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Novela e romance são gêneros que, por vezes, são confundidos. Por isso, é fundamental delimitar a área de atuação de cada um deles, isso porque esta tese defende que radionovela, telenovela e webnovela são frutos da realidade social, de processos interativos, intra e intergenéricos. Por outro lado, verifica-se que a novela, tal qual se concebe hoje, é bem diferente da que emerge das canções de gesta.

A linha tênue que separa conceitual e estruturalmente novela e romance presta-se a promover uma desarmonia teórica, a tal ponto que uma obra pode estar enquadrada em diferentes formas genéricas. Por exemplo, alguns pesquisadores entendem que O Filho do Pescador, de Teixeira e Souza, é um

romance; outros, um folhetim, e tem ainda uma terceira corrente que defende ser uma novela.

Atualmente, esse descompasso teórico e a pluralidade de obras, que imbricam vários gêneros, dificultam ainda mais a conceituação de novela e romance. É bom frisar que esse tipo de classificação perde cada vez mais espaço entre os estudiosos, isso porque a semântica dessas palavras torna-se cada vez mais parecida na língua portuguesa. Mesmo assim, é importante delimitar o campo de atuação de cada gênero, isso porque a novela tal qual é apresentada

nos meios eletrônicos é uma peça aberta, construída dia a dia, onde o escritor leva em conta a resposta, a interação com a audiência para produzir os próximos capítulos. Já o romance é uma obra fechada, ou seja, o desenvolvimento, o desfecho não pode ser mudado para atender o leitor.

A raiz etimológica da palavra novela vem do latim novella, de novellus,

mas é a partir da Itália que a “‘novella’, originária da Provença (‘novas’, ‘novelas’),

que significava ‘relato, comunicação, notícia, novidade’” (MOISÉS, 1967, p. 123), aparece e ganha o mundo.

Semântica curiosa a da palavra novela: em vários idiomas, significa ‘história curta’, como atesta por exemplo o inglês (short story), o espanhol (novela corta) e mesmo em português, algo assim entre o romance e o conto – não tão longa quanto o romance nem tão curta como o conto –, história usualmente curta, ordenada e completa, de fatos fictícios verossímeis (CAMPEDELLI, 1985, p. 18).

A polissemia da palavra novela dificulta a sua conceituação. A interinfluência com o ambiente sócio-histórico e outras formas genéricas define o significado do termo. A este trabalho interessa a acepção novelística empregada nos gêneros literários e eletrônicos analógico-digitais.

É difícil precisar o nascimento da novela. Sabe-se, porém, que de forma insipiente já estava presente na Antigüidade greco-latina. Essa forma genérica desenvolve-se entre os séculos II a.C. e III d.C., com o apogeu no século II da era cristã. Mas Massaud Moisés entende que a novela origina-se mesmo das canções de gesta13, que contam os feitos de guerras de heróis. Uma das mais antigas e famosas canções de gesta das grandes narrativas épicas francesas é A canção de Rolando, que data entre 1080 e 1100. As canções de feitos heróicos

desenvolvem-se na França entre os séculos XI e XIII.

Cantadas por trovadores, confundiam o fantástico com o verídico nos episódios bélicos, assim conjugando espírito cívico e atividade estética. Mas, crescendo a narrativa toda vez que o trovador a repetia a partir de certo instante, não só estavam desfigurados os motivos heróicos da guerra, como a extensão do poema havia atingido extremos. E como a memória individual fosse incapaz de retê-lo na íntegra, era preciso transcrevê-lo no pergaminho a fim de conservá-lo. Mas aconteceu algo de inesperado após a transliteração: as canções passarem a ser lidas com acompanhamento musical, nos saraus

13 A Canção de Rolando é considerada a mais antiga das grandes narrativas épicas francesas.

cortesanescos. O ato de ler em público deve ter condicionado nalguns casos (o fidalgos eram, o geral, analfabetos), o desejo da leitura individual e solitária. E o alargamento desmensurado do texto levou a pôr em prosa o conteúdo já de si narrativo dos versos. Daí a prosificação foi um passo. Com isso, a novela despontava como fôrma autônoma e caracterizada (MOISÉS, 2006, p. 106).

A Demanda de Santo Graal, uma adaptação portuguesa do século XIII

(por volta de 1240) do original francês do século XII, La Quête du Graal, é uma

das primeiras novelas de cavalaria de destaque. A abordagem onde José Arimatéia colheu o sangue de Jesus Cristo é um híbrido de outras narrativas da mesma linha, como A Morte do Rei Artur.

Na Idade Média, as novelas de cavalaria começam a perder fôlego. Para fortalecê-las, os autores escrevem obras com ares líricos, incluindo elementos sentimentais e eróticos. Na Renascença, as novelas histórico-cavaleirescas passam a dividir espaço com as satíricas e picarescas. No início do século XVII, Miguel de Cervantes Saavedra lança Dom Quixote de La Mancha14 para satirizar

o estilo da novela de cavalaria. A publicação torna-se mundialmente conhecida.

Com D. Quixote (1605, 1615), Cervantes não só constrói a obra suprema da novela de cavalaria (apesar de pretender satirizá-la por decrépita e extravagante), como ergue a novela ao mais alto ponto atingido antes ou depois. Multiforme no conteúdo e na técnica de composição, o relato das andanças do cavaleiro da Mancha e Sancho Pança serviu de estímulo à prosa narrativa dos séculos seguintes (MOISÉS, 2006, p. 107).

Por sua riqueza em cenários, a obra é considerada seminal para o romance moderno. A partir de Dom Quixote, as novelas contemplam uma temática ampla, com enfoques psicológicos, sociais, bucólicos, satíricos, picarescos, policiais e misteriosos.

No século XX, a novela ganha uma importância imperativa ao compor outros gêneros populares. Passam a ser sufixos dos aparatos tecnológicos e são nomeadas como radionovela, telenovela e webnovela. Pode-se dizer que as novelas contemporâneas misturam tragédia, drama, epopéia, comédia, ou seja, bem diferente da novela de cavalaria, a responsável pela etimologia dos gêneros atuais. O depoimento do escritor e roteirista Marcos Rey à pesquisadora Samira

14 Título original:

Youssef Campedelli esclarece a apropriação indevida do vocábulo novela, principalmente pelos meios de comunicação do Brasil.

O termo novela foi equivocadamente incorporado pelo rádio às suas narrativas quilométricas. Depois, a televisão cometeu outro equívoco em cima do primeiro e ficou com o nome. Como se sabe, o rádio copiou o gênero das similares cubanas e mexicanas. Só que o termo, no idioma espanhol, é igual a romance. No inglês moderno também. Para a história curta, estes idiomas têm outros vocábulos. Com relação à telenovela, o certo seria chamá-la de follhetim (apud CAMPEDELLI, 1985, p. 19).

A novela tem algumas características marcantes, como pluralidade e sucessividade dramáticas. Cada unidade dramática tem início, meio e fim. Uma depende da outra; portanto, não são tratadas de forma autônoma. Os casos são resolvidos ao longo da novela. O tempo é histórico, ordenado cronologicamente pelo relógio, calendário ou convenções sociais. A trama se desenvolve no presente com pinceladas do passado. O espaço também é plural, as personagens transitam por múltiplas geografias. A linguagem é simples, cotidiana, natural, direta, apresentada através de diálogo, narração, descrição e dissertação. A variedade dramática proporciona o aparecimento freqüente de muitos protagonistas centrais e personagens secundários. Os autores utilizam técnicas que imprimem um ritmo frenético à obra. O objetivo é prender a atenção da audiência até o final, isso porque “nenhuma narrativa é natural, presidem sempre ao seu aparecimento uma escolha e uma construção; é um discurso e não uma série de acontecimentos” (TODOROV, 1979, p. 71).

Historicamente, a novela não goza do mesmo prestígio de um de seus parentes mais próximos: o romance. Mas tanto um quanto o outro desfrutam de bom trânsito entre os leitores burgueses, principalmente no período romântico. A palavra romance também torna-se polissêmica ao longo do tempo. É na Idade Média que começa a ser observada essa diacronia.

A palavra “romance” deve ter originado do provençal romans,

que deriva por sua vez da forma latina romanicus; ou teria vindo de romanice, que entrava na composição de romanice loqui (“falar

romântico”, latim estropiado no contato com os povos conquistados por Roma), em oposição a latine loqui (“falar latino”, a língua empregada na

região do Lácio e arredores). O falar romance passou a designar, no

curso da Idade Média, as línguas dos povos sob domínio romano, em lenta mas inexorável autonomização. Com o tempo, a expressão passou a indicar a linguagem do povo em contraste com a dos eruditos. Mais

adiante, acabou rotulando as composições literárias de cunho popular, folclórico (MOISÉS, 2006, p. 157, grifo do autor).

O conceito e a estrutura do romance, como se entendem em nossos dias, surgem em meados no século XVIII com as primeiras manifestações românticas. É um dos gêneros mais adotados no Romantismo, isso porque se encaixa perfeitamente com os novos ares da época de insatisfação com a Renascença. O romance é a epopéia da burguesia.

O romance aparece, pois, no século XVIII, na Inglaterra, identificado com a revolução romântica. A História de Tom Jones (1749),

de Henry Fielding, tem sido considerada a obra introdutora do novo gosto, embora comprometida ainda com a técnica da novela. Se alguma obra anterior merece referência como precursora do romance, é A Princesa de Clèves (1678), de Madame de Lafayette, não obstante o

jogo das paixões e sentimentos, enquadrado no cenário da monarquia francesa do século XVII, faça lembrar a tragédia clássica contemporânea, notadamente a de Corneille (MOISÉS, 2006, p. 160).

O romance, de forma perspicaz, externa ambições, desejos, antagonismos, mazelas, enfim, a ambiência sócio-histórica da burguesia. Sem se dar conta que são os protagonistas das obras, os burgueses “assistem ao espetáculo da própria vida como se fora alheia” (MOISÉS, 2006, p. 159). Elegem, assim, o romance como um dos passatempos preferidos. A temática do gênero romanesco vai desde obras que tratam de comportamento, convenções sociais da época até críticas contundentes ao sistema vigente. Todos esses elementos estão presentes na obra de Balzac, considerado um dos primeiros e mais expressivos romancistas modernos. Em A Comédia Humana, produzida entre 1829 e 1850, o

autor descreve, analisa e critica a sociedade burguesa da época. Diacronicamente, o romance é um dos gêneros que mais fielmente retrata a sociedade moderna e contemporânea, porque permite o trânsito de outras formas genéricas.

O romance admite introduzir na sua composição diferentes gêneros, tanto literários (novelas intercaladas, peças líricas, poemas, sainetes dramáticos, etc.), como extraliterários (de costumes, retóricos, científicos, religiosos e outros [...] os gêneros introduzidos no romance conservam habitualmente a sua elasticidade estrutural, a sua autonomia e a sua originalidade lingüística e estilística. Porém, existe um grupo especial de gêneros que exercem um papel estrutural muito importante nos romances, e às vezes chegam a determinar a estrutura do conjunto criando variantes particulares do gênero romanesco. São eles: a confissão, o diário, o relato de viagens, a bibliografia, as cartas e alguns outros gêneros (BAKHTIN, 1998, p. 124).

Os gêneros extraliterários, que fazem parte do cotidiano das pessoas, com seu caráter aliterário abrem a possibilidade de introduzir no romance uma linguagem não literária (até mesmo um dialeto).

O romance com a sua pluralidade genérica aporta tardiamente em alguns países, como no Brasil, onde aparece somente em meados do século XIX. Por conta da confusão teórica que delimita os gêneros, os críticos ainda não chegaram a um consenso sobre a obra que inaugura o romance brasileiro. Uns consideram que a trajetória romanesca nacional começa em 1843 com a publicação de O Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa.

Outros entendem ser a obra um folhetim, e tem ainda aqueles, como Massaud Moisés, que a classificam como novela15. A maioria dos estudos literários, no entanto, aponta A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo, como

marco inicial o romance brasileiro. Opiniões e discussões à parte, não há dúvida que “o romance macediano é brasileiro antes de ser romance, ou se quisermos, reflete mais condições e peculiaridades nacionais do que consciência e preocupações literárias” (MARTINS, 1977, v. II, p. 300). A partir de A Moreninha,

surgem outras obras marcantes na literatura brasileira, como: Memórias de um sargento de Milícias (1852), de Manuel Antônio de Almeida; O Guarani (1857), Iracema (1865) e O Gaúcho (1870), de José de Alencar; O Seminarista (1872) e Escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães; Ressurreição (1872), A Mão e a Luva, Helena, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891)

e Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis; Uma tragédia no Amazonas

(1880) e O Ateneu (1888), de Raul Pompéia; O Mulato (1881) e O Cortiço (1890),

de Aluísio de Azevedo, entre outras.

Por conta do alto índice de analfabetismo no Brasil16, os livros têm uma

tiragem inexpressiva, em média mil exemplares. Em São Paulo, por exemplo, entre 1900 e 1922 são publicadas 92 obras, entre romances, novelas e contos17. Os escritores não conseguem viver da venda de livros. A maioria exerce outras atividades, como magistério e cargos públicos, ou seja, no Brasil o desenvolvimento da literatura se encontra estreitamente ligado à burocracia do

15 Cf. MOISÉS, 2006, p. 110.

16 Cf. ORTIZ (1988, p. 28), em 1890, 84% da população era analfabeta. Em 1920, 75%, e em

1940, 57%.

Estado. A partir da década de 40, a literatura deixar de estar atrelada à ideologia. Os veículos de massa ajudam nessa mudança. Os escritores passam a ser conhecidos pelos jornais, principalmente através da publicação de obras folhetinescas; mais tarde, radionovelas e telenovelas.

O romance, assim como a novela, é construído dialogicamente com os agentes que compõem o ambiente sócio-histórico, como autores, sociedade e aparatos tecnológicos. Por isso, esses gêneros são apontados como a expressão ficcional que melhor retrata a realidade de um determinado período histórico. O gênero narrativo, predominante na novela e no romance, favorece esse retrato- de-época. Essa característica dialógica contemporânea presente em novela e romance também é inerente ao ser humano. Isso garante a permanência dos dois gêneros.