1. HAYATI-EDEBİYAT ÇEVRESİ ESERLERİ
1.1. Hayatı
3.3.9. Portakal Bahçeleri
Maffesoli (1999, p. 55) aponta o que poderia ser a hipótese central de sua proposta: o paradigma estético é o único capaz de justificar toda uma constelação de ações, de sentimentos e de ambientes específicos do espírito do tempo pós-moderno:
“tudo o que se liga ao presenteísmo, no sentido da oportunidade, tudo remete à
banalidade e à força agregativa, numa palavra, à ênfase do carpe diem, hoje renascente,
encontra na matriz estética um lugar de eleição”.
O ponto de ligação desses elementos é a função de religação ou mesmo de uma condição pós-moderna, conforme cita Lyotard (1998), um estilo diferente de ver o mundo, quando, em lugar do dever histórico do homem, acontece a integração plena do cidadão em comunidades.
Para Maffesoli (2007), estaríamos vivendo um paradigma estético, que é sustentado pelo argumento de que a pessoa sé existe na relação com o outro, o que daria sentido ao ato de vivenciar ou sentir em comum. Isso superaria a dicotomia sujeito/objeto, ao enfatizar muito mais o que une do que o que separa. A tônica da atualidade seria a estética. Para o autor,
Enquanto a sociedade privilegia os indivíduos e suas associações contratuais e racionais, a socialidade vai acentuar a dimensão afetiva e sensível. De um lado está o social que tem uma consistência própria, uma estratégia e uma finalidade. Do outro lado, a massa onde se cristalizam as agregações de toda ordem, tênues, efêmeras, de contornos indefinidos (MAFFESOLI, 2007, p. 101-102).
Também Guattari (1996, p. 32) chamará de “paradigma estético” ou seja, aquele que justifica uma constelação de ações e sentimentos que favorecem a “correspondência
das pessoas entre si e destas com coisas e símbolos”, dirigindo-se à potência de sentir, à criação em seu estado nascente. A estética, para Guattari, por ser processual, remete a uma ética de singularidades, cuja vivência permite a ruptura de consensos, subjetividades dominantes, dogmatismos, ao “sem sentido, às contradições insolúveis, ao curto-circuito entre complexidade e caos”. Nesse sentido, o processo estético atua como facilitador da integralidade do ser, da presentificação de sujeitos, de ações criadoras que, somadas a sínteses imaginativas, emocionais e cognitivas e formais, possibilitam movimentos em direção à reflexão, à possibilidade de transformação da existência.
Para Guattari, a arte possibilita a invenção de novas realidades, novos campos existenciais oriundos da experimentação do desconhecido, permitindo sentir e expressar relações vitais, infinitas virtualidades, inexauríveis significações, ao privilegiar o fazer e permitindo um entendimento da expressão como o que permite acrescentar à realidade da vida vivida um mundo imaginário e heterogêneo.
A arte é, portanto, um produto dessas inter-relações humanas. Ela propicia relações entre o interior e o exterior do sujeito, contribuindo para estender os limites entre o individual e o social. Para Maffesoli (1999, p. 339), na arte, a separação entre sujeito e objeto não existe, eles se perdem um no outro. Em sua apreciação, é necessário
“resistir à tendência de identificar”. Na arte, percebe-se o desejo de participação, pela
admiração, pela repulsão, por amor ou por ódio, pelo desejo de experimentar em comum. O pathos coletivo está na base da estética como dinâmica social, vivido no cotidiano através de práticas.
Maffesoli (1999) se utiliza do estético e busca compreendê-lo na dinâmica do vitalismo social, considerando a existência do respeito à alma humana, o que remete a uma sensibilidade generosa, a uma ética das situações. Na contemporaneidade, o que leva as pessoas a estarem em grupo e se agregarem é apenas o prazer de estarem juntas, não havendo nenhuma ideologia ou finalidade específica. Isso seria simplesmente uma forma de viver o presente coletivamente em busca de um sentido estético, que é compreendido em Maffesoli (1999, p. 105), como “a faculdade comum de sentir, de experimentar”. Nessa perspectiva, Maffesoli (1999) ainda salienta que o segredo da estética está no que é experimentado em comum, nas banalidades, naquilo que nos liga essencialmente ao outro.
A estética, para ele, não é mais um suplemento da alma secundário e de distração. Ela é uma realidade global, existencial e intelectual, ultrapassando e integrando as separações da moral, política, física, lógica da modernidade, tornando-se um imperativo vital. A estética, aqui vista em uma perspectiva dos momentos vividos em comum, exprimindo o tempo imóvel e o prazer do instante eterno, remete a uma outra concepção de tempo, que não é uniforme, mas que varia segundo as pessoas e seus reagrupamentos.
Maffesoli (2009) confere ao termo estética um sentido amplo, um sentido de agregação que constitui as relações sociais à maneira de uma pulsão. Porém, a
utilização do estético em Maffesoli deve levar em conta o componente temporal e dinâmico, que interfere na significação estética, na originação das formas de percepção, no processo de intensidade que lhe imprime o desejo, os afetos, as paixões, alterando- lhe os padrões de agrado e desagrado, a tônica de enfraquecimento ou fortalecimento das energias envolvidas na arte.
Por muito tempo pensou-se que o estético estivesse confinado às representações miméticas, ao caráter significante definido pelo esquema sensório-motor das percepções. Também na atual estética, busca-se compreender as pulsões do ciberespaço e suas relações com o corpo físico, o que é extremamente relevante para a compreensão da juventude, que hoje está presente nas redes sociais. Diversas atitudes são produzidas nesses espaços e também sobre o corpo físico que hoje quer ser belo. Para o autor, essas atitudes não seriam sintomas de uma subjetividade narcísica e solipsista, mas, paradoxalmente, signo de um narcisismo de grupo.
A leitura de Maffesoli é instigante por nos fazer mudar o olhar sobre algumas ideias muito veiculadas. O narcisismo de grupo ocorre com a exaltação do corpo no coletivo, o que, também, ocorrera nos rituais de partilha da carne na Idade Média.
Maffesoli (1999) fala sobre uma perspectiva de estética ampliada, na qual haveria uma erótica dos corpos, ou seja, eles funcionam como fatores de união e de criação de comunidades, mesmo em comunidades virtuais. Assim, mesmo nas redes sociais, no campo do virtual, Maffesoli aponta a presença e centralidade do corpo. Nas redes sociais, nos diferentes meios tecnológicos de comunicação hoje disponíveis, o sujeito cria e muda seus componentes identitários, o que produz um corpo ilusório, não somente para sua própria satisfação, mas para estabelecer um contato com o outro.
Entretanto, nesses casos, a questão da alteridade não é desprezada, e seria nessa necessidade de contato com o outro que os agrupamentos se formam, estabelecem as relações sociais, levando à conjunção, ao que faz estar juntos, constituindo a estética em um sentido amplo, um sentido de agregação, de pulsão.
Para Eagleton (1993, p. 17), a estética é a mediação entre os temas políticos,
modos de produção, lutas de classes relacionados aos temas corporais, ou aos “sentidos do viver”, valendo para todas as culturas e não somente as capitalistas. O autor
questiona se a vida do corpo deveria ser abandonada em função da razão, deixando de lado a experiência.
Maffesoli (1999) observa que a experiência relativiza o sujeito enquanto pensante, senhor e seguro de si mesmo, racional, pivô da modernidade. É a relação com o outro que determina o que se é, pois se participa junto de uma experiência comum, comunica-se, põe-se em comum, sendo que a experiência deve ser dita, contada vista,
pois “a experiência é uma perpétua encenação, ela nos introduz a uma lógica que, de parte, é relacional” (MAFFESOLI, 1999, p.92). Maffesoli cita Foucault para quem o
cuidado consigo mesmo é uma experiência que privilegia o prazer e aparece como um intensificação das relações sociais, tornando-se uma ética na medida em que permite a união dos membros de uma mesma comunidade. A experiência do eu é uma experiência do mundo que partilhamos com os outros. A experiência e o gozo estético são maneiras de se apropriar do mundo, de modo que o gozo percorre todas as fases da experiência e ganha função cultural.
A estética teria uma dupla função, uma para si e outra para o outro. Maffesoli (1999) revela que, a partir da experiência, é permitido dizer que a solidariedade contemporânea é essencialmente estética, ampliada nos diferentes domínios da existência. Essa estética, pelos elementos que a compõem, como o sensível, a comunicação, o emocional, a imagem, o corpo, coisas que se enraízam na experiência, é
essencialmente ética, possibilitando a “religação social” (MAFFESOLI, 1999, p.122).
O autor enfatiza também que a estética, enquanto sentimento comum, é um elemento da physis, da força espontânea e irreprimível que dá origem à vida em sociedade.