3.5. BULGULAR
3.5.5. Regresyon Analizleri
Procurou-se esclarecer até o momento que o concurso operário padrão tinha regras muito bem-delineadas, balizadas pelo Departamento Nacional do SESI e enviadas para os Departamentos Regionais para que esses organizassem seus respectivos concursos. A cada ano repetiam-se as ações do certame e as atividades que envolviam os operários selecionados.
Conforme Bárbara Weinstein184 menciona em seu artigo sobre o concurso em São Paulo, o alcance da campanha não era muito extensivo, dado o número de empresas participantes, o que fica comprovado também no Rio Grande do Sul pelos documentos examinados. Entretanto, e aqui se considera o papel desempenhado pelo o Globo e, especialmente pela televisão, pois esse concurso, segundo a autora, obteve “um traço característico da cultura de massa durante os primeiros anos do regime militar”. O trabalhador que vencesse essa competição poderia “ser visto em fotografias em O Globo e nas capas de revistas de grande circulação, em geral
183 SILVA, Antônio Rodrigues da. Entrevista com Operário Padrão Rio Grande do Sul 1984 [29 set 2009]. Entrevistadora: Daniela de Campos. Campo Bom/RS.
184WEINSTEIN, Barbara. The model worker of the paulista industrialists: The “Operário Padrão” Campaign. Radical History Review, Durham, NC, p. 92-123, Winter 1995, p. 352.
sendo parabenizado pelo presidente do Brasil. Ele aparecia também na televisão e nos cinejornais que eram apresentados nos cinemas”.185
Segundo DaMatta186, o ritual, nas sociedades complexas, como a brasileira, serve para “promover a identidade social e construir seu caráter”. E aduz que “o domínio do ritual é como se fosse uma região privilegiada para se penetrar no coração cultural de uma sociedade, na sua ideologia dominante e no seu sistema de valores”.
Nas sociedades tradicionais, partindo do conceito antropológico, os rituais são desenvolvidos geralmente de forma individual, ou seja, para marcar momentos de crise ou a resolução desses, isto é:
A direção do movimento ritual na sociedade tradicional é para engendrar uma complementaridade interna, daí a atenção aos processos de crise que separam categorias de pessoas umas das outras e, consequentemente, o esforço em individualizar controladamente, com o grupo tomando a iniciativa desse processo e por meio dos agentes certos em momentos adequados e programados. Assim fazendo, o grupo impede o processo de livre individualização, criando as condições para que tudo fique novamente junto.187
Em se tratando de sociedades complexas, ou seja, sociedades industriais, o rito é coletivo. O individual e o regional cedem lugar ao nacional. O ritual é a forma de tornar social o que é natural, é uma dramatização188. De acordo com Mariza Peirano189, os rituais podem ser profanos, religiosos, festivos, formais, informais, simples ou elaborados. Para a autora, na nossa sociedade, existem eventos que são considerados potencialmente como rituais190, uma vez que são especiais, como uma formatura, um casamento ou uma campanha eleitoral.
O concurso Operário Padrão tornou-se um ritual em que o ator principal era o operário modelo, coroado por seu esforço contínuo e pela valorização de seu
185 Em depoimento, o operário padrão do Rio Grande do Sul 1984 mencionou o fato de ter participado do programa de auditório do Chacrinha na ocasião em que esteve no Rio de Janeiro.
186 DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis. Para uma sociologia do dilema brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 29.
187 Ibidem, p. 32-33. 188 Ibidem.
189 PEIRANO, Mariza. Rituais ontem e hoje. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
190 De acordo com Peirano (ibidem), os rituais devem ser analisados pelo pesquisador através de pesquisa etnográfica e a partir dela conceituados. No caso do concurso operário padrão, objeto de estudo desta tese, inviável fazê-lo porque o concurso não é mais realizado e a conceituação do evento, enquanto ato ritual, extrapola os objetivos do trabalho.
empenho no trabalho e na empresa a que estava ligado. Esse coroamento era realizado pela instituição que representava seus empregadores, ou seja, a valorização partia daqueles que pagavam seus salários. Como havia cobertura dos meios de comunicação de massa, jornal, rádio e, posteriormente, a televisão, registrava-se a valorização do operário escolhido perante toda população, até mesmo para aqueles que não se envolviam com o concurso. Ser um bom operário produzia suas recompensas, materiais e simbólicas.
Da parte do SESI cumpria-se o papel da campanha: valorizava-se o bom elemento, o trabalhador disciplinado, provedor do lar e adepto da concepção de harmonia entre os grupos sociais.
Anualmente, repetia-se um cronograma que, por via de regra, iniciava no mês de abril e ia até o mês de outubro ou novembro, ou seja, era uma campanha extensa, na qual o departamento nacional estava diretamente envolvido em todas as etapas. O lançamento do concurso, muitas vezes coincidia com outra data importante para os trabalhadores, o 1º. de Maio. Assim, o SESI incorporava-se a uma data que é sinônimo da luta dos trabalhadores para exaltar as virtudes de um trabalhador que estava em consonância com os ideais de um grupo que a história mostra que os trabalhadores ligados aos movimentos de luta sempre tiveram que combater.
Mas o que denotava maior exaltação com este trabalhador era a programação preparada para os finalistas no Rio de Janeiro e em Brasília. Muitos desses operários não teriam oportunidade de conhecer essas cidades se não fossem escolhidos operários padrão. Tampouco teriam a chance de fazer os passeios que o SESI e o jornal O Globo proporcionavam e a oportunidade de conhecer o governador do estado do Rio de Janeiro e o Presidente da República, como pode ser visto na fotografia a seguir. Definitivamente era um momento sem igual na vida dessas pessoas.
Figura 5 - Operário Padrão com Presidente da República João Figueiredo, 1981.
Fonte: Agência O Globo
Ainda, citando DaMatta191, um ato, para que se torne ritual, não necessita de sequência, mas sim que a sociedade o coloque em lugar especial. O ritual utiliza do cerimonial que impõe início, meio e fim ao evento extraordinário. Deve ser extraordinário, pois se assim não fosse deixaria de ser especial. Teríamos operários homenageados cotidianamente e isso retiraria o caráter especial do evento. O fim do ato, do rito, significa o retorno à normalidade, no caso, a volta para o trabalho, para a fábrica, para o contato com as máquinas, com os colegas e com a família. Mas então o operário estava diferente, ele era o exemplo, o padrão a ser seguido pelos outros, caso desejassem alcançar também aquela efêmera notoriedade. O operário padrão não era mais o mesmo, pois ele tinha um certificado para emoldurar na parede de sua sala e um troféu para ostentar.
Figura 6 - Premiação Operário Padrão 1984
4 FABRICANDO O OPERÁRIO MODELO
Este capítulo tratará da construção do operário padrão como trabalhador ideal a partir da concepção dos empresários industriais, defendida pelo SESI. Para tal, entende-se, no escopo desta pesquisa, a COP como um instrumento que visava disciplinar os trabalhadores, não somente aqueles que participaram do concurso, mas especialmente os demais, por meio do exemplo imposto pelo Operário Padrão. Assim, as regras criadas pelos patrocinadores da campanha tendiam a escolher e, de certa forma, “fabricar” um modelo a ser seguido pelos outros, e, por conseguinte, disciplinar a mão de obra.
Não se constitui objeto desta pesquisa se, de fato, o concurso atingiu seus propósitos para com os demais operários, mas sim o que o empresariado projetava a partir do exame os documentos produzidos pelo SESI para constituição desse operário modelo.
A COP era, acima de tudo, a exaltação do trabalho, do labor constante e dedicado e isso numa sociedade que necessitou “reabilitar o valor do trabalho”, como mencionado nesta pesquisa. Mas também era, a partir desse objetivo principal, um modo de adequar a força de trabalho.
A compreensão do disciplinamento da mão de obra, por meio do discurso do bom operário encarnado pelo OP, não pode se descolar do contexto político vivido pelo Brasil a partir da segunda metade dos anos 1960, com a implantação de uma ditadura. Já se enunciou neste trabalho que a COP foi uma das iniciativas voltadas aos trabalhadores mais significativas do empresariado nacional nesse contexto político.
O entendimento da Campanha Operário Padrão como um mecanismo que procurava disciplinar a mão de obra é uma forma de entender essa iniciativa por parte dos empresários, mas não se pressupõe que seja a única forma de compreendê-la, como bem demonstrou o estudo de Colbari192. A percepção do concurso como um mecanismo disciplinador utilizado pelos empresários baseia-se na perspectiva orientadora dos conceitos discutidos por Foucault e, mais tarde por Gaudemar.
Antonia Colbari193expressa em seu estudo que o operário padrão não representava a totalidade dos trabalhadores industriais brasileiros, uma vez que, por suas características apontadas pelo próprio certame, compõe uma “elite de trabalhadores”. Mas se ele não expressava os operários em sua totalidade, ou uma média, qual a função do OP?
Na visão empresarial, simbolizada pelo SESI, neste caso específico, o OP representaria um modelo a ser seguido, um ideal a ser alcançado pelos outros trabalhadores. Pode-se considerar que o concurso era um mecanismo disciplinador para aqueles que podiam acompanhar o evento em suas empresas ou pela divulgação na mídia. Dessa forma, o instrumento de premiar um indivíduo exemplar deveria agir sobre os demais trabalhadores que, ao se espelharem naquele modelo, poderiam alcançar também o êxito.
Assim, para se compreender o concurso Operário Padrão é necessário que se entenda a construção de um conjunto de regras que esquadrinhavam a vida do trabalhador candidato, ao passo que exprimiam o ideal de trabalhador por parte dos promotores do evento. Mas também é preciso compreender os mecanismos de disciplinarização voltados aos trabalhadores, de acordo, principalmente com as ideias do filósofo francês Michel Foucault e do economista Jean-Paul de Gaudemar.
Portanto, para o escopo deste trabalho, compreende-se a Campanha Operário Padrão como um elemento disciplinador da mão de obra alocada, especialmente, na indústria, por meio de um conjunto de quesitos que o trabalhador deveria apresentar para se tornar vencedor do concurso, sendo, dessa forma, um exemplo aos demais.