• Sonuç bulunamadı

1.1. Ġġ SAĞLIĞI VE GÜVENLĠĞĠNDE TEMEL KAVRAMLAR

1.1.5. Risk Değerlendirmesi

Em uma crítica direcionada a Ikenberry, mas que também pode ser aplicada à análise de Gowa e Goldstein, Skidmore (2011) afirma que o autor tende a exagerar o grau com que as barganhas institucionais poderiam assegurar Estados menos poderosos de uma restrição do poder norte-americano. Ikenberry (2001) identifica um padrão histórico no qual, a cada reconstrução ao final de uma grande guerra, a ordem internacional teria assumido um caráter mais institucionalizado, exigindo mais compromissos institucionais por parte do Estado dominante.

Para Skidmore (2011), historicamente, os EUA se empenharam em garantir que as instituições que compunham a ordem internacional estabelecida sob sua liderança contivessem prerrogativas que os protegessem de grandes constrangimentos da sua autonomia.

“Em outros casos, os Estados Unidos simplesmente contornavam canais institucionais normais ou intencionalmente delimitavam a autoridade de várias instituições para evitar desafios à liberdade de ação americana” (SKIDMORE, 2011, p. 21-22, tradução nossa).

No âmbito do sistema multilateral de comércio, Skidmore (2011) aponta como exemplos do uso de privilégios a exclusão de áreas sensíveis para os EUA (agricultura e têxteis) do regime; a inclusão de medidas de defesa comercial (instrumentos como salvaguardas e medidas antidumping que foram usados pelos EUA com maior frequência dos que por outros membros do GATT); o uso de medidas unilaterais através das ameaças implícitas nos acordos de restrição voluntária e -- ainda que fossem inconsistentes com as regras do GATT -- das sanções previstas na Seção 301. De fato, não se poderia enxergar no GATT uma

restrição crescente da liberdade de ação dos EUA. Nas últimas décadas do arranjo, Washington se apoiaria, cada vez mais, em recursos de poder para contornar ou mesmo violar compromissos institucionais anteriormente adotados.

Mastanduno (1997) sustenta que, no pós Guerra Fria, os EUA têm se guiado por uma definição mais estreita de interesse nacional, exigindo de outras nações contribuições maiores para a manutenção de instituições internacionais. No que concerne especificamente o regime de comércio, Mastanduno (1997) ilustra seu argumento com as declarações feitas, em 1996, pela representante comercial dos EUA Charlene Barshefsky:

“[...] With the Cold War over, trade agreements must stand or fall on their merits. They no longer have a security component. If we do not get reciprocity we will not get freer trade” (MASTANDUNO, 1997, p. 80).

Ao mesmo tempo, “sem a ameaça soviética, [...] os aliados dos Estados Unidos se tornaram menos tolerantes a prerrogativas especiais em relação a instituições internacionais novas e existentes” (SKIDMORE, 2011, p. 28, tradução nossa). Isso ocorreria porque a proteção norte-americana teria perdido importância na ausência da antiga ameaça externa. Portanto, “mesmo que os Estados Unidos sejam relativamente mais poderosos em termos de segurança depois da Guerra Fria seus aliados são menos dependentes” (MASTANDUNO, 2009, p. 153, tradução nossa).

Assim, para Skidmore (2011), a combinação dessas mudanças dificulta consideravelmente a barganha institucional:

With other states unwilling or unable to take up the institutional burdens abandoned by the United States (as American leaders have demanded) and the United States unwilling to forego the special freedoms and prerrogatives traditionally accorded it with respect to institutional rules and institutions (as U.S allies have demanded), the institutional bargain has became substantially unstuck (SKIDMORE, 2011, p.28).

Segundo Skidmore (2011), ao minimizar indevidamente a importância desses elementos geopolíticos, a literatura liberal institucionalista a qual Ikenberry costuma ser associado falharia em esclarecer as dificuldades mais recentes de instituições multilaterais como a OMC.

Como se sabe, as negociações da Rodada Doha estão travadas há anos e, até o presente momento, não têm perspectiva de serem concluídas com êxito dentro

de um futuro breve. Enquanto a dimensão legislativa da OMC -- ou seja, a esfera responsável pela produção de novas regras comerciais -- sofre com um processo de paralisia, a instituição tem se mantido ativa, sobretudo, por meio da atuação do seu órgão judicial.

Ademais, a partir da década de 90, inúmeros Estados se voltaram para negociações fora da moldura multilateral, resultando em uma proliferação dos acordos preferenciais de comércio.

“O ritmo no qual acordos regionais de comércio entraram em força cresceu de 2,1 por ano nos últimos anos do GATT (1980-1994), muitos ocorrendo no final desse período, para 9,0 ao ano entre 1995 e 2003 e 13 por ano de 2004 para 2012” (VANGRASSTEK, 2013, p. 468, tradução nossa).

Parte desses acordos envolve atores centrais no âmbito da OMC, incluindo os EUA. A partir dos anos 2000, Washington reforçaria ainda mais seus esforços para a negociação de arranjos preferenciais. Em 2011, acordos de comércio com Coreia do Sul, Colômbia e Panamá foram aprovados pelo Congresso norte-americano. Além disso, Washington tem se engajado na negociação de iniciativas ambiciosas -- que envolvem vários países e abrangem uma grande diversidade de temas, incluindo questões atualmente não cobertas pela OMC -- os chamados mega acordos. Em 2015, a administração Obama anunciou a conclusão das negociações da chamada Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), a primeira iniciativa negociada nesses moldes. O mega acordo inclui doze países da região do Pacífico (Austrália; Brunei; Canadá, Chile; EUA; Japão; Malásia; México; Nova Zelândia; Peru; Singapura e Vietnã). Os EUA também seguem em conversações com a UE para a conclusão da chamada Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, lançada em 2013.

Aliado ao investimento dos seus membros em formas alternativas de negociação, o quadro de impasse da função legislativa da OMC alimenta as preocupações de observadores quanto à possibilidade de perda de relevância da organização.