UYGULAMA Y NET M
2.1. Projelendirme Gerekçeleri
Todo trabalho de análise implica um esforço de desconstrução e reconstrução dos dados até que algum caminho comece a ganhar sentido. Neste estudo foram múltiplas as tentativas até que se conseguisse chegar a esse momento. Uma primeira tentativa foi a de agrupar os jovens fundamentalmente em torno de sua situação de trabalho no momento em que foram entrevistados, pois ela poderia configurar diferentes sentidos dados ao trabalho e à sua falta. À época da primeira entrevista foram encontrados jovens que haviam iniciado seu próprio negócio, que estavam inseridos no mercado de trabalho formal, outros que estavam no informal; desempregados em busca de trabalho, realizando trabalho precário ou tendo desistidode procurar; jovens no trabalho doméstico e inseridos em um projeto de cooperativa. Em parte, esses lugares pareciam ter alguma influência nos olhares para o trabalho e sua ausência, mas isso não parecia suficiente.
A fragilidade desse caminho foi sendo revelada pela própria literatura e pelos dados empíricos deste estudo. O lugar do trabalho na vida dos indivíduos não se vincula somente ao lugar ocupado nos espaços de trabalho (Dubar, 1997), podendo relacionar-se a outras esferas da vida: escolar, familiar, religiosa, dentre outras. Somam-se a isso as análises que têm evidenciado as intensas transições ocupacionais no mercado de trabalho brasileiro, que atingem os mais jovens de maneira aguda (Guimarães, 2006b). Assim, um ano depois, quando alguns dos jovens foram reencontrados, ficaram evidentes não apenas as abruptas transições que marcam nosso mercado de trabalho, como também as reversibilidades da própria condição juvenil na contemporaneidade. Boa parte deles já não estava na mesma situação de vida e de trabalho: alguns conseguiram emprego, outros perderam; negócios montados foram fechados, quem havia desistido de procurar trabalho estava novamente em sua busca – apenas para citar algumas das mudanças. E boa parte delas impactou e também foi impactada por alterações em outras esferas da vida. Desse modo, por razões de ordem teórica e também empírica, parecia difícil estruturar a análise em torno das situações de trabalho.
Uma segunda tentativa foi a de organizar os percursos juvenis segundo o sexo, pois no olhar para as dimensões do emprego e do desemprego a divisão sexual do trabalho permanece muito relevante nas sociedades salariais (Maruani e Hirata, 2003). De fato, essa divisão indicava diferenças significativas, mas ainda assim continuavam a emergir falas sobre trabalho e não-trabalho que aproximavam os depoentes, homens ou mulheres. Para além da divisão dos percursos femininos e masculinos174, parecia haver algo mais.
Outra possibilidade cogitada foi a organização dos jovens estudados segundo seus distritos de moradia, tendo em vista que a pesquisa empírica concentrou-se em duas regiões distintas de São Paulo, a Zona Leste e a Zona Sul. No entanto, um agrupamento pautado por esses dados não se mostrou pertinente, uma vez que não foram observadas diferenças significativas quando comparados os jovens das duas regiões.
Nessas idas e vindas com os dados, a aproximação da perspectiva de Demaziére e Dubar (1997), Demaziére, Guimarães e Sugita (2006) e Guimarães (2006a) foi fundamental. Esses autores deixavam entrever a importância de considerar as próprias palavras e os modos de falar dos indivíduos. Ou seja, um trabalho analítico nem implicava a simples reprodução dos depoimentos como se fosse a análise propriamente dita, nem apenas a retirada de trechos de entrevistas que fossem considerados ilustrativos para uma argumentação já fechada. Porém, não se trata aqui de perseguir os caminhos de uma análise discursiva, tal como fizeram os autores, mas sim de atentar para os conteúdos, as maneiras de falar e o contexto da enunciação – para quem se fala e em que situação se fala –, o que está aqui se chamando de narrativas. Trata-se da utilização das narrativas como um instrumento analítico que permitiu organizar os jovens entrevistados em diferentes grupos, a partir de falas comuns sobre o trabalho ou a ausência de trabalho, e não de um estudo em torno do conceito de narrativas e do debate teórico sobre seus usos175. Assim, buscou-se mergulhar em cada entrevista e nela
174 Vale ressaltar, no entanto, que no interior de cada grupo as diferenças entre os percursos femininos e
masculinos foram consideradas.
175 Sobre o conceito de narrativa, vide Bakhtin (2004) e Bruner (1990). Segundo Bakhtin, “o ato de fala, ou mais
exatamente, seu produto, a enunciação, não pode de forma alguma ser considerado como individual no sentido estrito do termo; não pode ser explicado por condições psicofisiológicas do sujeito falante. A enunciação é de natureza social”. (2004, p. 109). Em seu livro Marxismo e filosofia da linguagem, Bakhtin aborda as relações entre linguagem e sociedade, defendendo a natureza social e não individual das construções estilísticas. Para isso, revela a importância dos problemas da filosofia da linguagem para o marxismo, recuperando e fazendo a crítica das principais questões do pensamento filosófico e lingüístico. Uma de suas críticas mais contundentes dirige-se à lingüística estruturalista de Saussure, que abstrai o contexto social para uma análise da linguagem como sistema abstrato. Diversamente, para Bakhtin, o sujeito da fala é essencial e a atribuição de significados ocorre sempre em processo. Inspirando-se em Bakhtin (2004) e em Geertz (1989), Bruner (1990) também é um autor importante para a introdução do conceito de narrativa, de sua caracterização e das questões em torno de seus usos.
perceber não apenas “o que”, mas “como” se falava das experiências de trabalho e de falta de trabalho ou de desemprego e, secundariamente, do próprio Programa Bolsa Trabalho.
Em primeiro lugar, cada uma das falas foi analisada separadamente para depois se observarem as recorrências (ou não) entre elas, o que usualmente é designado como análise vertical e horizontal das entrevistas. A questão primeira para essa busca foi o modo como se falava da situação atual de trabalho. Nesse momento já foram notadas algumas recorrências: para alguns, nunca trabalhei176 ou sempre trabalhei, trabalho ou faço bicos, ganho um salário ou só um dinheirinho; posteriormente, em torno do desemprego: estou desempregado ou estou parado, não estou desempregado, estou correndo atrás, estou na procura; e, finalmente, os modos de falar do Programa Bolsa Trabalho: ótimo, maravilhoso, para alguns; e enganação, para outros. Essas recorrências foram evidenciando a importância de observar e perseguir os modos de dizer. A partir dessas narrativas foi possível ir ao encontro das situações reveladoras de alguns elementos comuns177: para além do trabalho, a situação e a relação dos indivíduos com a família e com a escola, ou com a perspectiva ou não de continuidade da formação.
Quando considerado o processo de socialização dos indivíduos, a família e a escola são instâncias privilegiadas nos estudos mais clássicos (Setton, 2002). As recentes transformações no mundo contemporâneo, no entanto, abriram espaço para olhares em direção a outras instâncias, tais como a mídia (Setton, 2002) e os estilos juvenis organizados em torno da música, como o rap e o funk, por exemplo (Dayrell, 2005). Já no campo do trabalho juvenil, muitas pesquisas privilegiam especialmente ora a relação do trabalho com a educação, ora com a família, mas os relatos aqui presentes deixavam entrever a necessidade de considerar as três instâncias socializadoras – trabalho, família e escola – e suas inter- relações, tal como já sinalizado por Gomes (1996). Além disso, o fato de esses jovens terem participado de uma experiência de política pública também permitiu vir à cena, entre alguns deles, uma outra instância: a experiência em um projeto social de mais longa duração.
176 Para dar ênfase aos modos de falar dos entrevistados, todos os termos por eles usados, bem como as citações
de suas falas, aparecerão em itálico.
177 Cabe registrar que nem todos os 38 jovens entrevistados foram organizados em grupos a partir da análise de
suas narrativas. Quatro deles – Ângela, Rafael, Rosana e Sidnei – não foram incorporados porque seus modos de falar sobre o trabalho e a falta de trabalho não possibilitaram sua inclusão em algum grupo, o que muitas vezes derivava dos problemas no momento da entrevista, tais como um grande número de interrupções ou a excessiva participação de outros parentes, dificultando posteriormente a análise. Evidente que questões como essas também apareceram em algumas outras entrevistas, mas no caso destes jovens foram muito mais intensas. De todo modo, quando pertinente, algumas de suas falas poderão ser incluídas na análise.
A perspectiva de considerar a inter-relação entre essas agências socializadoras foi inspirada no conceito de configuração de Norbert Elias (1980). Como já indicava Setton, ao também se utilizar desse conceito para análise das inter-relações entre família, escola e mídia: O conceito de configuração aqui utilizado serve como instrumento conceptual e didático que tem como intenção romper com a idéia de que as instituições socializadoras e seus agentes sejam antagônicos. Salientar a relação de interdependência das instâncias/agências de socialização, condição para coexistirem enquanto configuração, é uma forma de afirmar que a relação estabelecida entre eles pode ser de aliados ou de adversários. Podem ser relações de continuidade ou de ruptura. Podem então determinar uma gama variada de experiências de socialização. (Setton, 2002, p. 110). Cabe, no entanto, aprofundar um pouco mais o olhar para esse conceito e também para seus limites e ambivalências (Déchaux, 1995; Martuccelli, 1999). O conceito de configuração de Elias (1980) está diretamente relacionado à maneira como este autor compreende a sociedade178: indivíduo e sociedade não são dois objetos que existem independentemente; na verdade, referem-se a dois níveis diferentes, mas inseparáveis do mundo humano. Elias defende a idéia de um indivíduo concebido como alguém com um autocontrole que não supõe nem autonomia, nem independência. Contrariamente, o autocontrole exige o conformismo face às regras de um determinado grupo, de modo que, para o autor, as perspectivas clássicas estariam equivocadas ao estabelecerem uma anterioridade ou exterioridade do indivíduo em relação à sociedade ou uma sociedade como independente do indivíduo (Martuccelli, 2002)179. Trata-se, assim, de pensar o mundo social como uma configuração: “Por meio dessa noção, a sociedade é concebida como um equilíbrio de tensões, onde cada ação social depende da ação efetuada por um outro ator, um e outro colocados em um sistema de interdependências recíprocas” (Martuccelli, 2002, p. 251). Na perspectiva de Elias, o conceito de configuração “torna-se um simples instrumento conceitual que tem em vista afrouxar o constrangimento social de se falar e pensar como se o indivíduo e a sociedade fossem antagônicos e diferentes” (Elias, 1980, p.141). E é pelo conceito de configuração que o autor chama atenção para a relação de interdependência das pessoas em sociedade.
O que é que na realidade une as pessoas em configurações? Perguntas desse tipo não podem ser respondidas se começamos por considerar todas as pessoas individuais em si mesmas, como se cada uma fosse um homo
clausus [...]. (Elias, 1980, p. 144).
178 Não se trata aqui de debater a relação indivíduo e sociedade, um dos problemas clássicos da sociologia, mas
apenas de apontar alguns aspectos dessa relação que contribuem para iluminar o conceitode configuração de Elias e seus limites.
179 Ou como afirma Déchaux (1995), ao longo de toda a sua obra Elias se debruça de maneira quase “obsessiva”
sobre esta idéia da sociedade como um tecido de relações, uma rede de interdependências. Nem a sociedade, nem os indivíduos, mas a “sociedade dos indivíduos”.
(...) As sociedades são configurações formadas por pessoas interdependentes: as estruturas, sejam elas casamentos ou parlamentos, crises econômicas ou guerras, não podem ser compreendidas nem explicadas por sua redução ao comportamento de seus participantes tomados isoladamente (...) Como já demonstramos algures mais detalhadamente, quanto mais intimamente integrados forem os componentes de uma unidade compósita ou, por outras palavras, quanto mais alto for o grau da sua interdependência funcional, menos possível será explicar as propriedades dos últimos apenas em função das propriedades da primeira. Torna-se necessário não só explorar uma unidade compósita em termos das suas partes componentes, como também o modo como esses componentes individuais se ligam uns aos outros de modo a formarem uma unidade. O estudo da configuração das partes unitárias ou, por outras palavras, a estrutura da unidade compósita, torna-se um estudo de direito próprio. Esta é a razão pela qual a sociologia não se pode reduzir à psicologia, biologia, física; o seu campo de estudo – as configurações de seres humanos interdependentes – não se pode explicar se estudarmos os seres humanos isoladamente. Em muitos casos é aconselhável um procedimento contrário – só podemos compreender muitos aspectos do comportamento ou das ações individuais se começarmos pelo estudo do tipo de sua interdependência, da estrutura de suas sociedades, em resumo, das configurações que formam uns com os outros. (Elias, 1980, p. 78-79).
Na medida em que chama atenção para a interdependência entre os indivíduos e também entre as diferentes instâncias de socialização, sem considerar uma ou outra como dominante sobre as demais, é que o conceito de configuração de Elias contribui para este estudo. Seguindo a perspectiva de Martuccelli (1999), mais do que um instrumento conceitual, a noção de configuração terá aqui um valor heurístico que o próprio Elias não lhe atribuiu com tanta força. Em cada uma das narrativas apresentadas observam-se diferentes arranjos e interdependências entre as instâncias de socialização investigadas – trabalho, escola e família. As experiências e os sentidos atribuídos ao trabalho e à falta de trabalho, ou ao desemprego, estão intrinsecamente associados à esfera familiar e à relação com a própria escola. A cada narrativa tornam-se evidentes modos diversos de arranjos entre as instituições família, escola e trabalho, e esses arranjos também se modificam no tempo da juventude. A imagem de um caleidoscópio onde a cada movimento formam-se novas e diferentes figuras parece ser a que mais se aproxima dos movimentos observados em cada uma das narrativas apresentadas.
A importância que o conceito de configuração tem aqui não pode levar, entretanto, a um obscurecimento de seus limites. Primeiramente, na perspectiva de Dubet (2005), muito embora Elias explicite seu desejo de se afastar de perspectivas mais clássicas da teoria sociológica, ele ainda está fortemente atrelado a elas. Ao também problematizar a clássica oposição entre indivíduo e sociedade, Dubet resgata alguns estudos da sociologia, buscando organizá-los de acordo com a solução proposta para aquilo que ele compreende como um
falso problema: a oposição entre indivíduo e sociedade, na medida em que, para este autor, não há escolha entre indivíduo e sociedade, os dois objetos nos foram dados juntamente com o paradoxo que lhes é associado.
Um primeiro conjunto mais clássico de soluções propostas para esse dilema é do “modelo do enquadramento”180 do individuo na sociedade, cujo autor mais emblemático é Durkheim (Dubet, 2005). Resumidamente, não se trata de uma simples submissão do indivíduo à sociedade: o próprio indivíduo, por meio do processo de socialização, incorpora as regras do social, as internaliza e passa assim a desejá-las. Tão forte é esse processo na modernidade que o indivíduo passa a se perceber como autônomo em relação à sociedade. Ainda que possa diferenciar-se de autores como Durkheim, é dessa família de soluções que também participaria Elias, na visão de Dubet:
Nas sociedades modernas, o indivíduo é definido pela interiorização dos valores, das normas e dos papéis [...] Parece que a teoria de Elias participa da mesma família de soluções. O indivíduo moderno não emerge contra o sistema, mas, ao contrário, ele resulta de transformações do controle social que se individualiza e se subjetiviza progressivamente através da disseminação dos costumes da corte (Elias, 1991). É na medida em que cada um percebe as obrigações e os códigos sociais como coações íntimas, pessoais e livremente aceitas, que o ator social se vê como indivíduo, como autor de sua própria ação e que, paralelamente, ele é levado a perceber o mundo social como uma paisagem exterior a ele mesmo e sobre o qual ele projeta seus próprios sentimentos. A pressão/coação social se torna um
habitus subjetivo. Mas, no fundo, é porque o enquadramento do ator no
sistema se acentua que emerge o indivíduo [...] Este modelo está no coração da teoria sociológica clássica que faz da socialização uma interiorização do social e que coloca o indivíduo como articulação do ator e do sistema, da subjetividade e da objetividade, quando a sociedade moderna é cada vez mais móvel, complexa e racional. (Dubet, 2005, p. 3).
Já para Déchaux, o próprio conceito de configuração oscila fortemente entre uma visão estrutural e uma visão interacionista da sociedade: “A configuração é colocada ora como estrutura da luta entre grupos e indivíduos situados hierarquicamente, ora como um jogo cujos efeitos escapam ao cálculo dos atores” (Déchaux, 1995, p. 312). O autor aponta ser
180 Este texto limita-se a apresentar esse modelo na medida em que aí se encontra a referência mais forte a Elias.
Em seu texto, Dubet (2005) analisa perspectivas clássicas e contemporâneas que procuram escapar ou responder de maneira diversa a essa perspectiva do enquadramento, tais como as concepções oriundas do interacionismo simbólico e das teorias de escolha racional. Mais adiante também será apresentada a concepção de indivíduo formulada pelo próprio Dubet e que também será importante na análise aqui desenvolvida.
possível encontrar o social entre essas duas perspectivas, mas, segundo seu ponto de vista181, a obra de Elias não aprofunda suficientemente a questão182.
Por fim, na crítica de Martuccelli, apesar de Elias atribuir um grande peso à interdependência, ele ainda permanece ligado a uma visão de indivíduo “suscetível de ser, em função da gestão ou pela gestão de seus impulsos, mestre de si próprio. O núcleo duro da representação que ele faz do indivíduo é de um indivíduo se construindo a partir de si mesmo” (2002, p.62), processo no qual acaba por ignorar os suportes que lhes são necessários para essa construção. Nesse sentido, complementando o conceito de configuração de Elias, este estudo também irá considerar o conceito de suporte183 de Martuccelli (2002, 2004). Recorrer a
181 O autor ainda aponta dois outros limites que a análise do conceito de configuração acabou por lhe revelar: o
não reconhecimento pelo autor de suas heranças e filiações à tradição sociológica alemã e a dificuldade de Elias em abstrair o conceito de configuração do modelo de civilização dos costumes, o que inclusive levaria a questionar se este poderia mesmo ser considerado um conceito (Déchaux, 1995).
182 Déchaux (Op. cit.) evidencia os limites do conceito de configuração de Elias a partir de uma comparação com
os conceitos de “campo” e “habitus”, de Pierre Bourdieu, e de “efeito emergente”, de Raymond Boudon. Em relação ao conceito de campo, o primeiro ponto para Déchaux é que enquanto para Bourdieu a dominação está no princípio deste conceito – visto que este diz respeito a um sistema de posições constituído por relações entre dominantes-dominados que estão em concorrência para obtenção de capital econômico, cultural e social –, de modo que a interdependência é apenas um corolário, significando que a dominação não anula a dependência; para Elias, o princípio não é o da dominação, mas da concorrência, da rivalidade, do jogo. Nesse sentido, no conceito de configuração deste autor, a interdependência é também associada à dominação, mas ele inverte a relação lógica: “Ela [a configuração] traduz antes de tudo relações de interdependência que, pontualmente, se interpretam como relações de dominação [...]. Elias não defende somente que o monarca absoluto que foi Luís XIV era dependente da corte que o dominava; ele acrescenta que esta dependência era condição de sua dominação. É provocando o equilíbrio de tensões entre grupos rivais que o rei adquire um poder absoluto. Sua força e sua submissão às pressões do sistema de dominação são os dois aspectos do mesmo fenômeno: a interdependência. É ela que vem primeiro logicamente [...] É suficiente que o equilíbrio de forças se torne mais instável, que um jogador perca o controle, para que a configuração se transforme, e com ela, as relações de dependência recíproca” (Ibidem, p. 302). A dominação seria resultado do jogo estabelecido entre os atores ou diferentes instâncias de socialização, de modo que o recurso da concorrência ou do jogo não se associaria claramente nem à obtenção de riquezas, nem à dominação simbólica, mas a um desejo de poder percebido quase