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2. KİMLİK, İDEOLOJİ, MODERN DEVLET VE KOLEKTİF HAFIZA

2.3. Ulus Devlet ve Kolektif Hafıza

Belo Horizonte destaca-se por ter recebido planejamento e organização do espaço a partir de um conhecimento técnico. Ainda que restem dúvidas sobre a correspondência de seu traçado e o assentamento existente, observam-se algumas semelhanças entre o arruamento do Curral del Rei e o traçado da Zona Urbana de Belo Horizonte.

A fim de que se entendesse melhor o surgimento do arraial, comparou-se a convergência das três estradas que deram origem a ele e os caminhos da Estrada Real. Esses caminhos sugeriram que as ruas do Curral del Rei teriam surgido de uma necessidade de comercializar e abastecer os núcleos de mineração, a partir de acessos dos principais centros econômicos e políticos das Minas Gerais no final do século XIX – Ouro Preto (capital do Estado), Sabarabuçu, Nova Lima (antiga Congonhas de Sabará), Diamantina e outros centros urbanos existentes à época – Salvador (primeira capital do país), Rio de Janeiro (capital do

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PLANTA comparativa entre os traçados do extinto Arraial de Belo Horizonte, anteriormente chamado Curral d’El Rei e da nova capital no espaço ocupado pelo Arraial. [Belo Horizonte], 1945. (Mapa planimétrico. Escala 1: 10000).

Brasil) e São Paulo, às regiões portuárias – Parati, Santos, Rio de Janeiro, São Paulo, e as cidades do interior desses estados. A necessidade de explorar as riquezas econômicas do interior do território e de comercializá-las propiciou novas descobertas e ocupações e apontou para o surgimento de rotas de ligação entre esses núcleos de ocupação e os centros existentes, cuja importância econômica e comercial, política e de localização estratégica para a segurança nacional exigiam expansão em direção ao interior, ora penetrando as serras, ora embrenhando pelo sertão. Na confluência das trilhas abertas para escoamento dos produtos agrícolas, transporte do gado e abastecimento dos assentamentos para atividades mineradoras surgiu o arraial do Curral del Rei. Conforme atesta Vasconcellos (1958),

As povoações de Minas são muito mais fruto das estradas ou caminhos que ligavam as minerações que propriamente destas. Suas ruas são sempre antigas estradas. Por isso mesmo foram, a princípio, chamadas de rua da Praça, da Matriz, da Câmara, etc. Não porque nelas se localizassem estas edificações, mas porque a elas conduziam. Por isso mesmo ainda hoje os habitantes da zona rural tratam a cidade como “a rua”, no singular, como uma reminiscência do trecho único da estrada, onde se construíam estabelecimentos comerciais. “Vou à rua fazer compras”, dizem. E, realmente, à rua quase só vão com essa finalidade. A cidade é o entreposto, o local de suprimento e das trocas comerciais. É ainda por isso que, ao contrário das povoações litorâneas, onde as igrejas colocam-se no interior das quadras, tangenciando os logradouros públicos, em Minas os templos são erguidos no centro de largos, circundados por praças ou ruas e independentes das quadras urbanas deles vizinhas. Em muitos casos inserem-se em terrenos definidos por bifurcação de estradas ou em outeiros a cavaleiro delas (VASCONCELLOS, 1958, p. 5).

Observa-se, na planta comparada entre os traçados do arraial do Curral del Rei e a Zona Urbana da Nova Capital – Belo Horizonte (FIG. 19), que o núcleo existente anteriormente (entroncamento de três estradas) estava numa cota mais baixa que o local onde a Praça da Liberdade foi projetada. O deslocamento do núcleo de ocupação para local mais alto, o Alto da Boa Vista, ajudava a minimizar os impactos das inundações, devido à sua proximidade com o Ribeirão dos Arrudas.

Essa figura é o produto da superposição de dois documentos cartográficos: a Planta cadastral de Belo Horizonte, antigo arraial do Curral del Rei e a planta da nova capital no espaço abrangido por aquele arraial. A análise desse documento mostra a localização do arraial no conjunto da nova cidade. De acordo com a Fundação João Pinheiro (1997, p. 35), pode-se supor que este constitua

[...] um dos exemplares elaborados na Inspetora Técnica da Prefeitura nos primeiros anos da década de 1940, enquanto a planta do Arraial seria embasada na planta produzida pela Comissão Construtora em 1894. Trata-se

de um manuscrito aquarelado, desenhado a nankim sobre tecido, confeccionado na escala 1:4000, presumivelmente a pedido de Abílio Barreto, quando diretor do MHAB, ainda na década de 1940. Encontra-se sob a guarda daquela instituição e representa um dos poucos documentos cartográficos existentes sobre o Arraial.

FIGURA 19: Planta cadastral do antigo arraial do Curral del Rei comparada com a planta da nova capital, no espaço abrangido por aquele arraial.

Fonte: Fundação João Pinheiro (1997, p. 22)

O traçado da Avenida Brasil no plano da nova capital é paralelo à Rua de Sabará, do Curral del Rei, porém em uma cota mais elevada. Paralela à Avenida Brasil está a Avenida da Mantiqueira, que estaria próxima ao leito do Ribeirão Arrudas, caso este não tivesse sido desviado para a margem norte do Parque Municipal, que, inclusive, foi projetado ali por ser uma região amplamente irrigada, banhada pelo Ribeirão Acaba Mundo, parte do Ribeirão Arrudas e seus afluentes. A Rua de Traz e a Rua de Fora coincidem com a Avenida Brasil. A Avenida Afonso Pena, da Avenida Brasil até a Praça Rio Branco, é paralela à Rua Marechal

Deodoro, estrada ao norte do Largo da Matriz, que se manteve no plano de Aarão Reis como a quadra da Igreja da Boa Viagem. O trecho da Avenida Afonso Pena, entre a Avenida Brasil e a Avenida Getúlio Vargas, é paralelo à Rua Congonhas, que à época era o caminho para Ouro Preto. O caminho que vinha do sul e a Rua do Capão, prosseguimento deste em direção ao Largo da Matriz, deram lugar à Rua Alagoas. As antigas Rua de Santana e Rua da Boa Vista convergiam em um largo que deu origem à Avenida João Pinheiro, antiga Avenida da Liberdade, na planta da cidade de Minas de 1895. A Rua do Rozário, acesso da Rua Marechal Deodoro ao Largo do Rozário, era paralela a duas quadras da Rua Timbiras. A Rua do Sapê, paralela à Avenida Bias Fortes, e a Rua do Commércio, paralela à Rua Espírito Santo, convergiam no Largo do Aqueduto, coincidente com trecho da Avenida Álvares Cabral entre as ruas Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Observa-se que as edificações foram destruídas, mas houve uma preocupação em se estabelecer uma relação entre o traçado das três estradas, cujo uso já estava consolidado, e as principais avenidas e vias de acesso na planta da Nova Capital.