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econômicos
Assim como a história da empresa não pode ser reduzida e história da burguesia, a história dos grupos econômicos enquanto um tipo de empresa capitalista moderna não pode ser reduzida à história da firma individual ou das primeiras unidades mercantis. A história desses tipos de empresas não conduz necessariamente à história dos grupos econômicos. Mas, para efeito de nossa análise histórica, os grupos econômicos podem ser considerados o resultado da transição do tipo de empresa europeia para o tipo norte-americano, o que ocorrera nas duas últimas décadas do sec. XIX e se expandira para outras partes do mundo em seguida as duas Grandes Guerras Mundiais. Para entender a sua constituição é necessário um recuo histórico, na medida em que possibilite situar o momento, as condições econômicas e alguns dos tipos empresariais que os antecederam.
As primeiras tipologias empresariais e referências histórias para os grupos econômicos é a unidade mercantil ou pequena empresa, de caráter nacional ou regional. Ela é parte de um sistema dominante de empresas sediadas em território europeu, e sua conformação resultou de transformações ocorridas na lógica empresarial e de fatores fora dela. Por outro lado, a constituição do tipo empresarial grupo econômico apenas revelará sua forma contemporânea fora do mundo europeu e mais acentuadamente no início do sec. XX em solo norte americano. A partir daí, este tipo de empresa se expressará para fora de seus limites territoriais, tornando- se uma das imagens de eficiência empresarial para boa parte das economias subdesenvolvidas.
Assim, as primeiras referências, ao que poderíamos afirmar, encontram-se na origem dos grupos econômicos pelo fato dessa primeira expressão pretérita e europeia remeter-se aos ciclos de reprodução das unidades mercantis, e também ao sistema de estado, responsável, em parte, por sustentar as empresas em função da dependência e alianças que elas realizam com o poder político. Isto possibilitou uma acumulação de capital consequente de monopólios,
diversificação de atividades comerciais, e a constituição posterior de grandes empresas com várias faces econômicas, desde a produtiva à financeira. Possibilitou, ainda, que fluxos de capitais nacionais tornassem mais velozes, integrassem cidades, centralizassem em setores estratégicos das economias nacionais europeias como o varejo e o têxtil, e se fossem controlados também por empresas familiares. Possibilitou a constituição de empresas exportadoras, tanto provedoras de crédito quanto incentivadoras à formação de estruturas novas e diferentes de acumulação. Os grupos econômicos no sec. XX se revelaram como estruturas de acumulação, ao lado do Estado e de outras instituições.
Assim, começaremos por descrever as tipologias e características das primeiras empresas referenciais para os grupos econômicos, em grande medida, também referências históricas herdadas pela contemporaneidade. Descreveremos os tipos de sociedades comerciais, e após os traços que possuíram as grandes companhias de comércio e navegação e sua relevância no estudo dos grupos econômicos.
A temática dos grupos econômicos nos remete a um momento histórico particular. Ela nos conduz a tipos de empresas e não apenas indivíduos e famílias, já protagonistas das trocas mercantis. As ações empresariais eram limitadas, e as condições territoriais e temporais definiam as suas sedes e estratégias comerciais. Sua organização revela, como afirma Braudel (2009), aquilo que perpassa as instituições mercantis, e que é a condição fundamental de sua existência, ou seja, a necessidade da cooperação entre indivíduos, daquilo que corresponde à expressão de uma forma de solidariedade fundada nas relações de trabalho e poder. A cooperação caracteriza, inicialmente, as sociedades comerciais familiares, além de outras instituições, traços estes ainda persistentes em alguns grupos econômicos nacionais de varejo e têxtil.
As sociedades comerciais consistiam em instituições empresariais de pequeno porte. Muitas delas com poucas reservas econômicas, e restritas ao pouco trânsito territorial e marítimo, com relativo poder financeiro se comparada aos bancos e outras instituições financeiras que lhe seguiram. Esta pouca expressividade econômica colocava as sociedades comerciais numa escala hierárquica inferior, quando confrontada às grandes companhias comerciais surgidas posteriormente no mundo europeu. Apenas relativamente é possível atribuí-las o adjetivo de sociedades comerciais ou empresas estratificadas, e mesmo de agentes financeiros que as possam definir. Seu protagonismo marcou o período entre o sec. XIII ao XVI, limitando-se em sua eficácia a distribuição e circulação das mercadorias em territórios próximos aos de suas sedes. Os comercialistas, como assim foram denominados estes primeiros empresários e proprietários das sociedades comerciais no sec. XIII,
submetiam-se ao trabalho conjunto em pequenas manufaturas, e ao transporte de mercadorias por terra e mar, como ressalta Braudel (2009). Isto possibilitou a criação desta primeira imagem empresarial, apresentando a sociedade comercial em uma economia de mercado como uma instituição econômica estratificada pelo trabalho, dividida entre proprietários e não proprietário, ou entre os comercialistas, funcionários ou familiares.
Estes primeiros traços marcam estas empresas, mas este protagonismo dos comercialistas já é percebido desde a antiguidade. Ele se apresentava também nos termos de uma solidariedade entre indivíduos que trabalhavam juntos, e que direcionavam seus esforços e as parcas tecnologias ao exercício do comércio. A necessidade da produção coletiva – fundamental à existência do futuro capitalismo e de outros modos de produção – orientava-se para além da simples troca, terminando por fortalecer a sociedade romana em sua totalidade. Os traços que diferenciam as sociedades comerciais de suas equivalentes no tempo resultaram de mudanças econômicas decorrentes da transição de uma economia de mercado, como se pode creditar a passagem da condição estamental de trabalho no período servil para a condição positivista de trabalho assalariado, livre e também definidora de um tipo capitalismo.
No mundo ocidental, posteriormente aos impérios da antiguidade, as sociedades comerciais floresceram e foram sediadas em diversas cidades portuárias do mediterrâneo. Mesmo já no início do sec. IX e X, Veneza se tornou uma das principais cidades comerciais. Como uma cidade sede das sociedades comerciais, Veneza fortalece a circulação de sua moeda e suas regras monetárias, intensifica os meios de transportes e distribuição de suas mercadorias, e integra-se a outros territórios, tornado-se, assim, um dos principais entrepostos comercial de chegada e saída de mercadorias, fundamental para as famílias comerciantes europeias. Toda uma vida econômica é forjada em cidades como Veneza, além de muitas outras de pouca expressividade, e cada vez mais seu cenário mercantil intensifica-se em função da existência das sociedades comerciais e das famílias de comercialistas.
Centros comerciais de igualável capacidade comercial, como Bizâncio, também passaram por processos semelhantes. Esta cidade, ao lado de Genova, Florença e outros centros mercantis do ocidente, passaria para o mundo oriental a imagem de uma das capitais do império Romano mais promissora política, artística e comercialmente. Em todas estas cidades as sociedades comerciais fluíram e este tipo de empresa consistia nas grandes referências mercantis, de distribuição e troca de mercadorias da época.
As atividades das sociedades comerciais pressupunham para seu dinamismo de centros comerciais com mercados regionais dinâmicos, e com um intenso tráfego de mercadorias para
fora de suas dimensões territoriais. Isto ganhara outro impulso, mais veloz e de resultados financeiros e comerciais mais sólidos, com a constituição das Companhias de Comércio e Navegação. As estratégias combinadas por estas outras empresas, sejam elas criativas e violentas, marcarão a expansão comercial das cidades ocidentais e orientais. Como afirma Braudel (2009), para qualquer das cidades comerciais e centrais, a lentidão na distribuição e circulação de mercadorias era um imperativo a lei do valor que rege, ainda hoje, toda e qualquer mercadoria, fator este que poderíamos afirmar é fortemente redefinido em nosso tempo por novas ações que integram produção e distribuição, realizadas pelos grupos econômicos. Isto já afetava as sociedades comerciais e, posteriormente, as Companhias de Comércio e Navegação, seja em função da vagarosidade dos transportes náuticos e terrestres, dispendiosos, caros e arriscados, seja pelo comprometimento causado por eles ao ritmo da atividade comercial. Isto redefinia, muitas vezes, o alcance territorial das sociedades comerciais. Ao menos nesse momento a “nau comercial”, que ruma para a modernidade, ainda não se move ao vapor das quotas, das fusões ou das estratégias de integração comercial.
Mas a lentidão na distribuição, mesmo hoje, não impossibilitou a constituição de pequenas redes de transportes terrestres e aquáticos, o que permitiu, neste momento, condicionar cada vez mais reservas financeiras por comercialistas mais ávidos por acumular capital. Muitas dessas reservas destinaram-se aos resultados positivos das sociedades comerciais, muitas delas sob a forma de seguros para as travessias comerciais como meio de suprir os riscos comuns durante os vários dias por terra ou mar, em que mercadorias, trabalhadores, escravos e metais preciosos viajavam e destinavam-se a outros mercados. Assim, como nos indica Braudel (2009), as unidades mercantis seriam, já neste período,
sociedades comerciais reforçadas por capitais financeiros, mesmo que isto não as definisse.
Eram empresas, mas não empresas modernas. Os imperativos do controle do que se transportava, a tecnologia emprega e a dimensão física do território ainda definia o custo comercial. Eram empresas em que a especulação dos resultados da viajem, em função do tempo da circulação e distribuição das mercadorias, definiam sua eficiência.