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Marx (1972) define a essência humana como a busca por tornar-se cada vez mais produtivo, social, consciente e livre. Tornar-se mais produtivo é um valor cuja crítica ele não se absteve de fazer. Suas análises sociológicas dos sistemas de produção não foram avaras em alertar acerca da crescente intensidade com que essa práticas conduziam a humanidade para a alienação e o estranhamento das capacidades humanas e da realidade. Simultaneamente, Marx (2010) apontou o trabalho como um grande recuso à disposição do homem para a ampliação da sua consciência. Tornar-se mais social é um valor que a evolução da sociologia, como campo científico, ajudou a esclarecer. Com Durkheim (2010), aprendeu-se que o homem aprimora sua consciência em sociedade e, com Simmel (1983), que a sociedade tem forma e conteúdo. A alienação que Marx compreendia como conseqüência possível dos sistemas de produção foi demonstrada por Simmel como presente também no âmbito social. Quando instalada nas relações humanas, a alienação as torna estranhas ao que têm de humano. Afetadas pela alienação, as sociações (forma e conteúdo) reduzem-se a meras formas; as sociabilizações. Sem o conteúdo das interações, as sociedades não criam demandas coletivas que as singularizam e fortalecem. Acima do domínio público que podem criar surge o domínio social, que passa a se ocupar da definição de necessidades privadas. Priorizadas como necessidades sociais - comuns a todos - a pluralidade se enfraquece. Sem o espaço da pluralidade, oblitera-se a singularidade humana. A essa altura, como tornar-se consciente diante da ameaça da alienação, da desagregação das relações, do estranhamento de si, do outro, das atividades? Quanto à liberdade, cabe refletir sobre a afirmação de Hannah Arendt (2010, p.147): "É muito difícil entender que existe uma esfera em que podemos ser verdadeiramente livres, isto é, nem movidos por nós mesmos nem dependentes dos dados da existência material."

Marx era apenas um ano mais velho que Ruskin. Na mesma década em que o primeiro escrevia "O Capital", Ruskin publicou uma de suas obras mais conhecidas: "As sete lâmpadas da arquitetura." Eram elas: Sacrifício, Verdade, Poder, Beleza, Vida, Memória e Obediência. Antes de discorrer sobre a última, Ruskin deixa clara sua opinião sobre a liberdade; que compreende como impossível, inalcançável porque inexistente. Segundo ele, se há um princípio que substitua a liberdade, ele entende que seja o direito. Procurando evitar que essa idéia caísse na dialética que restitui à liberdade o direito de reemergir como direito de

liberdade, Ruskin propõe que seu substituto seja a obediência. Mas o século XX ofereceu exemplos do quanto a obediência pode ser indesejável como conceito puro. O princípio que ainda se conecta ao direito, e ao qual a história ainda não dispõe de argumentos suficientes para combater é a disciplina (CAYE, 2008). Fundada sobre a liberdade, a disciplina não compactua com um mero subjugar-se. Sua configuração aproxima-se de uma regulação enriquecida pela apreciação crítica. A disciplina crítica também obedece, mas apenas quando concorda com a razão e o sentido do que se dá a praticar. Quando Alberti (2004, p.48), afirma que "a mão do artesão é instrumento do arquiteto", não quer dizer que o primeiro obedece o segundo, mas que entre eles existe uma razão comum que, construída sobre as bases do diálogo e do compartilhamento de abordagens, povoa de disciplina crítica o agir de ambos. O artesão sabe como fazer e o arquiteto sabe a significação do que precisa ser feito. "Enquanto uma medida de permissão é necessária para exibir as energias individuais, a retidão, satisfação e perfeição consistem na sua medida de restrição." (RUSKIN, 1889, p.200). As palavras de Ruskin dialogam com as de Alberti, principalmente quando apresentam a beleza como função do equilíbrio, da harmonia; e a importância do estabelecimento e domínio de regras análogas às gramaticais para se alcançar a excelência de "todo propósito prático na vida". (RUSKIN, 1889, p.207). Tanto para Alberti quanto para Ruskin o homem é dotado tanto do poder de obter quanto do dever de desejar, pois seu pensamento não se volta às exigências humanas de manutenção da vida - o labor - mas aos benefícios que o trabalho consciente no mundo concreto podem trazer para a ampliação das capacidades humanas. Nesse ponto Alberti, Marx e Ruskin expressam-se em uníssono.

A disciplina é um princípio relevante na contemporaneidade porque carrega consigo um dispositivo crítico a ser aplicado às próprias capacidades humanas. Antes da modernidade, quando o desejável era impossível, era entregue a Deus (ou aos deuses). O aprimoramento da técnica pela ciência - processo que não permite ignorar a importância do levantamento de questões - vem tornando o desejável cada vez mais possível, mas também, possível o indesejável. Essa situação faz com que o impossível torne-se desejável, indispensável e até urgente. É então que o humano conclui que terá que encontrar entre seus próprios inventos o que o ajudará a desenrolar-se e a que ele já não dava tanta importância: a linguagem, o poder do conhecimento e da argumentação, a comunicação promotora de efetivas interações. Não sem surpresa, ele constata que precisará de disciplina para recuperar e criar novas habilidades no uso dessas ferramentas. A disciplina o ajudará a conscientizar-se do excesso e manter-se vigilante contra a tentação de desejar tudo simplesmente porque suas capacidades técnicas lhe

permitem alcançá-lo. A ajuda proveniente da disciplina terá ainda outra finalidade: ajudá-lo a conscientizar-se de uma realidade que lhe demanda aprender a desejar e alcançar também o impossível. A disciplina de haver-se tanto com o excesso quanto com a falta permite ao humano formular demandas específicas que emergem da imaginação e da apreciação estética oriundas das práticas cotidianas (SANTOS, 2010).

Eu gostaria de acompanhar alguns dos procedimentos - multiformes, resistentes, astuciosos e teimosos - que escapam à disciplina sem ficarem mesmo assim fora do campo onde se exerce, e que deveriam levar a uma teoria das práticas cotidianas, do espaço vivido e de uma inquietante familiaridade com a cidade." (CERTEAU,

4.3 CIBERNÉTICA

A disciplina crítica é criativa, inventiva. Seu princípio, que consiste em mediar, moderar para melhor conservar (abstine ac sustine), não é estranha à estrutura humana, pois provém de um mecanismo que lhe é próprio. O princípio da retroalimentação (feedback) possibilita aos sistemas resignificarem suas ações por meio da interpretação e da avaliação de respostas dadas por procedimentos anteriores. Analisado precisamente em suas conexões com as características próprias ao humano, o processo incorpora o aproveitamento de quaisquer elementos naturais ou artificialmente criados que contribuam para a eficácia dos sistemas. Essa eficácia recebe a denominação de equilíbrio dinâmico ou "equilíbrio flutuante" (VON BERTALANFFY154 apud MITSCHERLICH, 1970). O sistema efetivamente observado pelo matemático americano Norbert Wiener155 foi a sociedade. À capacidade de se equilibrar dinamicamente, de se governar com a ajuda da retroalimentação criativa, Wiener deu o nome de cibernética.

Até recentemente, não havia palavra específica para designar este complexo de ideias, e, para abarcar todo o campo com um único termo, vi-me forçado a criar uma. Daí ´Cibernética´, que derivei da palavra grega "kubernetes", ou "piloto", a mesma palavra grega de que eventualmente derivamos nossa palavra "governador". Descobri casualmente, mais tarde, que a palavra já havia sido usada por Ampère156 com referência à ciência política [...] nos primórdios do século XIX. (WIENER,

1968, p.15).

Quando um sistema responde de forma inédita a um estímulo, pratica um conjunto complexo de princípios, que incluem: a capacidade de melhor equilibrar-se, a habilidade de criar novas interpretações para as mesmas questões, além de novas respostas. Responder questões não é mais que deslocá-las para um outro ponto onde serão novamente elaboradas pelo pensamento (CAYE, 2008). Essa resignificação que caracteriza o processo cibernético ocorre precisamente no espaço entre a pergunta e a resposta, a entrada e a saída; no espaço delineado pelo deslocamento: o espaço-entre. Sua dinâmica alude a um espelho que ao invés de refletir os gestos de alguém, reflete os efeitos que esses gestos provocam na alteridade. O que se vê são os efeitos da ação que, por sua vez, resignificam e instigam novas ações.

154

Ludwig von Bertalanffy (1901 1972), biólogo austríaco, um dos fundadores da teoria geral dos sistemas.

155

A Norbert Wiener (1894 1964) é atribuída a invenção da cibernética enquanto ciência; uma formalização da noção de retroalimentação (feedback), com muitas implicações para a engenharia, controle de sistemas, ciência da computação, biologia, filosofia e a organização da sociedade.

156