2. KİMLİK, İDEOLOJİ, MODERN DEVLET VE KOLEKTİF HAFIZA
2.1.1. Kimlik: Kavramsal Çerçeve
2.1.1.2. Psikanalitik Kuramdan Post Modernizme Kimlik
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz! (Trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal).
O cenário geográfico apresentado pelo país nas primeiras décadas de colonização européia era representado pela faixa costeira, que oferecia solos férteis à agricultura tropical, condição elementar para a realização dos planos posteriores que serviriam de base econômica da sua ocupação. Prado Júnior (1984) registra as condições do território brasileiro nesse período: no Nordeste, extensos solos áridos; o planalto Centro-Meridional apresenta excepcionais condições para o estabelecimento humano. O Extremo-Norte, formado pela bacia amazônica e seus rios navegáveis, facilitou a penetração dos colonizadores, mas sua densa floresta representou obstáculo à povoação. O planalto brasileiro apresentava abundantes recursos minerais e, a partir do século XVIII, esse será um atrativo para a colonização dessa região, especialmente o território ocupado pelo estado de Minas Gerais, onde serão explorados diversos minerais, além de ouro, diamante e ferro.
A ocupação do território brasileiro pelos portugueses se deu, principalmente, porque não encontraram na nova terra as condições de continuar a prática de benfeitorias mercantis que os europeus vinham praticando pelo resto do mundo. Como não havia população suficiente e com a cultura necessária à consecução de seus objetivos, iniciaram a povoação que iria garantir, em primeira instância, a exploração dos produtos extrativos, em particular o pau-brasil, e mais tarde o que se tornaria sua base econômica, a agricultura de maneira predatória. Posteriormente, os metais preciosos mudarão drasticamente o compasso da colonização. Além desses fatores, a necessidade de construção de um novo lar se torna imprescindível para muitos que não encontram condições de subsistência em seus países de origem, seja por motivos econômicos ou religiosos.
Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde,
ouro e diamante; depois algodão e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isto. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país [...] que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras (PRADO JÚNIOR, 1984, p. 23).
Com o avanço dos franceses sobre a América, efetivou-se a ocupação do novo território de forma planejada. Para tanto, procedeu-se à divisão da costa do país em doze capitanias que foram doadas a titulares. Iniciou-se o cultivo da cana-de-açúcar – cultura própria para as condições climáticas e de solo apresentadas –, que se destacou na área ocupada por Pernambuco e no Recôncavo Baiano. Em consequência, surgem as grandes propriedades monocultoras que o tipo de negócio impunha para se realizar e se instaura o trabalho escravo africano (PRADO JÚNIOR, 1984), e com elas surgem as primeiras leis no Brasil e estabelecem políticas próprias de utilização do solo, administração dos trabalhadores e da produção.
A fase de maior crescimento do povoamento do território brasileiro pelos portugueses se verifica a partir de 1650, aproximadamente, devido aos fatos históricos anteriores referentes à relação Portugal-Espanha, que deixaram o primeiro em estado desolador. Em busca de sustento e estabilidade, massas de imigrantes portugueses desembarcam no Brasil e sua chegada altera a suposta harmonia da colônia e traz a cultura portuguesa e seu sistema de ocupação que caracteriza os primeiros núcleos urbanos do Brasil. Não raro, são registrados lutas e conflitos que culminariam nos levantes pela Independência. Verifica-se o enfraquecimento das Câmaras Municipais locais que na ocasião detinham poderes incontestáveis.
Um dos maiores golpes desferidos nas franquias locais foi a introdução dos juízes-de-fora no Brasil, em substituição aos juízes ordinários de eleição popular. Além de suas funções jurisdicionais, cabia aos juízes a presidência das Câmaras (PRADO JÚNIOR, 1984, p. 52).
Foram, ainda, implantadas medidas que cerceavam o comércio com o exterior, a fim de restringir ao reino todo o produto extraído da colônia e a ele garantir o lucro. Após a exploração exaustiva do solo por técnicas rudimentares de preparação do solo, cultivo, moagem, entre outros, registra-se a decadência da colônia e o fim da fase próspera dos engenhos. Redescobre-se, então, o algodão. O desenvolvimento de sua cultura se destacou principalmente no Maranhão, e sua exportação alcançou níveis jamais vistos na escala do comércio internacional. Após seu apogeu, a falta de modernização e de empenho na implantação de técnicas e máquinas modernas, o desinteresse pela formação cultural dos
habitantes, bem como a inabilidade administrativa da metrópole decretarão a desvalorização do produto no mercado e a falência dessa cultura. Mas a descoberta de importantes jazidas auríferas no Centro-Sul, principalmente em Minas Gerais, deu início a um novo e longo processo da história brasileira do início do século XVIII, e sua exploração teve rebatimentos na paisagem mineira.
Por motivos estratégicos, a Coroa havia providenciado a transferência da capital da colônia da Bahia para o Rio de Janeiro, em 1763. O porto do Rio de Janeiro agilizava as exportações – base da consistência econômica da metrópole –, cujo eixo econômico se localizava nas províncias do Centro-Sul. A centralização do poder mais próximo às capitanias mais desenvolvidas favoreceria o abastecimento por meio do desenvolvimento da pecuária em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, o que propiciou o surgimento de estradas ligando estes centros.
Ocorreram no Brasil dois fatos relevantes que marcaram a história da colônia: a Proclamação da Independência e a Proclamação da República. Enquanto a Europa, representada principalmente pela Inglaterra, avançava no processo de industrialização, o Brasil continuava amarrado administrativamente à metrópole, que solidificava a política agrária nas monoculturas, destacadamente da cana-de-açúcar, do fumo, do algodão e do café, que passaria a representar a maior fonte de riqueza do país. A falta de carvão e o desinteresse pela siderurgia mantiveram o Brasil em estado essencialmente agrário, o que trouxe grandes danos ambientais, dificultando a emancipação econômica, equivalente à política de Portugal. “O Brasil de 1822 era um país desaparelhado para assumir a direção de seus próprios destinos [...]. Somente em 1889 surge a República brasileira, quando toda a América era uma demonstração patente naquela época histórica para seu advento” (BESOUCHET, 1940, p. 16, 19).
Com o advento da República, a larga expansão da produção de matérias-primas e gêneros alimentares tropicais voltados à exportação, e o progresso material assinalam as últimas décadas do Império. A abolição da escravidão favorece o desenvolvimento do trabalho livre e a afluência de grandes contingentes de imigrantes europeus. De acordo com Prado Júnior (1945), os enormes volumes da produção agrícola serão beneficiados pelo progresso da técnica moderna, da eletricidade, dos transportes ferroviários e marítimos, imprescindíveis para as transações comerciais e para o surgimento e a consolidação de núcleos de ocupação que se servem da mão de obra imigrante para a construção das cidades.
No plano econômico, a ânsia de enriquecimento material leva os interesses privados a se constituírem em um dos principais eixos das atividades políticas. As finanças internacionais
interferem efetivamente na vida nacional, em particular na lavoura cafeeira, da borracha, do mate e do fumo, de forma constante e crescente. Em contrapartida a esta expansão,
[...] a produção para consumo interno torna-se insuficiente e ocasionam elevados níveis de importações, o que eleva a dívida externa brasileira de pouco menos de 30 milhões de libras em 1889 para quase 90 milhões em 1910, e em 1930 alcançará a cifra de mais de 250 milhões (PRADO JÚNIOR, 1945, p. 211).
Graças às inversões em atividades privadas, as finanças externas retornam ao equilíbrio, que se refletirá na alta do câmbio externo. Nessa fase também serão registrados graves embates entre os trabalhadores livres e os grandes proprietários rurais, envolvendo considerável parte dos imigrantes italianos.
São vários os fatores que atuam nesta fase que nos ocupa, no sentido de desintegrar o sistema econômico brasileiro fundado na grande propriedade agrária e voltado para a produção exclusiva de alguns gêneros exportáveis de grande expressão comercial nos mercados mundiais. É, pois, sob a ação de fatores contraditórios que evoluirá nossa economia: por um lado assistiremos ao desenvolvimento daquele sistema, que atinge então um máximo de expressão com o largo incremento, sem paralelo no passado, de umas poucas atividades de grande vulto econômico, com exclusão de tudo mais. Mas doutro, veremos resultar daquele mesmo desenvolvimento os germes que contribuirão no sentido de comprometer a princípio, e afinal destruir [...] a estrutura econômica tradicional do país (PRADO JÚNIOR, 1945, p. 216- 217).
Aliada a esses fatos históricos – Proclamação da Independência e a Proclamação da República –, que transformam o panorama político, econômico e cultural nacionais alteram também os cenários no âmbito dos estados e das cidades. Mudanças nos planos político e econômico têm rebatimento na paisagem de Minas Gerais, na medida em que a política das monoculturas necessita fazendas de grandes dimensões territoriais em substituição a biodiversidade do sítio natural pela monotonia de uma espécie vegetal.
Posteriormente se observam transformações ainda mais relevantes na paisagem mineira devidas ao descobrimento e à exploração de jazidas de ouro e outros minerais, que implicam construção de núcleos urbanos e estradas de ligação entre estes. Atividades econômicas são geradoras de novas paisagens, que continuam se transformando e propiciam o surgimento de políticas que orientem a utilização do solo.