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BÖLÜM 3. DÜNYA GENELİNDE UYGULANAN YEŞİL BİNA

4.4. Problemin Tanımı

O senso comum identifica a racionalidade à capacidade que o ser humano possui de adquirir conhecimento e de agir a partir dele, conectando, desse modo, conhecimento e razão, tanto em sua formulação, quanto no seu uso. Para Habermas, essa visão da racionalidade mostra-se limitada, uma vez que não concebe a racionalidade em sua amplitude necessária e nas suas múltiplas dimensões.

A racionalidade concebida a partir do ponto de vista comunicativo, na forma de expressões linguísticas ou atos de fala, através dos quais falantes e ouvintes estabelecem uma relação performativa com o intuito de se entenderem acerca de algo no mundo objetivo, subjetivo ou social, mostra-se mais abrangente e, consequentemente, mais adequada às necessidades critico-reconstrutivas. Habermas (2002d, p. 183) atribui um “papel chave à racionalidade processual contida nas práticas argumentativas”, porque ela tem sua justa medida nos procedimentos argumentativos dos vários sujeitos que buscam entendimento por meio da interação comunicativa. Com isso, a racionalidade tem a ver mais com a forma com que os sujeitos, capazes de discurso e de ação, utilizam um conhecimento do que com a posse desse mesmo conhecimento.

Sob a perspectiva da racionalidade comunicativa serão consideradas racionais as falas ou proposições que atendam aos requisitos da argumentação e da contra-argumentação, e que estejam orientadas ao entendimento mútuo entre os participantes do processo comunicativo85. A partir da racionalidade comunicativa, a epistemologia clássica perde seu caráter

83 De acordo com Mühl (2003, p. 169), “a pragmática representa uma ruptura radical com a concepção

tradicional de pensar o conhecimento e a linguagem. Essa ruptura se dá num duplo sentido: de um lado, supera a visão reducionista de linguagem como mera representação do pensamento ou de mero instrumento de comunicação do mesmo; de outro, rompe com a ideia da certeza ou da evidência pré-linguística do conhecimento e com o solipsismo metodológico inerente a essa concepção. A pragmática atribui um papel central ao processo intersubjetivo de constituição dos conhecimentos, concebendo que a linguagem não tem uma função designativa e transmissora do conhecimento, mas uma função constituidora do próprio saber”.

84 Segundo Marques (1993, p. 77), Habermas também realiza “uma segunda guinada, pragmática, considerando a

linguagem como forma de ação, não meramente como representação”.

85 Para Habermas (2002a, p. 437), “a razão comunicativa encontra seus critérios nos procedimentos

argumentativos de desempenho diretos ou indiretos das pretensões de verdade proposicional, justeza normativa, veracidade subjetiva e adequação estética”.

transcendental de medida para o conhecimento válido. A lógica dedutiva, a representação enquanto adequação da coisa ao intelecto e a primazia do sujeito sobre as coisas deixam de ser as referências de validade do conhecimento possível. Na racionalidade comunicativa, é a comunidade dos sujeitos capazes de fala e de ação que passam a ocupar o lugar central do processo do conhecimento, antes reservado ao sujeito solipsista da razão subjetiva.

Além do viés epistêmico e instrumental, a racionalidade comunicativa inclui também outros elementos, como o prático-moral, o emancipatório e o estético. Por isso, segundo Habermas (2003a, p. 33-34), também denominamos de racional aquele sujeito que “expressa verazmente um desejo, um sentimento, um estado de ânimo, que revela um segredo, que confessa um fato, etc., e que depois convence um crítico da autenticidade da vivência desta maneira revelada”, vivendo de forma consistente com o que foi expresso.

Habermas compreende a razão desde uma perspectiva multidimensional, reconhecendo três raízes legítimas da racionalidade: a epistemológica, a teleológica e a comunicativa. A racionalidade comunicativo-discursiva não se constitui num modo dominante da racionalidade, mas numa de suas três estruturas nucleares. A ela é atribuído o papel de integração dos demais modos, visto que esses tipos distintos se fundem no meio linguístico.

A estrutura do discurso estabelece uma inter-relação entre as estruturas entrelaçadas da racionalidade (as estruturas de conhecimento, ação e discurso) através de, num certo sentido, uma junção das raízes proposicional, teleológica e comunicativa. Segundo este modelo de estruturas nucleares interligadas, a racionalidade discursiva deve o seu lugar de destaque não ao seu papel fundador, mas sim ao seu papel integrativo (HABERMAS, 2002d, p. 185).

A racionalidade epistemológica correlaciona-se à estrutura proposicional do conhecimento, visto que todo conhecimento é de natureza linguística, pois pauta-se em proposições e em juízos acerca de fatos, de coisas ou de situações concretas. Para verificarmos se um juízo acerca de um fato é verdadeiro, devemos justificar discursivamente o porquê de o mesmo ser assim. É a possibilidade de uma justificação discursiva acerca das proposições que legitimam os juízos. Desse modo, tudo aquilo que sabemos é passível de crítica e de justificação, e assim o sendo, adquire contornos de falibilidade. Expresso de outro modo, todo o conhecimento é falível porque “a racionalidade de um juízo não implica a sua veracidade, mas apenas sua aceitabilidade justificada num dado contexto” (HABERMAS, 2002d, p. 189). A justificação do juízo refere-se, portanto, à explicitação do por que desse juízo em determinada circunstância e à sua aceitação pelos participantes da comunicação.

A racionalidade atinente ao conhecimento – a epistemológica – interliga-se ao universo do agir e do comunicar. Isso se evidencia quando Habermas afirma:

O caráter reflexivo dos juízos verdadeiros jamais seria possível se não pudéssemos

representar o nosso conhecimento, isto é, se não pudéssemos expressar em frases, e

se não o pudéssemos corrigir e expandir; o que significa: se não fôssemos também capazes de aprender com as nossas experiências práticas com uma realidade que nos resiste. A este nível, a racionalidade epistemológica surge interligada com a ação e a utilização da linguagem (2002d, p. 189).

Desse modo, podemos compreender que a estrutura epistemológica da racionalidade sustenta-se mediante a sua incorporação no discurso e na ação. Por isso, é a representação linguística daquilo que se conhece e o confronto do conhecimento com uma realidade que farão com que possamos lidar de forma racional com o conhecimento86.

A racionalidade teleológica correlaciona-se à ação intencional do sujeito, posto que todas as ações-intenções buscam alcançar uma meta preestabelecida. Uma ação será racional não pelo fato de o resultado ser correspondente às intenções pretendidas ou ao sucesso obtido. Será considerada racional na medida correspondente ao fato de o agente da ação ter obtido ou não o resultado com base em meios deliberadamente selecionados. Por isso, sob a ótica da racionalidade teleológica, um agente terá agido de modo racional se for capaz de explicar o sucesso de sua ação e se esse conhecimento o motivar a agir por razões que possam explicar o sucesso alcançado.

A racionalidade teleológica encontra-se interligada com as outras duas estruturas, a do conhecimento e a do discurso. Isso é possível porque, do mesmo modo que o conhecimento exige uma posse reflexiva de justificações, as ações propositadas racionais pressupõem, da mesma forma, uma posse reflexiva de possíveis justificações que fundamentam o cálculo de sucesso da ação. Além do mais, segundo Habermas (2002d, p. 192), assim “como o conhecimento proposicional depende da utilização de frases proposicionais, também a ação intencional depende essencialmente da utilização de frases intencionais”.

A racionalidade comunicativa consiste na racionalidade atinente à utilização comunicativa das expressões linguísticas, não sendo passível de redução à racionalidade epistemológica ou à racionalidade teleológica. Segundo Habermas (2002d, p. 192), ela

86 Embora não tenhamos como objeto de estudo a questão da verdade, vale salientar que, a partir de Verdade e

Justificação (cf. Habermas, 2004b), Habermas estabelece uma teoria da verdade a partir de dois níveis. Primeiro,

trata-se de uma teoria do consenso. Entretanto, não basta o consenso momentâneo dos que atendem ao discurso presente. É necessário, num segundo momento, recorrer a “um consenso geral dos racionais que, em caso extremo, inclui também a comunidade científica ilimitada no futuro” (REESE-SCHÄFER, 2008, p. 22). Trata-se, portanto, de uma indicação de verdade que transcende o atual estado do conhecimento, denotando abertura, falibilidade e possibilidade de revisões futuras tanto do conteúdo quanto do procedimento de justificação. A verdade consiste, então, numa “ideia reguladora, a saber, a ‘ultimate opinion’, nunca realmente existente, desta comunidade: a opinião derradeira, à qual ela chega a cada vez” (REESE-SCHÄFER, 2008, p. 23).

“expressa-se na força unificadora do discurso orientado para o entendimento, que assegura aos falantes participantes no ato de comunicação um mundo da vida intersubjetivamente partilhado”, o que garante um horizonte comum de entendimento e de ação.

As expressões linguísticas constituem o substrato a partir do qual é possível ao falante expressar suas intenções, representar estados de coisas e estabelecer relações interpessoais com outras pessoas. Nesse âmbito, podemos entrever a tripla relação estabelecida na linguagem: (a) um agente que se entende, (b) com alguém, (c) a respeito de algo. Por meio de um ato de fala, o falante tenta estabelecer uma comunicação com um ouvinte a respeito de algo. Ao propor um ato de fala a um ouvinte, o falante assume o compromisso de apresentar garantias de que sua tentativa é credível, ou seja, levanta pretensões de validade que poderão ser aceitas ou não pelo ouvinte. A partir disso, Habermas tenta demonstrar que,

A racionalidade inerente à comunicação reside assim na ligação interna entre (a) as condições que tornam um ato de fala válido, (b) a pretensão apresentada pelo falante de que estas condições estão satisfeitas e (c) a credibilidade da garantia emitida pelo falante para o fato de poder, se necessário, justificar discursivamente a pretensão de validade (2002d, p. 194).

No nível da ação comunicativo-discursiva, é possível afirmar que as três acepções da racionalidade (conhecer, agir e falar) se unificam. Desse modo, entendida a partir da sua acepção discursivo-comunicativa, a razão, segundo Mühl (2003, p. 61), “continua mantendo seu caráter de transcendentalidade, embora não na maneira concebida pela metafísica, mas como uma competência universal da espécie”, o que possibilita desenvolver consensos, coordenar socialmente as ações, fundamentar justificações para essas ações e estabelecer critérios de aceitabilidade para os conhecimentos acerca do mundo.

Com o passar do tempo, Habermas, diante das várias objeções à sua tentativa de analisar o conceito de racionalidade sob a ótica de uma racionalidade do entendimento mútuo, procede a uma revisão desse conceito, sem, entretanto, abandoná-lo. Mantém uma “posição- chave à racionalidade procedural encarnada na práxis da argumentação” (HABERMAS, 2004b, p. 99) e, ao mesmo tempo, aponta para o papel integrador do discurso e da práxis argumentativa. Entende existirem diferentes raízes da racionalidade, – epistêmica, teleológica e comunicativa – que se entrelaçam na esfera do discurso.

Essa racionalidade comunicativa exprime-se na força unificadora da fala orientada ao entendimento mútuo, discurso que assegura aos falantes envolvidos um mundo da vida intersubjetivamente partilhado e, ao mesmo tempo, o horizonte no interior do qual todos podem se referir a um único e mesmo mundo objetivo (HABERMAS, 2004b, p. 107).

Desse modo, agir comunicativamente implica em assumir a intenção de estabelecer um entendimento acerca de algo no mundo – entender-se com alguém a respeito de algo –, coordenar as ações mediante a interação intersubjetiva e vivenciar processos de socialização, que servem para formar e para manter identidades pessoais.

3.1.3 As condições formais do entendimento recíproco

Habermas entende que é possível reconstruir as condições gerais do discurso humano, aquelas condições que possibilitam o entendimento e o acordo entre os diversos agentes. A essa reconstrução, ele denomina de pragmática formal, uma ciência que busca identificar e reconstruir as condições gerais do discurso universal e da compreensão mútua. Trata-se da ciência que parte da questão de como é possível o entendimento e o acordo mútuo, buscando identificar as regras que um falante competente deve dispor87.

Nessa tarefa, a ação comunicativa possui papel de destaque, porque, na visão de Habermas, todos os outros modos de ação social – ação estratégica e ação teleológica – são derivados da ação orientada ao entendimento88. Trata-se, portanto, da tentativa de reconstruir e tornar explícitas as estruturas universais da competência comunicativa da espécie89.

Para Habermas, o entendimento relaciona-se à compreensão do significado dos atos de fala num contexto comunicativo e a aceitação das ofertas linguísticas dos outros através do estabelecimento de um acordo. Consiste num processo que leva a um consenso ou a uma concordância acerca de algo no mundo objetivo, subjetivo ou social. Tal processo necessita pautar-se em pretensões de validade mutuamente reconhecidas.

Entender-se é um processo de obtenção de um acordo entre sujeitos linguística e interativamente competentes. [...] Um acordo alcançado comunicativamente, ou um acordo suposto em comum na ação comunicativa, é um acordo proposicionalmente diferenciado. Graças a esta estrutura linguística, não pode ser somente induzido por uma influência exercida de fora, mas que tem que ser aceito como válido pelos participantes (HABERMAS, 2003a, p. 368).

87 Ao analisar a proposta reconstrutiva de Habermas, Bannell (2007, p. 278), afirma: “Junto com a virada

linguística, Habermas estabelece uma nova metodologia de análise, a que chama de reconstrução racional, cujo objetivo principal é reconstruir o sistema de condições, categorias e regras que condicionam a possibilidade de agentes capazes de falar e atuar, construir e utilizar conhecimento, bem como agir racionalmente”.

88 Habermas (2002d, p.09) entende que a ação orientada ao entendimento (Verständigung) é a base a partir da

qual “derivam outras formas de ação social”, como por exemplo a ação estratégica e a competição. Igualmente ele entende que a competência comunicativa “é resultante de um processo de aprendizagem” que pode ser reconstruído mediante a análise pragmática dos atos de fala, pois os mesmos possuem uma estrutura universalmente válida que pode ser reconhecida (ibid., p. 38).

89 McCarthy (2002, p. 323), ao analisar a ideia da pragmática universal como um fundamento da teoria da

comunicação afirma que “igual à filosofia transcendental de Kant, a pragmática universal se propõe revelar condições de possibilidade, porém o foco da atenção se muda da possibilidade de ter experiência dos objetos para a possibilidade de chegar a um acordo na comunicação na linguagem ordinária”.