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O corpus deste estudo delimita-se aos gêneros no contexto brasileiro;

entretanto, para o aprofundamento da análise, contemplam-se aqui a historicidade e as características das formas genéricas produzidas fora do país. Assim, pretende-se observar se os gêneros recriam-se ou não a partir de outros gêneros e do ambiente em que estão inseridos.

Literatura, teatro, cinema, circo, rádio, televisão, Web, enfim, em todos

esses meios encontra-se o melodrama. Esse trabalho dedica-se ao estudo desse gênero a partir do teatro, pois se entende que é no palco que o melodrama constrói a sua identidade paradigmática. O teatro oferece aos atores e teatrólogos a oportunidade de ter a resposta imediata da peça apresentada. Ao serem construídas a partir de um determinado contexto sócio-histórico, as obras são vivas e mutáveis ao sabor da interação entre o autor e o público. Por estarem intimamente ligadas à contemporaneidade, as peças podem ser classificadas como produtos perecíveis. Isso não significa que não possam ser adaptadas e fazer sucesso em outras épocas. Mas é relevante destacar que a cumplicidade entre autor-obra-público, e vice-versa, é moldada dentro de uma determinada

ambiência sócio-histórica. Essa proximidade favorece a catarse no sentido aristotélico, isto é, a purificação de emoções, a sensação de prazer e alívio.

Assim, melodramas teatrais, folhetins, radionovelas, telenovelas e webnovelas, em menor ou maior grau, são interativas, isso porque o autor constrói a obra dia-a-dia, contando com o feedback (retorno) aferido junto ao

público. Por sua vez, o público também pode ser alimentado com temáticas novas, muitas delas latentes na sociedade. Essa interinfluência é mais sentida no teatro, onde a presencialidade é um fator importante para vivificar o espetáculo. Igualmente em outros meios, como jornal, rádio, televisão e Internet, é possível mensurar o efeito da obra através do contato direto com o público, pesquisas de opinião, cartas, e-mails, telefonemas, etc. Com essas ferramentas, é possível promover uma comunicação mais direta entre autor-obra-público.

A eficácia de uma obra sobre o público está intimamente ligada à sua contemporaneidade absoluta. As grandes épocas do teatro se fizeram com peças criadas no momento, na língua original da representação. Um autor de gênio escreve para ser ouvido, naquele instante, por um público ávido em reconhecer-se nos diálogos. Fugir dessa lei importa em trazer ao espetáculo outros valores, que não são os da comunicação direta entre texto e platéia. Essa verdade elementar não se desmente pelas antecipações da obras de arte, que muitas vezes só pode ser plenamente apreciada no futuro. Acreditamos, por exemplo, que apenas a sensibilidade moderna está capacidade a assimilar a riqueza incomparável de um Dom Juan. Mas, ao tempo em que foi

criada, a peça se comunicava ao público pelos valores próprios do momento (MAGALDI, 1962, p. 11).

Uma obra ao harmonizar-se com seu tempo e, portanto, ao estar ligada à sua contemporaneidade, como refere Magaldi, tem mais possibilidade de êxito na comunicação direta com o público. Através de recriações ela pode perenizar-se durante milênios, como, por exemplo, as peças escritas no século V a.C. por Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Ainda hoje encenadas, Oréstia, Prometeu Acorrentado, Agamêmnon, Os sete contra Tebas, Édipo Rei, Édipo em Colono, Antígona, Medeia, Electra, entre outras, não perdem a eficácia. Isso porque, ao

serem recriadas, valem-se de linguagens, estruturas, formas, aparatos tecnológicos e cenários contemporâneos.

O autor e seus contemporâneos vêem, compreendem e julgam, acima de tudo, o que está mais perto de sua atualidade presente. O autor é um prisioneiro de sua época, de sua contemporaneidade. Os tempos que lhe sucedem o libertam dessa prisão e a ciência literária tem

a vocação de contribuir para esta libertação [...] Uma obra literária, como já dissemos, revela-se principalmente através de uma diferenciação efetuada dentro da totalidade cultural da época que a vê nascer, mas nada permite encerrá-la nessa época: a plenitude de seu sentido se releva tão-somente na grande temporalidade (BAKHTIN, 1992, p. 366,

grifo do autor).

É compreensível que, ao produzir uma obra, o autor até consiga estimar a sua performance junto aos seus contemporâneos. Mas é impossível precisar o desempenho em períodos ulteriores, após anos de sua emersão. A eficácia junto ao público depende do grau dialógico entre a peça e a ambiência sócio-histórica, onde estão presentes fatores mutáveis, como: estético, ideológico, cultural, econômico e lingüístico.

A realidade é a matéria-prima do autor. Organizá-la e desvelá-la conforme a sua percepção é o grande mérito dos artistas. Mas deve-se também dar crédito aos recriadores, isto é, profissionais que constroem o conhecimento através de

adaptações, inserções, retiradas de elementos para que a obra não perca a contemporaneidade e alcance a comunicação direta com o público. Com a chegada, principalmente, do rádio e televisão, esse tipo de prática torna-se comum. Simplicidade, redundância e objetividade figuram como premissas básicas para facilitar o entendimento da audiência. Essa técnica não é privilégio dos meios eletrônicos, o teatro utiliza-a há séculos. A fase inicial do teatro brasileiro tem como uma de suas principais características a comunicação direta como o público. Por isso, antes de estudar o melodrama, um gênero que também emprega esse expediente, faz-se necessário um apêndice sobre a dramaturgia nacional.

O século XVI é o marco inicial do teatro brasileiro, cuja finalidade primeira é religiosa. Ensinar aos alunos do Brasil Colônia a prática do latim, através de temas católicos alinhados com a estratégia da Contra-reforma18. Esse é um dos objetivos da Companhia de Jesus ao criar, em 1552, a Província do Brasil. Mas a realidade da colônia é outra, culturalmente muito precária. Desta forma, os jesuítas dedicam-se com mais denodo ao projeto de civilização, que tem como alvo principal conquistar os índios. Incentivados pelo primeiro Provincial do BrasiI,

18 Movimento criado no século XVI que, entre outros objetivos, procura combater o avanço do

protestantismo. Para isso, são criadas novas ordens religiosas, como a Companhia de Jesus, fundada na França, em 1534, por Santo Ignácio de Loyola,

padre Manuel da Nóbrega19, os missionários começam a produzir autos20 para

catequizar os indígenas e fomentar a paz entre nativos e colonizadores. O padre espanhol, José de Anchieta21, destaca-se como um dos principais escritores de

autos da colônia.

O teatro propriamente dito vai expandir-se sobretudo a partir de 1567 (data aproximada), quando o padre José de Anchieta, por sugestão de Nóbrega, faz representar em São Paulo de Piratininga uma peça intitulada [...] Pregação Universal, da qual não sobrevivem mais do que

duas estrofes (PRADO, 1993, p. 16).

Para seduzir os nativos, José de Anchieta utiliza o expediente da verossimilhança. Além de inserir os nativos no elenco, o padre mescla referenciais do catolicismo, como santos, anjos e imperadores romanos, com elementos gentios e indígenas; por exemplo, os pagãos tapuias (nome de tribos inimigas dos tupis), personagem de Na Vila de Vitória, e os três diabos índios

Guaixará, Aimberê e Saraiva, de Na Festa de São Lourenço22.

O teatro é apresentado em datas especiais e tem como palco aldeias indígenas, igrejas, escolas e locais públicos. O enredo dos autos mostra o conflito entre o bem e o mal, onde o primeiro sai vencedor. Temas considerados profanos, como a relação amorosa de casais, são proibidos pela Companhia de Jesus. Todos os papéis são representados por homens; portanto, as mulheres não fazem parte do elenco. Para atingir o público-alvo, os missionários escrevem peças preferencialmente em português, espanhol e tupi-guarani.

A alternância de cenas em três línguas supõe a presença de um público mais familiarizado com as condições da terra – índios que já assimilaram o português e o espanhol e colonizadores que aprenderam o vocabulário tupi. Não é mera retórica julgar que o plurilingüismo teatral tenha contribuído para a fusão das raças (MAGALDI, 1962, p. 18).

Mesmo enquadrados como espetáculos amadores, com finalidades religiosas, comemorativas e veículo à catequese de índios, os autos jesuíticos são

19 Autor do primeiro texto em prosa escrito no Brasil em 1557,

Diálogo sobre a Conversação do Gentio. Chega à Bahia, em 1549, com a armada do primeiro governador geral do Estado do Brasil,

Tomé de Sousa.

20 Gênero teatral dramático medieval. Temática básica: religiosa.

21 Desembarca na Bahia em 1553. Anchieta vem com a armada do segundo governador geral do

Estado do Brasil, Duarte da Costa.

22 É difícil datar com precisão

Na Festa de São Lourenço e Na Vila de Vitória, mas “parece certo

apontados pela maioria dos escritores, professores e historiadores como o primeiro gênero do teatro brasileiro. Os amálgamas que constituem os autos expressam a pluralidade racial, lingüística, expressiva, musical e retratam a emergente constituição da nacionalidade brasileira.

Por coincidência ou pelas peculiaridades de seu processo colonizador, o Brasil viu nascer o teatro das festividades religiosas. Na Grécia, essa origem, embora fosse de outro caráter o culto dionisíaco, veio propiciar mais tarde o apogeu da tragédia e da comédia. Não se pode afirmar que no Brasil os autos jesuíticos tiveram descendência. Entretanto, ao lado do seu valor histórico indiscutível, apraz-nos pensar que eles nos deram marca semelhante à dos inícios auspiciosos do teatro em todo o mundo (MAGALDI, 1962, p. 24).

O teatro jesuítico começa a perder força no final do século XVI, quando deixa de ser instrumento de catequese. No século XVII, as representações limitam-se aos exercícios escolares e são raras as encenações comemorativas. Não se tem notícia sobre o assunto das peças, mas apenas a indicações sobre a data da festividade. Alguns nomes de autores vêm à tona, como o carioca Salvador Mesquita e os baianos Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque e José Borges de Barros23. Sábato Magaldi aponta algumas razões para essa pouca expressividade do teatro brasileiro durante o século XVII.

Além da falta de documentos (poderíamos conjeturar que é mais deles esse vazio), talvez algumas causas o expliquem: eram novas as condições sociais do país, não cabendo nos centros povoados o teatro catequético dos jesuítas; e os nativos e portugueses precisam enfrentar os invasores de França e Holanda, modificando-se o panorama calmo e construtivo, propício ao desenvolvimento artístico (MAGALDI, 1962, p. 27).

A literatura é uma das fontes alimentadoras do teatro, e essa também passa por um período de falta de criatividade no século XVII. Além de sofrer a influência de Portugal, os escritores brasileiros bebem no gongorismo espanhol. As obras são engessadas pelo rigor canônico da escolástica espanhola e, com isso, empobrecidas de imaginação e idéias. Já em meados do século XVIII, influenciados pela literatura peninsular e arcadismo francês, surgem os primeiros poetas mineiros. Eles começam a trabalhar com temas nativos da colônia, como o culto a natureza e aspectos da vida e da terra brasileira. O arcadismo no Brasil é

inaugurado em 1768 com a publicação de Obras poéticas, de Cláudio Manuel da

Costa.

O Caramuru e o Uruguai, escritos e publicados na Europa, são

os dois mais notáveis espécimes desta fase de transformação autonômica. O aparecimento dos poetas de Vila Rica, marcou o início do

nosso lirismo subjetivo e preparou a fase patriótica e religiosa, da qual saiu o Romantismo. Deste tempo são o padre Souza Caldas, Frei São Carlos, Eloi Ottoni, Natividade Saldanha, José Bonifácio, Frei Caneca, Vilela Barbosa, Pedra Branca, Araújo Viana, Alves Branco, Odorico Mendes e outros mais. A independência, despertando o entusiasmo pelas cousasbrasileiras e fazendo sacudir dos ombros a tutela lusitana, vem consolidar a nossa autonomia política e literária, começada meio século antes pelos proto-românticos do grupo mineiro (PARANHOS, 1937, p. 32-33).

O período do arcadismo coincide com a Inconfidência Mineira24 e com a

retomada dos espetáculos teatrais no Brasil. A segunda metade do século XVIII é marcada pela criação das Casas de Ópera, teatros que passam a abrigar

atividades cênicas com certa regularidade e elencos mais ou menos fixos. A primeira Casa de Ópera é construída no Rio de Janeiro em 176725; contudo, a produção da nossa dramaturgia ainda é incipiente e inconsistente. Pode-se destacar como referencial histórico o drama O Parnaso Obsequioso, de Cláudio

Manuel da Costa. Em 5 de dezembro, de 1768, a obra é escrita para ser recitada em música por ocasião do aniversário de D. José Luís de Meneses, Conde de Valadares, Governador e Capitão-General da Capitania de Minas Gerais.

O Parnaso Obsequioso resulta num coro das musas e dos

deuses olímpicos em louvor do aniversariante, novo governador das Gerais. Estranharíamos o tom bajulatório da pequena obra, se ele não fosse norma em todas as manifestações públicas da época. O elogio estende-se a todo o tronco dos Meneses. O mérito teatral é escasso, num verso duro, precioso e europeizante, que faz referência à “fereza” da terra (MAGALDI, 1962, p. 30).

A Casa da Ópera de Vila Rica, atual Ouro Preto, construída em 1770, é considerada o mais antigo teatro em funcionamento na América do Sul. No final do século XVIII, também são construídos teatros em Diamantina, Recife, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, entre outras cidades. Logo depois de inaugurados,

24 Movimento ocorrido em 1789 contra o domínio português. Participam da revolta, arcadistas

como Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Inácio José de Alvarenga Peixoto.

25 Não se sabe se a Ópera dos Vivos, construída em 1748, é a mesma Casa da Ópera, dirigida

pelo Padre Ventura, no Rio de Janeiro. A Casa da Ópera é destruída por incêndio em 1769 (Cf. MAGALDI, 1962, p. 31).

os teatros apresentam espetáculos com regularidade. No Rio de janeiro, por exemplo, as peças entram em cartaz quinzenalmente. Com o passar do tempo, no entanto, começam a rarear.

O vazio do século XVIII pode ser transformado, assim, numa lenta e paciente preparação de um florescimento que viria mais tarde, quando fossem inteiramente propícias as condições sociais. No início do século XIX, não se alteram muito as características aqui apontadas. Será necessária a Independência política, ocorrida em 1822, para que o país, assumindo a responsabilidade de sua missão história, plasme também o seu teatro (MAGALDI, 1962, p. 32).

Napoleão Bonaparte invade Portugal e, em 1808, a corte portuguesa muda-se para o Brasil. Com a chegada da Família Real, começa o processo de institucionalização do meio intelectual brasileiro. Em 13 de maio daquele ano, o Príncipe Regente D. João assina o decreto que cria a Impressão Régia, a única

tipografia existente no Rio de Janeiro. Ela é encarregada da publicação de atos normativos e administrativos do governo. Também em 1808, em 10 de setembro, a tipografia começa a rodar o primeiro jornal impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro26, um jornal oficial que traz atos do governo e algumas notícias

internacionais de interesse da corte, principalmente contra Napoleão. As publicações da Impressão Régia também incluem obras como: Ensaio sobre a Crítica (1810), de Alexandre Pope; Marília de Dirceu (1810), de Tomás Antônio

Gonzaga; o Uraguai27 (1811), de José Basílio da Gama; obras econômicas de

José da Silva Lisboa, conhecido mais tarde como Visconde de Cairu; Tratado Elementar de Física, de Abade Haüy; entre outros livros, folhetos e brochuras.

Com a chegada da Impressão Régia, florescem as discussões sobre a censura

imposta pelo regime monárquico.

A plena liberdade de imprensa, nos termos estabelecidos pelo pensamento liberal europeu, seria efetivamente exercida, no mesmo ano de 1808, por um jornal brasileiro publicado em Londres. Com efeito, criada a Impressão Régia em maio, já em junho aparecia o primeiro número do Correio Brasiliense, ou Armazém Literário, de Hipólito José

da Costa (1774-1823). O episódio é exemplar, porque a própria censura determinou a criação de um jornal livre – jornal de doutrina e não de noticiário, no sentido moderno da expressão; e a existência de um jornal livre determinou, por sua vez, a longo prazo, o aparecimento de outros jornais livres e até libérrimos, como serão os do Primeiro Reinado (o que, a seu turno, provocará a inevitável reação restritiva). Além disso, o

Correio Brasiliense foi deliberadamente o órgão da Independência, de

26 Cf. MARTINS, 1977, v. II, p. 29. 27 Ou

que fez a sua finalidade. Ao suspender-lhe a publicação, com o número de dezembro de 1822, Hipólito José da Costa anunciava aos leitores que, ‘em vista da liberdade de imprensa existente no Brasil, deixa de imprimir mensalmente o Correio Brasiliense’ (MARTINS, 1977, v. II, p.

32).

Entre 1870-1900, na terceira geração romântica, o teatro brasileiro começa a experimentar o naturalismo com Oliveira Sobrinho, Domingos Olympio, Franca Júnior, Arthur Azevedo, Aluísio Azevedo, entre outros. Após 1900, vem a geração idealístico-simbolista, onde Sílvio Romero inclui os vários ensaios de Coelho Neto. O objetivo deste trabalho não é traçar um panorama completo do teatro brasileiro, mas referenciar obras e autores marcantes da nossa dramaturgia, desde os autos jesuíticos até o romantismo. Isso porque, defende-se aqui que as características de literatura e teatro brasileiros são forjadas através de processos dialógicos intra e intergenéricos, interação entre autor-público e realidade social. Nesta pequena amostra percebe-se a pluralidade e a busca de identidade dessas formas de expressão. Elas carregam em suas gêneses células religiosas, políticas, ideológicas e culturais das mais diferentes partes do planeta; com isso, nossos escritores e dramaturgos conseguem imbricar, por exemplo, o contexto brasileiro com preceitos tanto da tragédia quanto da comédia. A partir do romantismo, esta tese analisa as particularidades de teatro e literatura que atravessam os meios de comunicação impresso e eletrônicos analógico-digitais.