2. KURAMSAL TEMELLER
2.1 Genel Bilgiler
2.1.2 Pirimidin halkasının özellikleri
Além dos elementos musicais e a mudança de perspectiva para com a prática musical citada anteriormente, são mencionados pelos estudantes diversos aspectos não musicais. Todos os estudantes entrevistados citaram aspectos extra musicais. André, por exemplo, cita que “[...] só o fato de estar com as pessoas pra mim já era uma grande
aprendizagem pra mim, porque geraria convivência. Geraria um contrato de convivência com outras pessoas”.
Além disso, outro aspecto muito presente no discurso dos estudantes está relacionado com a percepção do conhecer e respeitar a opinião do colega. Eliana, por exemplo, entrou no curso quando ainda era o curso de Percussão e passou quatro anos. Atualmente, trabalha como educadora no Programa Mais Educação com Letramento e Formação Patrimonial, mas também faz shows com a banda Sons de Tudo – que foi formada a partir do curso de Prática de Conjunto de 2012. Em sua entrevista, cita diversos pontos extra musicais representando a importância do curso.
O lance de... trabalhar em equipe é muito bom... porque... embora desde o começo... acho que na igreja, eu já vinha aprendendo a trabalhar em equipe, mas eu sempre fui uma pessoa muito difícil. Sempre tive o gênio muito forte. Negócio de aceitar a opinião dos outros não era muito fácil pra mim.... e aí, com a Prática, teve esse negócio de respeitar a opinião do outro, de saber ouvir. Da parceria e tal... Acho que isso acrescentou bastante (Eliana).”
Figura 12 – Eliana no show de uma de suas bandas no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura
Fonte: Arquivo pessoal da estudante Eliana (2014).
A partir de seu relato, percebemos que o curso não se preocupou apenas com a formação musical, mas também no contexto em que estava inserido, contribuindo de maneira significativa na formação humana de seus estudantes. E esses aspectos não foram citados apenas por Eliana. Leandro também comenta o trabalho em equipe como importância do curso:
[...] quando eu vou tocar em outros lugares que eu não vejo que é justamente esse lance de se escutar, de se respeitar, ter essa admiração pelo que o outro tá fazendo, e... esse trabalho de equipe e você ir construindo... pega uma música e vai construindo ... de pouquinho em pouquinho e vai fazendo essa colcha de retalhos assim, aos poucos... e... isso é puramente trabalho de equipe que você vai levar pras outras áreas da sua vida (Leandro).
Victor relata um pouco disso também em sua entrevista.
Cara, com o exercício da música aqui no Centro Cultural, pode não parecer, mas eu aprendi muito a ouvir cara. Eu falava demais assim e não parava pra ouvir as pessoas e com a música eu aprendi que tem o momento de parar e ouvir o outro. O que o outro tem pra falar. A ideia do outro pode ser melhor que a minha. Eu poder dar valor a ideia do outro. Eu aprendi a trabalhar em equipe. Eu não sabia trabalhar em equipe. Música é trabalho em equipe. Se o cara tá fazendo uma coisa e o outro cara tá fazendo outra, não vai dar certo, tem que todo mundo tá encaixado... e.... tudo isso foi muito bom pro meu crescimento pessoal, pro meu amadurecimento e essas coisas (Victor).”
Cinco dos dez estudantes abordaram essa temática de como o curso foi importante para suas respectivas formações.
Percebemos aí uma educação musical significativa, que tem como função não apenas o desenvolvimento de musicistas e virtuoses, mas também “desenvolver a personalidade do jovem como um todo [...] o humano, meus amigos, como objetivo da educação musical” (KOELLREUTTER, 1998, p. 39-45 apud BRITO, 2011, p. 43-44).
Como forma de demonstrar essa formação humana dita por Koellreutter (1998), Samila nos explica através de seu relato a importância da vivência no curso:
É muito importante, porque lá no Centro Cultural, tanto as pessoas, quem administra e os professores e até mesmo os alunos também, a gente aprende muito pela experiência de vida de cada um também. Pelo Bom Jardim ser um bairro de periferia e tudo, a gente escuta muita coisa e a gente aprende muito. Ajuda na nossa... no nosso desenvolvimento como pessoa, como cidadão. Também a arte e todas essas coisas que são oferecidas pelo Projeto, elas formam a gente tanto aspectos profissionais... tem muita gente que aprendeu coisas no Jardim de Gente, fez cursos no Jardim de Gente e trabalha com isso atualmente e... também tem pessoas que usam, mesmo que não trabalham na área, mas que usam, assim como eu, usam o que aprenderam no Jardim de Gente pro seu trabalho, de vez em quando precisa de alguma coisa. É muito importante porque soma. Soma... tudo que você faz... tudo que eu fiz lá no Centro Cultural pelo Jardim de Gente, somou e a prática de conjunto é... muito mais, porque é hoje o que eu vivo lá na igreja. Que... não é a mesma coisa, mas é a mesma ideia e são coisas que me ensinaram e somaram pra tudo que eu sei hoje e me ajudaram também a aprender, a aprender essas coisas da Música (Samila).
Figura 13 – Samila durante a apresentação do curso de Prática de Conjunto na Culminância de 2012
Fonte: Centro Cultural Bom Jardim (2012).
Trata-se de um tipo de educação musical que aceita como função [...] a tarefa de transformar critérios e ideias artísticas em uma nova realidade, resultante de mudanças sociais (H.-J. KOELLREUTTER, 1998, p. 39-45 apud BRITO, 2011, p. 43).
Mudanças sociais essas que Beneildo nos mostra através de seus problemas. Depois de um tempo na prisão e do envolvimento com drogas, Beneildo nos conta que o Projeto e o curso mudaram muito sua vida:
[A] Prática de Conjunto me deu uma oportunidade né, porque eu tenho canções próprias e eu quis falar aquilo que eu sinto que é protesto, a canção que eu escrevo é de protesto aí... eu falei sobre protesto e esse curso me ajudou muito porque eu tava num tratamento, “aí”... fiquei muito ansioso quando eu parei de usar droga, fiquei nervoso demais, um pouco de raiva às vezes... e a música me acalmou. Naquele tempo, veio na hora certa a canção e aquele dia no curso, então o curso me ajudou muito. [Além disso], eu acho importante porque isso ajuda a tirar a meninada da rua, porque a rua não tá oferecendo muita coisa boa, não. Eu tenho visto aí que viciados tão parando de usar droga pelo curso e inclusive eu sou um deles que... algumas pessoas dizem que vagabundo não... para, dá um tempo, mas eu sou prova viva disso, de que a pessoa consegue deixar e a música me ajudou muito e ajuda alguns jovens, aí também porque... infelizmente, a juventude tá se perdendo aí... então eu tenho visto que esses projetos têm ajudado muita gente (Beneildo).
Beneildo ficou durante um ano no curso de Prática de Conjunto e atualmente desenvolve práticas musicais semanais na igreja, além de apresentações nas periferias de Fortaleza que ele denomina de Culto Campal.
De vez em quando, eu toco nas ruas... Culto Campal, que a gente sempre gosta de fazer culto campal assim... nas favelas... a gente sempre gosta de tocar lá pros meninos. [...] Nas favelas. Em todos os lugares aqui do Bom Jardim e em outros bairros também... e a gente gosta sempre de levar a canção e levar comida também pra eles lá também, pros caras que são mendigos também nas ruas e... a gente pegou esse amor de tocar, porque a música ... ela tem esse poder de salvar vidas... eu falo isso porque a música salvou a minha vida. Então eu dou de graça o que eu recebi de graça, e as pessoas gostam de escutar a canção porque de uma certa forma é... falam com eles de uma certa forma a música, né? Tem esse poder, a música (Beneildo).
Figura 14 – Beneildo na apresentação do curso de Prática de Conjunto na Culminância de 2013
Fonte: Centro Cultural Bom Jardim (2012).
Em todos os relatos, percebemos mudanças significativas em cada um dos estudantes, com particularidades e semelhanças. A pesquisa então nos mostra uma educação musical que Koellreutter define como funcional13. Uma educação musical que é voltada para o indivíduo e seu contexto e que, intencionalmente ou não, vem modificando a realidade e o cotidiano de muitos moradores do Grande Bom Jardim. Cotidiano esse que deixa de ser rotineiro e passa a ser pensado como práticas, como “apropriação do espaço, a formação de
13 Para Koellreutter, a educação musical funcional é “aquela voltada às necessidades da sociedade, do indivíduo,
em ‘tempo real’, atual, e não fundamentada em objetivos, valores, princípios e conteúdos que remetem a épocas passadas” (BRITO, 2011, p. 33).
lugares e o rompimento de fronteiras que demarcam socioespacialmente a vida urbana” (LEITE, 2010, p.11).