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Contemplada a investida empresarial de agir sobre o operário e, de forma mais global, também sobre sua família, com a criação do SESI, encaminha-se a discussão sobre a Campanha Operário Padrão. Nesta parte do trabalho, abordar-se- á o Concurso em si e não os operários vencedores.

A Campanha nasceu em 1955, como iniciativa exclusiva do jornal O Globo158, para premiar o Motorista Padrão, sendo uma campanha que abrangia somente o Rio de Janeiro.

Quando o Globo lançou a campanha “Motorista Padrão”, dava o primeiro passo no sentido de promover a educação profissional nos diversos planos de atividades, através da exaltação dos bons, que se encontram em todos os meios, pondo em evidencia o exemplo construtivo, para estímulo aos demais. Esse programa prossegue pacientemente, a surpreender todas as categorias, propiciando as entregas dos prêmios RPM, as cenas mais comoventes, com os mais calorosos e sinceros aplausos, que animam O GLOBO a estender essa campanha, de acordo com os projetos iniciais, a outros setores de trabalho. O objetivo permanece o mesmo: descobrir e revelar os “padrões”, que, felizmente para nós são muitos, entre os que trabalham. “Padrão” deverá ser uma soma de índices, cabendo a cada indústria escolher o seu. Não haverá protocolos de difícil execução. Ninguém deve estar mais interessado do que o homem de negócios em fomentar o bom exemplo entre seus funcionários. [...] com a boa vontade dos que trabalham e dos que os comandam, vão apontar, como exemplo, o nome e a história dos que vencem no trabalho, pela dedicação, competência e disciplina.159

Ainda sobre o surgimento da campanha, Antonia Colbari lembra que a mesma foi idealizada pelo jornalista Walter Poyares160, com o objetivo de “modificar a imagem do trabalhador operário”, uma vez que este “somente aparecia diante da opinião pública envolvido em fatos negativos, acidentes, crimes e outros infortúnios, reforçando os estereótipos e os preconceitos nas representações do trabalhador brasileiro, formuladas pelos diferentes segmentos da sociedade”.161

158 Conforme WEINSTEIN (op. cit.), o jornal, por meio desse concurso, procurava se tornar mais popular.

159 O OPERÁRIO Padrão. O Globo. Rio de Janeiro, 7 out. 1955.

160 Além de atuar com o consultor em várias empresas, Walter Poyares foi assessor da presidência de O Globo e da Rede Globo de Televisão.

Durante o primeiro Encontro de Coordenadores da Campanha Operário Padrão, realizado em abril de 1979, Poyares, em palestra proferida aos coordenadores, afirmou que, desde que a campanha fora lançada, houve a preocupação, da parte do jornal, para que

[...] esse movimento não fosse uma espécie de concurso para medir matematicamente qualidades, mas fosse o resultado de uma apuração de virtudes no trabalho, na convivência, e também representasse o consenso de companheiros, isto é, que emergisse com a forma de uma liderança natural, isto é, aquele que é apoiado pelos demais como sendo capaz de representar a todos como trabalhador, o sujeito que trabalha, como peça do mecanismo da criação da riqueza local, da riqueza nacional, da riqueza do país.162

Em 1956, comemorando dez anos de seu surgimento, o SESI propôs ao jornal participar da campanha e fazer com que ela tivesse abrangência nacional. Participaram, naquele ano, doze operários de diferentes estados.163 Entre os anos de 1957 a 1964, o concurso foi realizado sem o envolvimento do SESI, a encargo apenas do jornal O Globo, mas, conforme documento elaborado por pessoas envolvidas com o concurso, a Federação das Indústrias do Distrito Federal sempre apoiou a iniciativa, premiando o operário escolhido com um diploma da Federação.164

Em 1965, firmou-se o acordo definitivo entre o SESI e o Globo para a promoção do concurso anualmente, tornando a campanha nacional. Segundo Weinstein, após 1964, o SESI pouco renovou em programas e ações voltadas ao trabalhador. Sua inserção no concurso para premiar um operário modelo foi uma das poucas inovações implantadas após o golpe militar, pois o contexto político favorecia esse tipo de investida. Para a entidade empresarial, essa Campanha se configurava num “veículo conveniente para um discurso que enfatizava o esforço individual e a cooperação com o patrão como a chave da ascensão social para os operários”165.

Ficou acordado que o SESI se responsabilizaria pela estrutura da campanha, enquanto o jornal cuidaria da divulgação. E, dessa forma, ocorreu até 1987. Nesse ano, o concurso passou a denominar-se Operário Brasil.

162 SESI. I Encontro de Coordenadores da Campanha Operário Padrão. Rio de Janeiro, abril de 1979, s/p.

163 COLBARI, op. cit.

164 BARROS, Péricles. Reconstituição Histórica. Rio de Janeiro: SESI, 1992. 165 WEINSTEIN, 2000, p. 351.

Em 1986, a expressão “padrão” foi retirada do título da Campanha, revelando a preocupação de sintonizá-la melhor com as representações presentes no imaginário dos operários. A despeito do consentimento das cúpulas para as inovações sugeridas e implantadas pelos técnicos, o discurso empresarial revela a permanência do atrelamento do evento a uma concepção de trabalhador exemplar, que deve ser fixada no imaginário social. Esse fato revela o descompasso entre os valores e as demandas dos órgãos diretores do Sesi, cuja cúpula confunde-se com a das entidades classistas empresariais (o diretor do Sesi nacional é o presidente da CNI, e o do Sesi regional é o presidente da Federação das Indústrias nos estados), e os valores das demandas do seu quadro técnico. Estes, por serem mais independentes dos interesses empresariais, tentam dar significado ao evento, mais pela homenagem ao trabalhador que pelo destaque de suas virtudes exemplares.166

Entre o Operário Padrão e o Operário Brasil, pode-se afirmar que há uma continuidade: premiava-se o trabalhador individualmente pelos méritos demonstrados, segundo critérios definidos pelos órgãos representativos da indústria. No ano de 1996, portanto 40 anos após a primeira premiação, o SESI resolveu mudar novamente. Manteve a premiação, porém em moldes totalmente diferentes, pois distinguia-se a empresa e não o operário. O novo prêmio denominado Prêmio Sesi Qualidade no Trabalho – PSQT, o “foco passou aos benefícios que as empresas levam a seus funcionários e à comunidade”167.

166 COLBARI, op. cit., p. 101.

167 CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA. Indústria Brasileira. Disponível em: <http://www.cni.org.br>. Acesso em: 28 abr. 2009.

Figura 2 - Cartaz Operário Padrão 1980

3.5 AS REGRAS DO JOGO: OU O QUE ERA PRECISO PARA SE TORNAR

Benzer Belgeler