Segundo Bárbara Weisntein, “estamos mais habituados a discutir as visões utópicas dos oprimidos que os milenares anseios dos poderosos”150. Entretanto, para o entendimento da criação de um organismo como o SESI e de uma campanha como a Operário Padrão, é importante entender qual a concepção de sociedade modelar que os industriais almejavam. Muitas dessas ideias estão contidas na referida Carta da Paz Social.
O que se propunha, com base na Democracia Cristã, era uma economia baseada em um capitalismo de bem-estar, diferentemente de um Estado de Bem- Estar Social, a exemplo de países de economia capitalista mais avançada. Tal sociedade ideal, na ótica desses industriais, entre os quais se destacava Roberto Simonsen, concretizar-se-ia pelo combate à pobreza, com melhoria na produção industrial.
Diferentemente pensavam muitos operários que, durante o período da guerra, foram submetidos a muitos sacrifícios de ordem política e econômica e, agora, com o final do conflito, desejavam uma melhoria de vida. Muitos desses trabalhadores acreditavam que a melhoria somente adviria com reivindicação e com uma postura de não alinhamento aos industriais.
O discurso sobre os sindicatos defendido na Carta é de apoio e de ampla liberdade de ação:
[...] 10) Completando o conjunto de medidas constantes desta Carta, empregados e empregadores farão sentir ao Estado a necessidade das seguintes providências:
[...]
f) medidas que assegurem aos sindicatos ampla autonomia, quer quanto à escolha e destituição de seus dirigentes, quer quanto à administração dos fundos sociais, sem prejuízo da fiscalização do Estado.
Todavia o que ocorre de fato é que os industriais não apoiavam os sindicatos. Por meio do SESI, procuravam agir cooptando os trabalhadores com os serviços ofertados pela instituição, desse modo, tentando aproximar mais o trabalhador do
mundo empresarial, isto é, de suas concepções de trabalho e de vida, ao passo que procurava afastar o operário da convivência sindical.
No mesmo sentido, o próprio governo federal não se mostrava muito afeito a concessões aos operários. Apesar de democrático, o governo Dutra executou mais de quatrocentas intervenções em entidades sindicais operárias151. Mesmo propagando um discurso de harmonia, os empresários não se opuseram a essa prática, que estava em consonância com o clima da época, de início da Guerra Fria.
Ainda em 1946, ano de criação do SESI, Morvan Dias de Figueiredo foi escolhido para ocupar o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, como já citado anteriormente. Esse industrial ficou conhecido como o ministro da “paz social”, título conferido pelos industriais de São Paulo. Como um dos idealizadores do SESI, acreditava que essa instituição cumpria plenamente a função social e assistencial para com os operários. Além de supervisionar a cruzada anticomunista entre os sindicatos dos trabalhadores, em sua gestão como ministro, o salário mínimo não percebeu nenhum aumento152.
Sendo um dos mentores e grande defensor da entidade, Roberto Simonsen enxergava no SESI possibilidade real de integração entre as classes e entre os próprios empresários na busca pela harmonia social, como demonstra a fala a seguir:
O que ressalta desse movimento é a integração de 100 mil patrões numa campanha humanitária. O SESI foi inspirado na filosofia social cristã e é uma obra realmente inédita entre nós. Não trará ônus ao poder público, embora se destine a trabalhar em estreita colaboração com o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.153
No mesmo sentido, Euvaldo Lodi, presidente da CNI, ao ressaltar os aspectos positivos da assistência proporcionada pelo SESI, condenava aquela praticada pelos sindicatos de inspiração marxista, invocando ainda o humanismo cristão:
Esse ajudar o trabalhador a ajudar-se faz que a assistência não seja repelida ou encarada sob o aspecto em que a propaganda marxista desejaria focalizá-la. Para nós, enfim, este é o humanismo cristão que, [...], nos permite restituir o homem ao trabalhador. Tudo está em que nós, os empregadores, não vejamos primeiro o operário como instrumento de
151 MATOS, op. cit. 152 WEINSTEIN, op. cit.
produção, antes o homem que edifica sua personalidade no trabalho, comum a ele e a nós.154
Ainda em 1946, Simonsen, aos jornalistas paulistas, afirmava que o “SESI foi inspirado na filosofia social cristã e é uma obra realmente inédita entre nós”155. Empresariado industrial e Igreja Católica unem seus esforços para a efetivação de um ideal comum: o combate ao comunismo, visto como pernicioso por diferentes motivos, para uns e outros, caso exercesse influência nos trabalhadores brasileiros. A Democracia Cristã, para os industriais adeptos a ela, era considerada como uma opção razoável, uma alternativa ao liberalismo e ao socialismo.
Era a “Terceira Via” democrata cristã, uma espécie de corpo doutrinário ideológico inspirado nos ensinamentos da Doutrina Social da Igreja e portador de soluções políticas distintas das oferecidas pelo liberalismo individualista e pelo comunismo coletivista.156
Com o fim do governo Dutra e a complexidade da política social dos governos que o sucederam até o golpe civil-militar de 1964, tornou-se mais difícil, para a classe empresarial, propagar o discurso da paz social, conquanto esse ainda fosse utilizado. Ressalta-se também que seu maior defensor, Roberto Simonsen, havia morrido em 1948.
No âmbito do SESI, a ideia continuou a ser divulgada durante muito tempo e enfatizava certos aspectos conforme o contexto político: combate ao comunismo, organização racional do trabalho (fábrica como espaço ideal), segurança nacional. O trecho a seguir, do livro de Antonia Colbari, define com muita precisão o que foi a doutrina da Paz Social e como ela agiu em relação aos trabalhadores nacionais:
A doutrina da paz social, tão propalada pelas elites políticas e econômicas, estimulou uma concepção corporativa da ordem social que negava o conflito pela afirmação da grandeza da comunidade nacional. A exclusão do conflito social servia para manter intocável o ideal de sociedade hierárquica e harmônica, na qual a ordem coletiva se sobrepunha aos indivíduos: uma ideologia que encobria a privatização das agências do Estado pelos interesses econômicos dominantes e legitimava a repressão ao movimento operário para mantê-lo aprisionado nos marcos do sindicalismo corporativo.157
154 SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA, [s.d.] apud, SANTOS, A., op. cit., p. 14. 155 SESI RS. Sesi: Objetivos. Porto Alegre: Sesi, 1976, p. 23.
156 BUSETTO, Aureo. A Democracia Cristã no Brasil: princípios e práticas. São Paulo: UNESP, 2002, p. 15.