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1.2. BANKACILIK SİSTEMİ

1.2.2. Türk Bankacılık Sektöründe Yaşanan Mali Riskler

1.2.2.5. Piyasa Riski

Procuramos estabelecer a relação entre Luhmann e Marx no capítulo anterior tendo a auto-referência operativa como elo de ligação: na crítica da economia política, essa auto-referência operativa se manifesta na apresentação do capital como sujeito automático; na teoria de sistemas sociais, ela aparece subsumida na categoria da autopoiese. Tal relação entre Marx e Luhmann, que por si só já não é intuitiva, permite- nos desconfiar do seguinte: parece haver uma relação histórica interna entre capitalismo e diferenciação funcional da sociedade, ainda não desenvolvida. Neste capítulo, procuraremos esboçar uma análise do capitalismo com o aparato conceitual da teoria de sistemas sociais com o intuito de tensionar a articulação interna da teoria. Isto é, não pretendemos uma crítica externa a Luhmann, à maneira do marxismo vulgar; mantemo- nos adstritos a um programa de crítica imanente e o estudo do capitalismo tem como único escopo testar a consistência interna da teoria de sistemas sociais. Para tanto, será preciso antes de tudo formular a relação entre capitalismo e diferenciação funcional como um problema (seção I). Daí, mostraremos como a tese do primado funcional

(seção II), tão cara a Luhmann, é indissociável de uma versão “tudo ou nada” da autopoiese (seção III). Para que o conceito de autopoiese não corra o risco de ser dissolvido em uma categoria meramente analítica, é preciso dar conta dos chamados

acoplamentos estruturais: eles abrem a teoria de sistemas para a consideração histórica.

Nesse passo, localizaremos o capitalismo na diferenciação funcional da sociedade combinando uma teoria não-linear – assimétrica – da evolução com uma teoria dos acoplamentos estruturais e das assimetrias inter-sistêmicas por eles estabilizadas (seção IV).

I

A relação entre capitalismo e diferenciação funcional pode ser formulada como um problema para a teoria de sistemas sociais porque ela expõe uma ambigüidade constitutiva da teoria; permite identificar uma contradição insolúvel em sua construção interna. Formulemos de pronto o problema (esta seção cuidará de detalhá-lo): Luhmann oferece bons argumentos para sustentar o primado funcional da economia monetária sobre os demais sistemas sociais – o dinheiro como meio de comunicação simbolicamente generalizado típico-ideal, em função de seu alto grau de tecnicidade comparado aos demais meios; a sobre-codificação do código econômico “ter/não-ter” permitida pela propriedade privada, pelo dinheiro e pelo crédito; a performance (Leistung) do dinheiro aproveitável pelos sistemas funcionais não-econômicos da sociedade; etc. – mas, não obstante, o capitalismo não chega a ser uma preocupação para nosso autor.

Com efeito, é possível ler em Luhmann:

“Em um conceito tão abstrato de sociedade, penetra imediatamente um novo conteúdo, agora de caráter econômico. A sociedade se torna sociedade civil [bürgerliche Gesellschaft] a partir da societas civilis. A unidade da sociedade agora já não parece mais dada pelo sistema político – ela pode, tal como ensinou a Revolução Francesa e como desenvolveu Lorenz von Stein, transformar sua constituição política – ; ao contrário, ela [a unidade da sociedade] é determinada

pela economia: pelo trabalho e pelo trânsito em grandes sistemas de satisfação de

trabalho e a propriedade, que garante por conta própria racionalidade e progresso e que, em função dessa sua estrutura, define as tarefas correspondentes à política”1; mas também:

“É aqui uma questão secundária, que no momento podemos deixar de lado, se essa dinâmica [da sociedade contemporânea] é imputável ao "capitalismo" ou à diferenciação funcional do sistema social”2.

Como se vê, Luhmann parece indicar o primado funcional da economia, ao mesmo tempo em que deixa de lado a relação entre capitalismo e diferenciação funcional. Por essa razão, localizar o capitalismo no processo de diferenciação funcional pode ser uma tarefa arriscada; ela se equilibra no fio da navalha que separa marxismo e funcionalismo. Enquanto os marxistas dão seqüência à teoria do capitalismo, os luhmannianos fincam pé na teoria da diferenciação funcional. De fato, ambos preservam distância segura um do outro. Os primeiros, de um lado, aproximam-se da teoria de sistemas sociais com grande desconfiança3. Os últimos, de outro lado, sustentam que “No lugar de uma teoria social do capitalismo entra uma teoria da sociedade moderna que descreve a economia como um sistema funcional da sociedade ao lado de outros e que empiricamente passa a dinâmica da reprodução do dinheiro à frente do drama da acumulação do capital”4. A dificuldade da pretendida aproximação entre capitalismo e diferenciação funcional é expressa por Sonja Buckel, em sua engajada reconstrução materialista da teoria do direito:

“A diferença notória entre uma teoria da sociedade fundada na teoria de sistemas e uma teoria materialista da sociedade consiste no fato de que esta última reconhece a característica distintiva da moderna sociedade em seu caráter capitalista

1

Luhmann, “Gesellschaft” [1970] in SA 1, p. 178 – gr. acr. 2

Politische Theorie im Wohlfahrtsstaat, p. 71, nota 42. 3

Cf., e.g., Alex Demirovic “Komplexität und Emanzipation” in Demirovic (org.), Komplexität und Emanzipation: Kritische Gesellschaftstheorie und die Herausforderung der Systemtheorie. Münster: Wesfälisches Dampfboot, 2001, ps. 13-52; bem como os demais artigos reunidos nessa coletânea. Uma exceção pode ser encontrada em Fredric Jameson, “Marxism and Postmodernism” in New Left Review 176, 1989, não obstante a diferenciação funcional seja ali inteiramente apreendida como uma função interna à lógica própria do capitalismo (p. 39).

4

Dirk Baecker, “Die Schrift des Kapitals” in Hans Ulrich Gumbrecht & K. Ludwig Pfeiffer (orgs.), Schrift. München: Wilhelm Fink, 1993, p. 258. Cf. ainda Baecker, Wirtschaftssoziologie. Bielefeld: Transcript, 2006, especialmente ps. 139-147.

enquanto a teoria de sistemas ao contrário pretende investigá-la em sua

diferenciação funcional”5.

Com efeito, fica rapidamente claro a partir de qualquer leitura inicial de Luhmann que o capitalismo não chega a ser um tema propriamente dito no vasto espectro da teoria de sistemas sociais. Tal se deve ao fato de que a explicação histórica na teoria de sistemas se apóia no conceito de evolução, por sua vez elaborado em torno de uma mudança nos padrões de diferenciação social: as sociedades progridem da diferenciação segmentária à diferenciação entre centro e periferia, de forma que a combinação entre ambas permite passar à diferenciação hierárquica ou estratificatória que, por fim, culmina na diferenciação funcional da sociedade6. Nesse quadro, a economia capitalista passa a ser

um subsistema parcial dentre os demais sistemas sociais funcionalmente diferenciados

tal como a política, o direito, a arte, a ciência, a religião etc.

O próprio Luhmann oferece uma pista para iniciar o tratamento da questão: “Desde que

existe a sociologia, ela se ocupa de diferenciação”7. Mas desde quando existe sociologia? A resposta só pode ser: desde que existe capitalismo. Desde que existe capitalismo, a sociologia dele se ocupa – e, para tanto, faz uso do conceito de diferenciação social. Apenas observar que a diferenciação da sociedade, trabalhada antes de Luhmann por Weber, Durkheim e Simmel, por exemplo, simplesmente “coincide” com o desenvolvimento histórico do capitalismo não diz muito; talvez seja possível encontrar um nexo interno à teoria de sistemas sociais que dê conta da análise do capitalismo. Por mais que Luhmann relegue a oposição entre capitalismo e diferenciação funcional a uma “questão secundária”, essa dificuldade, tomada em perspectiva histórica, é constitutiva da teoria social8. Certamente, a sociologia pode ser compreendida em seu processo de gênese histórica como uma reação tanto ao contratualismo e à filosofia da história quanto à economia política (e, em certa medida, também à crítica da economia política). Basta lembrar a avaliação de Durkheim quanto ao efeito moral da divisão social do trabalho na criação de solidariedade, superior a seus

5

Sonja Buckel, Subjektivierung und Kohäsion: Zur Rekonstruktion einer materialistischen Theorie des Rechts. Weilerswist: Velbrück Wissenschaft, 2007, p. 19 – gr. or.

6

Die Gesellschaft der Gesellschaft, p. 768. 7

Idem, p. 595. 8

Cf., ilustrativamente, Danilo Martuccelli, Sociologies de la modernité. L’itinéraire du XXe siècle. Paris: Gallimard, 1999.

efeitos econômicos estritamente considerados9. Também Simmel demarca o escopo da sociologia contrastando-a com a perspectiva unilateral da divisão do trabalho10.

A questão parece ser a seguinte: é possível um estudo não-economicista do capitalismo? O capitalismo é um fenômeno econômico? Exclusivamente econômico? Não- econômico? Ou apenas essencialmente econômico? Em que medida os fatores econômicos e não-econômicos se combinam? Tais questões são intrincadas e remontam a polêmicas célebres na história do pensamento social que não nos compete reconstruir; nosso problema aqui é completamente outro. Lembre-se: nossa tarefa é a crítica interna da teoria e a questão quanto ao “lugar do econômico” não é em si mesma importante para o nosso trabalho; ela será desenvolvida neste capítulo apenas porque permite discutir as relações inter-sistêmicas na teoria de Luhmann e problematizar a questão da autonomia e da interdependência entre os diversos sistemas sociais. Nosso estudo do capitalismo tem apenas esse propósito. Porém, qualquer estudo do capitalismo tem de levar em conta a dimensão econômica da vida social. O desafio está em não incorrer em alguma espécie de economicismo para explicar as demais dimensões simbólicas do mundo vital como funções meramente mecânicas da economia:

“"Capitalismo" fora originalmente – e ainda o é em alguma extensão – um conceito

econômico. A noção de uma sociedade capitalista é uma extrapolação do

econômico para as relações sociais; assume algum poder formativo das estruturas econômicas, quando não até mesmo a tese de que instituições sociais e valores não são nada além da superestrutura sobre a base real das condições econômicas”11.

Essa ilustrativa afirmação de Ralf Dahrendorf, por exemplo, não precisa ser seguida integralmente: de um lado, se é verdade que o conceito de capitalismo expressa um fenômeno que conta com uma dimensão econômica inegável; e se o conceito de sociedade capitalista pressupõe uma extrapolação da realidade econômica para as

9

Émile Durkheim, Da divisão do trabalho social [1893], trad. E. Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 20. Cf. ainda p. 429: “Mas, se a divisão do trabalho produz a solidariedade, não é apenas porque ela faz de cada indivíduo um "trocador", como dizem os economistas; é porque ela cria entre os homens todo um sistema de direitos e deveres que os ligam uns aos outros de maneira duradoura. Do mesmo modo que as similitudes sociais dão origem a um direito e a uma moral que as protegem, a divisão do trabalho dá origem a regras que asseguram o concurso pacífico e regular das funções divididas”.

10

Cf. Simmel, Soziologie, p. 22. 11

Ralf Dahrendorf, Class and Class Conflict in Industrial Society [1957], trad. do autor. Stanford: Stanford University Press, 1959, p. 37 – gr. acr.

demais esferas sociais; de outro lado, contudo, parece não ser necessário que essa extrapolação ocorra necessariamente por um determinismo mecânico e economicista. Vale considerar que tanto o marxismo vulgar quanto o funcionalismo sistêmico vulgar operam reducionismos economicistas: no primeiro caso, a economia define linearmente a dinâmica de todo o resto da sociedade; no segundo, a sociedade define linearmente a economia. Pretendemos demonstrar justamente o contrário: a relação entre economia e sociedade não é linear, tal como também não o são as relações dos sistemas funcionalmente diferenciados entre si, nem as relações de cada um deles com a sociedade.

Vale aqui repisar nossa ressalva quanto à intenção de estudar o capitalismo com o aparato conceitual luhmanniano: nossa preocupação não é o primado do econômico em

si mesmo considerado – algo que o próprio Luhmann registra em seus primeiros escritos

sem grande alarde. Insistimos em uma crítica exclusivamente interna da teoria. O estudo do capitalismo tem como única razão problematizar a autonomia e a interdependência entre os sistemas funcionais da sociedade; isto é, problematizar historicamente as

categorias fundamentais da teoria de Luhmann: autopoiese e acoplamentos estruturais.

Estamos preocupados não com a maior ou menor importância da economia monetária (pois isso sequer chega a se colocar como um problema), mas com o tratamento díspar que Luhmann dispensa a essas categorias – a princípio, desequilibrado em favor da autopoiese e em detrimento dos acoplamentos estruturais. E, mais uma vez, não se trata de uma questão formal, mas dos problemas que esse desequilíbrio representa para a construção de uma teoria geral da sociedade como teoria de sistemas. Para tanto, a análise do capitalismo é especialmente profícua. Trata-se neste capítulo, portanto, de

reposicionar o capitalismo como problema teórico no quadro conceitual da teoria de sistemas sociais.

II

No pequeno ensaio Capitalismo e utopia, talvez o único em toda a vasta produção luhmanniana em que o capitalismo é abordado diretamente, fica evidente a necessidade da articulação entre estrutura social e semântica para compreendê-lo. Não se pretende, com estrutura social, qualquer referência ao estruturalismo: na teoria de sistemas sociais, a estrutura social diz respeito à diferenciação funcional de sistemas em seu nível

operativo, na reprodução das diversas diferenças entre sistema e ambiente. Com

semântica, por sua vez, Luhmann designa não o estudo dos signos lingüísticos, mas o

acervo cultural e conceitual da sociedade mobilizado em sua auto-observação e em sua auto-descrição; a semântica é a dimensão de sentido disponível para usos reiterados na comunicação da sociedade que evolui de acordo com a evolução da estrutura da sociedade12. A semântica evoca a diferença entre operação e observação: no nível da

operação, tem-se a reprodução dos componentes do sistema funcional pela sua

autopoiese; no nível da observação, tem-se a descrição dessas operações. O conceito de semântica é apropriado por Luhmann da história conceitual desenvolvida por Koselleck, ou seja, como forma de expressar a mudança histórica por meio dos conceitos e da linguagem empregada para descrevê-la13. A diferença é que a evolução sócio-cultural em Luhmann articula a dimensão semântica a uma dimensão estruturante subjacente (a estrutura social). Com isso, abre-se a possibilidade de que a sociedade desenvolva uma observação de segunda ordem sobre si mesma – ou melhor: abrem-se possibilidades para inúmeras observações de segunda ordem em função da diferenciação funcional de sistemas. A semântica diz respeito à “história das idéias” e à maneira pela qual as idéias são materializadas na estrutura social. Há, portanto, entre estrutura social e semântica, uma relação de circularidade que não implica qualquer coincidência perfeita entre ambas: a semântica descreve a estrutura social, aponta suas inconsistências, engendra inconsistências e disparidades, preserva estruturas superadas, avança desenvolvimentos ainda incompletos etc. Ao mesmo tempo em que podem solucionar problemas recíprocos, podem também dar origem a problemas recíprocos; não há, entre estrutura social e semântica, qualquer relação de causalidade necessária14. Portanto, no que tange à segmentação entre estrutura social e semântica, “não pensamos então na forma do esquema base/superestrutura”15. Na verdade, tudo se passa como se cada sistema

12

Cf. Luhmann: “Gesellschaftliche Struktur und semantische Tradition” [1980] in Gesellschaftsstruktur und Semantik. Studien zur Wissenssoziologie der modernen Gesellschaft, v. 1. Frankfurt: Suhrkamp (1993), p. 19; Die Gesellschaft der Gesellschaft, ps. 866-1149; e “Ideengeschichte in soziologischer Perspektive” in Ideenevolution. Frankfurt: Suhrkamp, 2008, ps. 234-252.

13

Cf. Koselleck, “Begriffsgeschichte und Sozialgeschichte” in Koselleck (org.), Historische Semantik und Begriffsgeschichte. Stuttgart: Klett-Cotta, 1979, ps. 19-36.

14

Não há um antagonismo intrínseco entre explicações causais e o funcionalismo equivalencial de Luhmann, pois o funcionalismo não é um tipo especial de relação causal; ao contrário: a explicação causal é uma construção permitida pelo enquadramento conceitual do funcionalismo equivalencial – cf. Luhmann, “Funktion und Kausalität”, ps. 11-38.

15

funcionalmente diferenciado fosse dotado de uma “base” (estrutura social) e de uma “superestrutura” (semântica) própria. O direito, por exemplo, diferencia-se funcionalmente pela positividade das normas, pela imputação da validade de uma norma jurídica ao seu processo formal de positivação (escrita ou consuetudinária); o positivismo jurídico é a semântica que descreve esse processo como crítica ao direito natural. É claro que o próprio positivismo jurídico passou a ser criticado por seu formalismo puro, donde o desenvolvimento de artefatos semânticos complementares: dignidade humana, direitos fundamentais etc. – que implicam, por sua vez, a positivação de instrumentos jurídicos para a defesa da dignidade humana e dos direitos fundamentais. A política, a seu turno, diferencia-se funcionalmente quando a tomada de decisões coletivamente vinculantes se separa de fundamentos religiosos e morais e recorre, por exemplo, ao argumento da razão de Estado. Nesse momento, a política funda-se a si mesma. A partir daí, desenvolve-se uma semântica política que vai da soberania do Estado-nação à democratização da formação da vontade política. Esses exemplos são suficientes para ilustrar a dinâmica entre estrutura social e semântica; o manuseio dos conceitos ajudará a torná-los mais claros. Como é típico em Luhmann, a distinção não é uma definição analítica rígida, mas um expediente para viabilizar a observação e a auto-descrição da sociedade funcionalmente diferenciada.

Pois bem, no pequeno ensaio Capitalismo e utopia, capitalismo é apresentado em oposição à utopia: enquanto utopia designa a ilha imaginária de Thomas More – designa, portanto, um não-lugar – capitalismo expressa, ao contrário, uma época da história universal. Trata-se de um artefato semântico historicamente situado conforme uma determinada estrutura social:

“Sob "capitalismo" deve-se por isso entender uma descrição (histórica, em grande medida obsoleta) de uma sociedade com um sistema econômico diferenciado”16.

Por essa razão, Luhmann identifica a coincidência substantiva entre a descrição marxiana da economia política e sua observação da economia funcionalmente diferenciada:

16

Luhmann, “Kapitalismus und Utopie” in Merkur n° 3, 1994, p. 192 [no original: “Unter "Kapitalismus" ist deshalb eine (historische, weithin veraltete) Beschreibung einer Gesellschaft mit ausdifferenziertem Wirtschaftssystem zu verstehen”].

Com o conceito de capitalismo é descrita a economia diferenciada com base no

pagamento em dinheiro. (...) Mesmo Marx já caracterizara com isso que o modo de

produção capitalista é produzido a partir de produtos produzidos e que, com isso, fundamenta a necessidade de capital e ao mesmo tempo o caráter não-humano, "alienante", dessa ordem econômica”17.

É claro que, nesse passo, mesmo reconhecendo que Marx ainda não empregara o termo “capitalismo”, mas apenas “modo de produção capitalista” (kapitalistische

Produktionsweise), Luhmann restringe o capitalismo à diferenciação funcional da economia. “Capitalismo” designaria, para Luhmann, a dimensão sócio-estrutural da

diferenciação funcional da economia e a dimensão semântica que descreve esse fenômeno. E, dessa maneira, nosso autor pode considerar o capitalismo uma semântica obsoleta: a diferenciação funcional da sociedade faz com que a economia seja mais um dentre os demais subsistemas funcionalmente diferenciados. Para sustentar essa perspectiva, Luhmann tem de reduzir o capitalismo à diferenciação funcional da economia. O primado da diferenciação funcional da sociedade assevera que os principais âmbitos da interação humana estão hoje estruturados como sistemas autopoiéticos: a economia é um sistema dentre outros; capitalismo designaria então uma particularidade, e não uma totalidade. Mas a semântica do capitalismo traz consigo pretensões de totalidade. Por isso: é obsoleta. Essa é a única estratégia disponível para contornar a complicada questão da relação entre capitalismo e diferenciação funcional. A premissa implícita a esse raciocínio revela um problema teórico bastante grave: todos os sistemas funcionais da sociedade têm de ser igualmente autopoiéticos. Ora, mas, nesse registro, corre-se o risco de perder a dimensão histórica da diferenciação funcional da sociedade. Vimos, no capítulo anterior, que existe uma homologia entre capital e autopoiese. Mas tal homologia não nos autoriza, em medida alguma, defender a tese segundo a qual todos os sistemas autopoiéticos seriam funcionalmente diferenciados em proporções equivalentes: como é por si só evidente, a economia, o direito, a política, a arte, a ciência e a educação são sistemas funcionalmente

17

“Kapitalismus und Utopie”, ps. 190/191 – gr. acr. [no original: “Mit dem Begriff des Kapitalismus ist die auf der Basis von Geldzahlung ausdifferenzierte Wirtschaft beschrieben. (...) Schon Marx hatte ja die kapitalistische Produktionsweise dadurch charakterisiert, daß aus produzierten Produkten produziert wird und damit den Kapitalbedarf und zugleich den unmenschlichen, "entfremdenden" Charakter dieser Wirtschaftsordnung begründet”].

diferenciados com graus de complexidade muito discrepantes, relacionados ao desenvolvimento desigual dos meios de comunicação simbolicamente generalizados de que dispõem (respectivamente: dinheiro, validade jurídica, poder, fruição estética, verdade, aptidão do aluno para o aprendizado). E Luhmann, a bem da verdade, reconhece essa realidade em diversas ocasiões, como não poderia deixar de ser: “Nem

todos os âmbitos funcionais evoluem sob a lógica da diferenciação funcional na mesma medida”, pois “é preciso tomar como ponto de partida que a diferenciação funcional não alcança a todos os âmbitos funcionais igualmente”18. Não obstante, é preciso conceder que, se autopoiese é auto-referência, ela somente pode ocorrer ou não-ocorrer: no nível lógico não existe “meia” auto-referência – “A autopoiese acontece ou não

acontece – da mesma forma como um sistema biológico vive ou não vive”19. O primado da diferenciação funcional da sociedade exige que todos os sistemas sociais sejam igualmente autopoiéticos, pois nessas circunstâncias a economia (tal como o direito, a arte, a política etc.) não possui qualquer posição privilegiada. Como conciliar esse estado de coisas com a discrepante evolução histórica de sistemas sociais? Temos de investigar esse silogismo em maior detalhe.

Trata-se de uma complicada articulação conceitual que: (i) toma o primado da