar a vida total de uma pessoa, pois as lacunas deixadas pelos documentos seriam substituídas pelas coerências fictícias do historiador. Para Bourdieu, a biografia não seria um gênero pertinente aos historiadores, pois não haveria a preocupação com a verdade dos fatos. Dosse aponta exatamente esta questão como a mais importante às
concepções bourdesianas, pois, para ele, tanto o biográfico quanto o fazer histórico são levados a cabo pelo próprio escritor e dependem, até certo ponto, dos “elementos ficcionais”. A uni-las está o respeito que se deve ao real sem, contudo, ter em vista a sua compreensão total. Na atualidade, o historiador/biógrafo “ sabe que o enigma biográfico sobrevive à escrita biográfica. A porta permanece escancarada para sempre, oferecida a todos em revisitações sempre possíveis das infrações individuais e de seus traços no tempo” (DOSSE, 2009, p. 410). Dosse (2009, p. 410) conclui:
A biografia reencontra também a escrita histórica em seu papel de rito de enterro. Instrumento de exorcismo da morte, ela a introduz no cerne mesmo de seu discurso e permite simbolicamente a uma sociedade situar-se ao se dotar de uma linguagem sobre o passado. O discurso do historiador nos fala do passado para enterrá-lo. Ele tem, segundo Certeau, a função de túmulo, no duplo sentido de honrar os mortos e de participar de sua eliminação do cenário dos vivos. As revisitações, tanto histórica como biográfica, têm essa função de abrir para o presente um espaço suscetível de marcar o passado para redistribuir o espaço dos possíveis. A prática do historiador está, pois, por princípio aberta a novas interpretações, a um diálogo sobre o passado aberto para o futuro, a ponto de se falar cada vez mais de “futuro passado”.
Assumindo que através das cartas de Attilio Corrêa Lima será possível construir uma biografia, um recorte de sua vida, no período em que o arquiteto morou em Paris, têm-se expressões “de faces não reveladas”, de realidades apresentadas sob distintas descrições, na dependência de quem as apresentou.
O material epistolar com certeza oferece uma fonte privilegiada que proporciona a aproximação com o arquiteto, permitindo ao mesmo tempo a leitura de sua trajetória profissional em diferentes escalas, identificando aquilo que é o singular e aquilo que é plural. As cartas também permitem vislumbrar o “futuro passado”, convidando outros pesquisadores a contribuir para elucidar a trajetória pioneira de Attilio Corrêa Lima. E, finalmente, como Dosse (2009, p.410) o afirma, a “biografia reencontra também a escrita histórica em seu papel de rito de enterro”, concluindo que ao recuperar nessas correspondências um passado desconhecido, com possíveis revelações inéditas, simbolicamente, ao mesmo tempo, seria um ato de exorcizá-lo para finalmente enterrá-lo, até que novas revisitações aconteçam.