A partir do exposto anteriormente e também conforme o Gráfico 13, é possível identificar três nações com um alto nível de aversão a incerteza, Brasil, Estados Unidos e Malásia, e uma nação com uma postura totalmente diferente das demais e caracterizada pelo baixo nível de UAI, a Índia. Diferentemente da dimensão anterior, a distância do poder, tanto as percepções colhidas dos indivíduos pertencentes aos países questionados sobre a sua cultura como as respostas dos estrangeiros acerca dessas mesmas culturas resultaram no mesmo entendimento, ou seja, a percepção da população entrevistada por esse estudo está alinhada nessa dimensão cultural.
Gráfico 13 – Demonstrativo Consolidado da Aversão à Incerteza
Fonte: O Autor (2015)
Dessa forma e de acordo com as 38 pessoas entrevistadas, 65,52%, 64,44% e 68,75% das opiniões coletadas apontaram respectivamente o Brasil, Estados Unidos e a Malásia como os países desse estudo caracterizados com traços de alto UAI, ou seja, eles têm uma tendência por resolver e mitigar as questões relacionadas a incertezas e ambiguidades de um projeto de desenvolvimento de sistemas de informação. Nessa mesma população entrevistada, 71,26% das percepções coletadas apontaram a Índia como o único
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80%
Brasil Estados Unidos Índia Malásia
64.52% 64.44% 28.74% 68.75% 35.48% 35.56% 71.26% 31.25%
país dessa pesquisa com características de alto UAI. Assim sendo, ao contrário das nações anteriores, os indianos, em sua maioria, primam por um controle menor das atividades e, portanto, procuram tanto resolver as questões abertas durante o processo de desenvolvimento como, se for necessário, preferem o retrabalho do que fazer a atividade corretamente na primeira vez. Em suma, a classificação em ordem decrescente entre a nação com maior aversão a incerteza e o país com menor UAI ficou da seguinte forma: Malásia, Brasil, Estados Unidos e Índia.
Essa diferença entre os indianos, baixa aversão a incerteza, e os membros das outras culturas, alta aversão a incerteza, pode ser identificado em algumas entrevistas. Primeiramente, o nono brasileiro relatou o seguinte: “O indiano [...] aceita tudo o que vier 'não sei se eu entendi direito, mas vou fazer' [...] o brasileiro tenta achar uma solução à incerteza em que todos saem ganhando e o americano enfrentando e buscando até o último momento reverter uma situação de incerteza [...].” Nesse mesmo sentido, o quarto indiano faz uma comparação entre a sua cultura e os americanos, brasileiros e malaios: "Essa realidade não é válida para o Brasil, Estados Unidos e Malásia, pois a relação profissional faz com que o foco seja realmente em validar situações de incerteza antes de mover em frente em um projeto." Essa similaridade entre os Estados Unidos e o Brasil também é evidenciada pelo primeiro americanos, pois, segundo ele, essas culturas não evitam resolver esse tipo de problemas e fazem muitas perguntas para mitigar as incertezas. Finalizando, o penúltimo indiano entrevistado, o décimo, descreve os motivos pelos quais americanos possuem características de alto UAI e a sua cultura de baixo UAI:
Em comparação aos Estados Unidos, o sistema educacional Indiano é diferente. Nos Estados Unidos é comum que exista um incentivo maior à criatividade e ao desenvolvimento de habilidades diferentes durante o período colegial. Já a Índia tem um modelo que valorize muito a memorização de regras. Por exemplo: você vai ter um especialista em multiplicação fazendo contas de cabeça, enquanto nos Estados Unidos você vai poder usar uma calculadora durante a mesma fase de aprendizado. Nos Estados Unidos, você é apresentado a um problema e vai ser encorajado a encontrar maneiras de resolver aquilo com abordagens diferentes e valorizando isso sem ter aquele julgamento de que aquela abordagem é correta e aquela é incorreta. Eles encorajam você a criar suas próprias opções e maneiras de fazer as coisas. O que não é a realidade na Índia, pois você é ensinado a seguir uma determinada linha de pensamento. Apesar da Índia, em termos de educação, prover uma base muito forte de fundamentos, como, por exemplo, na matemática, você pode fica perdido se for estimulado a pensar em maneiras diferentes de resolver determinado problema. Você é ensinado a como fazer coisas de uma suposta e única maneira correta.
Em relação as pesquisas anteriores, os resultados, ao contrário da dimensão anterior, estão com grandes diferenças em relação aos achados na pesquisa de Hofstede (2001) e com uma pequena alteração em comparação ao estudo de Donato (2013). Nesse sentindo, essas discrepâncias serão descritas a seguir juntamente com os pontos similares.
Primeiramente, comparando os resultados da pesquisa original, a de Hofstede (2001), com os resultados analisados acima existem duas diferenças: os índices de aversão a incerteza dos Estados Unidos e da Malásia. Para Hofstede (2001), os americanos apresentaram um nível médio de UAI (46) enquanto 64,44% das opiniões dos entrevistados por essa pesquisa identificaram características de alto UAI. Em relação aos malaios, segundo Hofstede (2001), eles possuem o nível mais baixo de UAI (36) enquanto que 68,75% dos entrevistados identificaram exatamente o contrário: o alto grau de aversão a incerteza. Já em relação aos brasileiros e indianos, os resultados das pesquisas estão em consonância, pois, tanto o índice de Hofstede (2001) com, respectivamente, 76 e 40, como as percepções dos entrevistados (64,52% e 71,26%) apontaram o alto nível de UAI no Brasil e o baixo grau de UAI na Índia.
Já em relação à pesquisa de Donato (2013), ao contrário dessa pesquisa, a Índia é caracterizada por ser uma cultura com alto grau de aversão a incerteza, pois, frequentemente, para o processo de desenvolvimento para buscar um maior detalhamento do que deve ser feito. Entretanto, em relação as outras culturas (americanos, brasileiros e malaios), os pontos levantados por essa pesquisa estão alinhados com Donato (2013), pois todas elas apresentam altos graus de UAI. Dessa forma, por exemplo, os americanos também apresentaram à mesma forma de atuar quando se deparam com questões de ambiguidade, ou seja, tentam mitigar e resolver antes que o pior aconteça para o projeto.
Assim exposto e analisado, nos próximos subcapítulos desse trabalho serão avaliadas as percepções coletadas das quatro nações em relação as seguintes dimensões culturais propostas por Hofstede (2001): individualismo versus coletivismo e masculinidade versus feminilidade.