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BÖLÜM 3. BULGULAR VE YORUM

3.7. YAŞAM TARZI

3.7.1. Romanda Yaşam Tarzı

Agostinho analisa o selo da boca por dois aspectos. Primeiro, e bem brevemente, dedica-se a compreender o que é blasfêmia e a implicação desta proibição para os maniqueus. Depois, volta-se para a questão da alimentação e das proibições alimentares do maniqueísmo. Percebe-se que a questão alimentar é, no De moribus, o ponto em que Agostinho mais se empenha. Exaustivamente, tenta demonstrar que a abstenção alimentar apenas é salutar se tem o propósito de frear as paixões. Uma das proibições do selo da boca é a abstenção de falar blasfêmia. Blasfêmia, de acordo com Agostinho, é falar mal dos bons, ou pior, falar mal de Deus. Passa a argumentar que os maniqueus blasfemam ao pregarem a sua fé. Pois se concordam que Deus é incorruptível, imutável e inviolável, em sua “fábula” Deus é corrompido, pois se divide e se mescla com o mal, dando origem aos seres que contém partículas Suas (De moribus 2, XI, 20). Para Agostinho, os maniqueus apenas deixarão de blasfemar quando abandonarem sua fé, saindo do erro e buscando a verdade na igreja católica, na qual reconhecerão Deus como absoluto e sumo bem, superior a tudo que existe em realidade ou pensamento (De moribus 2, XI, 24). Agostinho passa a analisar o selo da boca quanto à abstenção da carne e do vinho. Mesmo afirmando que a principal grandeza e beleza desse selo é a abstenção alimentar, é preciso antes saber com que fins o fazem (De moribus 2, XIII, 27). A questão se volta para a intenção. Se a intenção é moderar e frear as paixões, tal abstenção é louvável, contudo, de antemão, ele afirma que não é (De moribus 2, XIII, 28) e exemplifica, então, com a comparação de dois homens. Um é sóbrio e parco, tenta dominar seu apetite de comer e beber, apenas faz uma refeição ao dia com verduras e carne e um pouco de vinho, apenas para umedecer a boca. Já o outro, não toma vinho nem come carne, mas se serve em abundância de frutos, com todo tipo de especiarias, além de variadas bebidas, como água adocicada com mel, sucos de frutas (alguns muito parecidos com o vinho), tudo isso de forma desmedida e sem necessidade, apenas por prazer, todos os dias (De moribus 2, XIII, 29). De

acordo com Agostinho, se agirem como o primeiro homem, os eleitos maniqueus são reprovados, por descumprirem o selo da boca, já o segundo, é aprovado (De moribus 2, XIII, 29).

Agostinho utiliza duas passagens do Novo Testamento para tratar da abstinência da carne. Paulo, em Romanos 14, 21, aprova a abstinência da carne e do vinho, de forma que estes não se tornem causa de tropeço. Contudo, é preciso compreender o contexto que o apóstolo diz isso. A carne era usada para sacrifícios, por isso, alguns cristãos, não querendo compactuar com tal atitude, preferiam abster-se do alimento “impuro”. Contudo, alguns cristãos, mesmo assim, comiam dessa carne, pois eram fortes na fé, e ficavam sem peso na consciência, sabendo que o alimento não poderia manchá-los de pecado, apenas a sua consciência poderia, pois, segundo Mateus 15,11, não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai pela boca (De moribus 2, XIV, 31).

Agostinho se utiliza das palavras de Paulo, para mostrar que tudo é permitido, mas nem tudo convém ou edifica, e que se deve seguir o exemplo de Cristo. Assim, elenca três motivos para se abster da carne: primeiro, a repreensão do deleite de comer certos alimentos; segundo, ajudar a sanar a enfermidade dos que fazem sacrifícios aos ídolos, não comendo sua carne; e, por último, a prática da caridade, respeitando a conduta de quem se abstém desses alimentos (De moribus 2, XIV, 35).

Já a explicação maniqueísta para não comer carne não se baseia em nenhum desses motivos, nem mesmo no Evangelho. Para os maniqueus, o mundo é formado da mescla entre o bem e o mal, sendo que a parte divina tende ao retorno a Deus. Ao se alimentarem das frutas, as partículas de luz são liberadas pelo processo digestivo (De moribus 2, XV, 35 e 36). Já a carne contém apenas a corrupção. Dito isso, Agostinho passa a analisar como os maniqueus distinguem os alimentos que podem ou não podem ser ingeridos pelos eleitos, pois carecem de partículas de luz, ou contém em abundância.

Agostinho se questiona como os maniqueus reconhecem os alimentos que possuem mais partículas de luz – se é pela cor, pelo odor, pelo sabor ou pela junção de cor, sabor e odor. Sendo pela cor, argumenta que até o esterco dos animais é colorido, podendo ser branco, vermelho e outras cores; o mesmo ocorre com o sangue, cuja

cor vermelha viva é mais bonita do que a cor de muitas flores; a cor violeta, que é exaltada pelos maniqueus como fonte de luz nos vegetais, é comum aos doentes da bílis, aos que têm icterícia, e nas fezes das crianças; a cor branca de certos legumes é igualmente encontrada no leite, que é abominado; e o mesmo brilho do azeite, um sinal de abundância do bem, é encontrado em carnes gordas (De moribus 2, XVI, 38-39).

Sendo pelo odor, muitos perfumes são feitos a partir da carne de certos animais – mesmo a carne cozida possui um odor agradável; se a pureza das coisas é medida pela suavidade do odor, o lodo, ou a terra que estava seca, quando é molhada pela chuva possuem um cheiro muito mais agradáveis que a própria água da chuva, que não tem perfume algum. Já quanto ao sabor, Agostinho reconhece que existem vegetais mais saborosos que a carne, mas a regra não vale para todos, e argumenta que os legumes se tornam mais saborosos se cozidos com carnes; e muitas ervas que os animais comem não podemos provar, e algumas com leite possuem um sabor bastante agradável (De moribus 2, XVI, 38).

Mesmo na junção do sabor, odor e cor, a carne consegue superar muitos alimentos; já as flores, belas e cheirosas, não possuem um sabor agradável. Em outra hipótese, mostra Agostinho: se o que demonstra a quantidade de luz de um alimento é o brilho, como no caso do óleo, deveriam os maniqueus reconhecer que o sangue e os restos de animais podres têm mais brilho que as folhas de oliva; mesmo as escamas de peixe, vermes e moscas possuem um brilho muito peculiar (De moribus

2, XVI 41-42).

Agostinho também analisa a beleza, a força e a resistência dos alimentos, concluindo que a simetria dos corpos dos animais é muito mais bela que a das árvores e que a carne fornece muito mais vigor e força que as verduras, servindo como exemplo os atletas, que se alimentam com muitas carnes de forma a alcançar excelente vigor físico (De moribus 2, XVI, 43 e 48).

Os sentidos são inaptos para reconhecer a presença de Deus. Medir a presença de luz nos alimentos por meio dos sentidos é, para Agostinho, um erro, um absurdo. E mesmo conceber que Deus esteja presente nos vegetais não faz sentido, pois como poderia um alimento estragar, se possui parte da substância divina e, ao estragar, esse alimento forma o humo, um dos elementos das trevas. O vinho, que não é

ingerido pelos maniqueus, fornece um exemplo contrário, pois ele se torna melhor a medida que fica mais velho e longe da luz (De moribus, XVI 43 -45).

O humo é formado pelo resto de animais e vegetais de todo tipo. Ele é fonte de vida para as plantas, que se nutrem desses restos. Assim, Agostinho ilustra que é possível dizer que as plantas se “alimentam” de animais (De moribus 2, XVI, 49). Para os maniqueus, as almas dos animais são formadas pela ingestão de vegetais. Contudo, existem animais carnívoros, como o leão e a águia e, por outro lado, animais que comem apenas vegetais como os cervos. Para Agostinho, segundo a lógica maniqueísta, esse deveria ser repleto de luz, pois apenas consomem alimentos luminosos, enquanto aqueles das trevas, por apenas ingerir a carne, a matéria (De moribus 2, XVI, 50).

Agostinho conclui que não existe sentido na abstenção de certos alimentos pelos maniqueus – não passam de fábulas. A abstinência de certos alimentos apenas é boa com a finalidade de reprimir certas paixões.

Quantas contradições, que absurdo! Não incorre, certamente, em eles se, livres dessas fúteis fábulas, houvessem seguido o caminho da verdade, que considera a abstinência de comidas esquisitas como um meio para reprimir as paixões e não de evitar uma imundice que não existe (De moribus 2, XVI, 51).

Agostinho considera um contrassenso a preparação de banquetes para os eleitos que, apesar de se absterem de carne, comem uma enorme quantidade de frutas e verduras, para auxiliarem na liberação de partículas de luz. Assim, o eleito, segundo os ensinamentos de Mani, não peca. Contudo, para Agostinho, ele pratica a gula, um pecado. Esclarece ainda que os eleitos deveriam comer tudo o que lhes fossem destinados para garantir a liberação da maior quantidade de luz possível, e que estava vedada a caridade com os pobres para garantir a liberação de luz, que apenas ocorria com os eleitos (De moribus 2, XVI, 52-53).

Agostinho descreve o selo da boca como um erro, um pecado. Para ele, o selo da boca favorecia ao pecado de blasfemar contra Deus, pois exigia que os maniqueus professassem sua fé. E o pecado da gula por parte dos eleitos, pois, apesar de falar da abstenção de certos alimentos, essa é por motivo errôneo, é para favorecer a fábula maniqueísta, além de levar os eleitos a uma ingestão de alimentos luminosos em grande quantidade.