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1.1. Ġġ SAĞLIĞI VE GÜVENLĠĞĠNDE TEMEL KAVRAMLAR

1.1.4. ĠĢ Sağlığı ve Güvenliği

Obviamente, é possível questionar a própria ideia de declínio do poder econômico dos EUA. Para Strange (1987), a ideia de declínio da hegemonia norte- americana consistia, na verdade, em um mito originado nos EUA. Segundo essa perspectiva, a constatação de um declínio naquele momento resultava do uso, pelos observadores, de indicadores convencionais que não eram mais adequados à realidade da economia internacional:

Some American analysts' choice of indicators has misled them into thinking that their country is suffering economic decline. It is not the share of industrial manufactured products made in the United States nor the share of U.S. exports of manufactures to world markets that counts. We should look instead at the proportion of total world production of goods and services produced: a) in the United States, and b) by enterprises ultimately headquartered in the United States and responsible to the government in Washington. We should note which corporations lead, rather than the percentage of world output produced in the United States, or the share of world exports produced in the United States (STRANGE, 1987, p. 566-567).

Para Strange (1987), a turbulência econômica assistida a partir da década de 70 não era consequência de uma decadência de hegemonia, mas sim de um mau uso do poder hegemônico pelos EUA. “Nesse caso, o grau mais elevado de desordem seria compatível com uma mudança marginal nos recursos de poder dentro de uma estrutura que permaneceu basicamente hegemônica” (KRASNER, 1982, p. 500, tradução nossa). Gill (2003) argumenta que a crise de hegemonia do período, na verdade, permitiu um processo de rearranjo do poder norte-americano. Desse modo, como relatam Chorev e Babb (2009), após as dificuldades econômicas da década de 70, uma ordem neoliberal liderada pelos EUA emergiu, substituindo o modelo Fordista Keynesiano de capitalismo, como também, o liberalismo embutido que tinham caracterizado o pós-guerra.

Na década de 90, teses sobre o declínio da hegemonia norte-americana perderam força em decorrência de uma série de fatores. A dissolução da União Soviética e o fim da Guerra Fria alteraram a percepção sobre o status do poder militar, político e ideológico dos EUA. Ademais, enquanto as economias europeia e japonesa enfrentavam anos de estagnação, os EUA experimentavam uma década de crescimento econômico e de melhora da sua competitividade industrial. “Entre 1990 e 1998, o produto nacional bruto dos Estados Unidos cresceu 27%; o da Europa 16% e o do Japão 7%” (IKENBERRY, 2003, p. 538, tradução nossa). Nesse sentido, “o colapso da bipolaridade deixava os EUA como poder dominante mundial tanto em termos de capacidades econômicas como militares” (IKENBERRY, 2001, p. 233, tradução nossa).

Ironicamente, nos anos 90, o aumento -- e não o declínio -- do poder norte- americano começava a preocupar teóricos das relações internacionais. Estudiosos ligados ao neorealismo identificavam uma tendência de desengajamento dos EUA no que dizia respeito a organizações internacionais. Como relata Ikenberry (2001),

de acordo com essa ótica, a dissolução da ameaça comum representada pela União Soviética erodiria o principal elemento de coesão e estabilidade nas relações entre as economias capitalistas ocidentais, enfraquecendo alianças de segurança e a cooperação internacional. Devido ao aumento do poder e das opções de políticas disponíveis aos EUA, parte desses observadores esperava um crescimento da resistência norte-americana em se vincular a instituições multilaterais que pudessem constranger sua liberdade de ação.

Portanto, como descreve Ikenberry (2001), argumentava-se que o fim da Guerra Fria e a emergência de uma configuração de poder unipolar desencadearia a decadência de instituições multilaterais; a ascensão de blocos regionais e a retomada de rivalidades econômicas e políticas.

Como sabemos, em meados da década de 90, no entanto, o sistema multilateral de comércio foi significativamente expandido, movimento que incluiu a criação de uma nova organização multilateral, a OMC, ao final da Rodada Uruguai do GATT. O fortalecimento do SMC se deu tanto do ponto de vista do alcance e aprofundamento das suas regras de liberalização comercial – que passaram a cobrir novas questões e foram assumidos integralmente por um número maior de membros, incluindo países em desenvolvimento – como da perspectiva da sua estrutura organizacional – que foi consideravelmente reforçada pelo estabelecimento de uma instituição com um mecanismo de solução de disputas poderoso.

Ao invés de se afastar de regras internacionais, os EUA expressaram seu apoio a elas de formas significativas. Forneceram a liderança necessária para a conclusão da Rodada Uruguai, e também concordaram com um conjunto de regras organizacionais que conferiram poder significativo à recém-estabelecida OMC (GOWA, GOLDSTEIN, 2002, p. 153-154, tradução nossa).

Segundo Ikenberry (2001), o estabelecimento, na década de 90, de instituições internacionais como a OMC contrariou as expectativas de autores neorealistas. Para o autor, “a criação da OMC em 1995 é talvez o mais claro e certamente mais controverso exemplo na era pós Guerra Fria dos EUA se vinculando a uma instituição internacional” (IKENBERRY, 2001, p. 244, tradução nossa). De acordo com Ikenberry (2001), a persistência da cooperação, manifesta, naquele momento, pelo estabelecimento dessas instituições, era evidência de que, ao contrário das afirmações dos neorealistas, “havia uma lógica institucional interna

a ordem pós Guerra do ocidente, que foi reforçada, mas não causada pela Guerra Fria” (IKENBERRY, 2001, p. 244, tradução nossa).

Ainda de acordo com Ikenberry (2001), essa lógica está assentada na disparidade de poder presente, historicamente, nos momentos de reconstrução da ordem internacional ao final de grandes guerras: ao sair vitorioso do conflito, o Estado dominante tem interesse em obter a adesão de outros Estados a determinados compromissos e em reduzir os custos decorrentes da promoção do cumprimento dos últimos. Ao mesmo tempo, segue o argumento, “[...] quanto mais aguda a assimetria de poderes, mais os Estados mais fracos e secundários estarão preocupados [...]” (IKENBERRY, 2001, p. 258, tradução nossa) com os custos que incorreriam caso o Estado mais forte fizesse um uso arbitrário do seu poder. Assim, a disposição do Estado dominante em adotar uma estratégia de restrição da sua autonomia e estabelecer limites institucionais para o exercício do seu poder, “[...] torna-se uma moeda de barganha que ele pode usar para obter a cooperação institucional de outros Estados” (IKENBERRY, 2001, p. 259, tradução nossa).

Desse modo, as negociações para a criação da OMC são interpretadas pelo autor com base nos parâmetros dessa dinâmica de restrição estratégica do Estado dominante:

“A OMC foi defendida por países que buscavam fortalecer as bases legais das obrigações de política comercial como forma de disciplinar o recurso a medidas unilaterais, particularmente pelos EUA” (IKENBERRY, 2001, p. 244-245, tradução nossa). Nesse sentido, a reforma que fortaleceu o mecanismo de solução de controvérsias existente no GATT seria peça central da barganha institucional da Rodada Uruguai, uma vez que restringia o uso da Seção 301 pelo governo norte- americano. As propostas de reforço do sistema de resolução de disputas teriam sido apoiadas pelos europeus “como forma de proteção contra os excessos unilaterais dos EUA” (IKENBERRY, 2001, p. 245, tradução nossa). Na outra ponta da negociação, por sua vez, os EUA concluiriam que “[...] os ganhos das negociações comerciais da Rodada Uruguai e o fortalecimento do sistema de regras de comércio superaria as restrições na sua discricionariedade política” (IKENBERRY, 2001, p. 245, tradução nossa).

Em uma linha de argumentação que guarda semelhanças com a abordagem de Ikenberry, Goldstein e Gowa (2002) sugerem que o interesse dos EUA por regras formais no campo do comércio aumentou de acordo com seu poder relativo: houve

um pico no interesse do país por instituições nos momentos imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial e à Guerra Fria, quando a desigualdade entre o poder norte-americano e o de outros países era mais acentuada.

Segundo Goldstein e Gowa (2002), isso ocorreria porque em ambos os contextos o reforço no poder dos EUA levaria ao agravamento de um problema de credibilidade internacional -- isto é, Estados menores temeriam um comportamento oportunista por parte dos EUA, que teriam mais facilidade em tentar descumprir ou renegociar as promessas de manter seus mercados abertos depois que seus parceiros comerciais tivessem feito investimentos irreparáveis para aproveitar oportunidades de exportação para o mercado do Estado hegemônico. Por essa razão, para Goldstein e Gowa (2002), apenas sinais custosos, como o apoio do Estado líder a um regime de comércio com mecanismos para supervisionar a observância dos compromissos internacionais, poderiam assegurar novamente os países mais fracos.

Durante a Guerra Fria, essas desconfianças teriam sido atenuadas pela crença de outras nações de “[...] que os interesses de segurança dos EUA os levariam a promover o crescimento de indústrias de exportação em países aliados [...]” (GOLDSTEIN; GOWA, 2002, p. 154, tradução nossa). Com o final do confronto, entretanto, os Estados estariam mais incertos sobre as reais intenções norte- americanas.

Desse modo, segundo essa perspectiva, “a criação da Organização Mundial do Comércio refletiu, em parte, o reconhecimento pelos EUA da sua necessidade de fazer um compromisso crível para seus parceiros comerciais [...]” (GOLDSTEIN; GOWA, 2002, p. 155, tradução nossa), tendo em vista circunstâncias que tornavam mais difícil a obtenção de acordos comerciais. Para os autores, ainda que os negociadores norte-americanos na Rodada Uruguai tenham inicialmente resistido às propostas de Canadá e CE para o estabelecimento de uma nova organização internacional, “ao endossar um conjunto de mudança de regras que constrangia sua habilidade de agir unilateralmente, os EUA tentaram reafirmar seu compromisso com o comércio liberal” (GOLDSTEIN; GOWA, 2002, p. 160, tradução nossa). Assim, a decisão dos EUA é descrita como “[...] uma concessão parcial para um mundo em desenvolvimento que queria uma moldura multilateral mais forte para conter o poder dos EUA” (GOLDSTEIN; GOWA, 2002, p. 160, tradução do nossa).

reforma profunda do OSC, proposta mais ambiciosa do que a que vinham advogando desde a década de 80. Goldstein e Gowa (2002) sugerem a existência de uma relação entre essa mudança e o término da Guerra Fria:

“Embora certamente não seja a única ou talvez nem mesmo a causa mais importante do comportamento norte-americano, o poder relativo da América teve efeitos na sua disposição de delegar autoridade ao regime de comércio” (GOLDSTEIN; GOWA, 2002, p. 160, tradução nossa).

Com base nessa leitura, a alteração teria sido incentivada, entre outras razões relevantes, pelo crescimento das preocupações de outros países com a consistência do compromisso dos EUA com o livre comércio. Goldstein e Gowa (2002) utilizam a teoria econômica para fundamentar esse argumento: Como aquele que detem a hegemonia é o único ator que pode se beneficiar do uso de uma tarifa ótima, há maior incerteza sobre seu engajamento com práticas liberais.

Was America’s increasing interest in dispute settlement reform a result of the fall of the Soviet Union? Although the shift in the balance of power was scarcely discussed at negotiations, it may well have increased the need for the US to signal its continued commitment to the trade regime. A reputation for unilateral action was less of a problem during the Cold War; in the new international order, US interests and commitment were less clear

(GOLDSTEIN; GOWA, 2002, p. 163).

Apesar de mencionar que a decisão dos EUA sobre o OSC teve motivações diversas, ao frisar que ela teria respondido a um problema que afetava países menos poderosos, o argumento de Goldstein e Gowa parece, de certa forma, subestimar o interesse direto dos EUA na reforma do OSC. Como se sabe, a CE e o Japão inicialmente resistiam às propostas norte-americanas de legalização do orgão, postura que se alterou após um fortalecimento da Seção 301 em 1988. O mesmo pode ser dito pela maneira como a análise dos autores enfatiza as dúvidas dos parceiros comerciais dos EUA quanto ao compromisso norte-americano com regras liberais de comércio, ressaltando, portanto, o interesse desses atores, e não do líder, em negociações comerciais. Nas palavras dos autores:

“By the middle of the Uruguay Round, however, it was not US interests that fueled reform efforts but the perception by others that reform would constrain unilateral US action” (GOLDSTEIN; GOWA, 2002, p.162).

Ainda que não desconsiderem a influência de outros fatores, essa interpretação sugere que o fortalecimento do poder norte-americano com o fim da

Guerra Fria, e o interesse de outros países em limitar o unilateralismo dos EUA tiveram um peso significativo na mudança de postura dos negociadores do país quanto ao OSC. De certa forma, parece até contraditório argumentar que os EUA se tornaram mais responsivos a demandas -- que envolviam algum nível de restrição da sua discricionariedade política -- de outros autores devido a um aumento do seu poder. A opção dos autores de ressaltar esses elementos, entretanto, tem desdobramentos teóricos importantes, dentre eles o entendimento de que os EUA apoiaram reformas que reduziram sua influência sob o regime de comércio:

America’s apparent declining interest in the GATT, coupled with the breakup of the Soviet Union, may suggest that the US could dictate the terms of reform. The outcome of these reforms, however, was in the opposite direction. Instead of crafting a system that increased its ability to have power over the trade regime, the United States endorsed a program that reduced it (GOWA; GOLDSTEIN, 2002, p. 162).

Outras análises sobre a alteração na posição dos EUA quanto ao órgão enfatizaram a influência de atores domésticos e dos interesses do próprio país no cumprimento de compromissos internacionais que seus negociadores tanto tinham advogado. Chorev (2007) relata que os grupos econômicos que demandaram a incorporação das questões relativas a serviços, investimentos e propriedade intelectual ao GATT argumentavam em Washington que, na ausência de um mecanismo mais eficiente, a observância de compromissos nessas áreas seria seriamente comprometida. Como discutiremos com mais profundidade no capítulo seguinte, segundo essa perspectiva, a nova posição americana sobre a reforma estava mais ligada à evolução das negociações e à constatação, por volta de 1990, de que o cumprimento dos acordos relativos aos chamados novos temas também estava em jogo do que a mudanças geopolíticas como o fim da Guerra Fria. Nesse sentido, Barton et al (2006) enfatizam que a postura mais radical assumida pelos EUA no que diz respeito às alterações do mecanismo judicial esteve condicionada, sobretudo, a uma correspondência entre o conteúdo das regras acordadas na Rodada Uruguai e as preferências norte-americanas. Além disso, o compromisso norte-americano de abandonar o unilateralismo como via para solucionar controvérsias comerciais estava condicionado ao estabelecimento de um mecanismo multilateral eficiente para a resolução de disputas.

disputas mais forte e, portanto, atribuir um peso menor às preferências de outros atores, essa abordagem tem uma posição mais cautelosa sobre o entendimento, apresentado pela literatura anterior, de que as reformas da Rodada Uruguai teriam reduzido a influência norte-americana sobre o regime de comércio. Como discutiremos no capítulo 4, embora haja certo consenso em torno da ideia de que essas alterações, de fato, tiveram sucesso ao conter o uso unilateral da Seção 301 pelos EUA, a suposição de que elas restringem significativamente a influência do país sobre disputas comerciais é objeto de debate.