• Sonuç bulunamadı

B. FURKÂN VE RĠSALET

2. Peygamber Bir Kuldur

A pesquisa que apresentamos nesta tese não pretendeu ser exaustivamente descritiva. A postura que assumimos aqui foi a de uma investigação indicial, que analisa as recorrências, as repetições, os modelos comportamentais que deixam transparecer as coordenadas que sobredeterminam o fenômeno. Partindo de uma seleção de manifestações do campo, lascas do cotidiano que acabam por ser descartadas e esquecidas, procuramos investigar de que modo estão consteladas as posições e disposições que sobredeterminam as ações dentro do campo.

Pudemos perceber como alguns dos aspectos que revelam a importância da instância editorial, das relações de poder entre recém-chegados e estabelecidos, e da economia de trocas simbólicas realizadas pelos agentes, são fortemente denegados, tornando o fenômeno opaco. Mas a partir das brechas discursivas e de ato, pela coleta de pistas investigativas, pudemos promover uma tentativa de compreensão da dinâmica constitutiva de nosso objeto, traçando os contornos de sua forma. Como ensina Ginzburg, “se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la” (GINZBURG, 2007 [1979], p. 177).

A abordagem operacionalizada nas análises que apresentamos parte do pressuposto de que cada uma das manifestações do campo traz consigo, em sua forma, as marcas das pressões, posições e disposições das relações objetivas e constitutivas do campo. Tal abordagem se aproxima do método empregado por Eric Auerbach em sua investigação da representação da realidade na literatura ocidental, no qual o objeto de estudo – que nesta tese foram as estratégias e as posições dos recém-chegados – pode ser investigado mediante a seleção de qualquer uma das manifestações do objeto. Neste sentido, a avaliação que Auerbach faz de seu método encontra ressonância nos movimentos analíticos aqui apresentados:

[...] o método de me deixar dirigir por alguns motivos de forma paulatina e despropositada e de pô-los à prova mediante uma série de textos [...] parece-me fecundo e factível; pois estou convencido de que aqueles motivos fundamentais da história da representação da realidade, se os vi corretamente, devem poder ser encontrados em qualquer texto realista escolhido ao acaso.

No capitalismo maduro/tardio, o “inovador literário” não poderia aparecer com outra forma além daquela do “empreendedor literário”, tal como analisamos. Uma vez que todas as relações são mediadas pelo mercado, todas as ações e posições são expressas, também, em “formas mercadológicas”. É por esse motivo que os autores-editores de uma incubadora precisam se valer do princípio do empreendedor-inovador (marcados pela coragem, iniciativa, etc., elementos esses celebrados pela ideologia capitalista) para suprir uma demanda de mercado, a partir da qual são geradas e mantidas as disposições necessárias ao surgimento desse agente.

Também pudemos analisar como se articulam as questões relativas à posição do produtor literário, cuja parcela no mercado total é reduzida, mas que detém o monopólio da hierarquia simbólica dentro do campo. Neste sentido, as incubadoras são apenas uma das vias de acesso ao campo. Talvez sejam a via de maior risco, porém os dividendos simbólicos são maiores do que os conseguidos por outras vias (concursos, prêmios), assim como a magnitude das modificações exercidas sobre o campo e a circulação de produtos simbólicos é muito maior do que o apresentado em outras estratégias disponíveis ao recém-chegado.

Como pudemos perceber, uma das características mais importantes apresentadas por uma configuração de incubadora literária é seu papel de conversor de capital específico: ao investir na criação e manutenção de uma incubadora, os participantes demonstram, frente ao campo, sua habilidade no reconhecimento e aceitação das regras do jogo que estruturam o campo literário, colocando em evidência não apenas seus produtos culturais, como também a incorporação e exposição das disposições que conformam o habitus específico do campo. Tomadas de posição, estabelecimento de relações polissistemáticas com o campo, construção da marca autoral, participação efetiva na vida literária, são todos índices que constituem o autor literário e sua produção.

Essa atividade das incubadoras literárias engloba muitos dos elementos e estratégias necessárias à entrada no jogo do campo literário. Neste sentido, foi possível analisar como se deu a acumulação simbólica na série histórica do campo literário brasileiro, elencando momentos de transição nos quais pudemos evidenciar as transformações pelas quais a posição de recém-chegado passou durante o desenvolvimento histórico do campo. Atualmente, as incubadoras literárias ocupam uma posição de interface entre o campo literário estabelecido e consagrado, o campo acadêmico e educacional (incluindo a instituição da Escrita Criativa), e o campo mais amplo da cultura e da comunidade letrada. A

partir desta constelação de fatores, tais empreendimentos realizam as mediações necessárias à circulação de produtos (obras, autores, posições, estratégias) e amplificam os ganhos simbólicos de seus participantes.

Mesmo assim, nem todas as incubadoras literárias conseguem alcançar um estado de desenvolvimento pleno. Ou seja, mesmo que uma incubadora literária estruture a agência de seus fundadores e direcione suas práticas em direção ao objetivo pretendido (estabelecer-se no campo), há um descompasso entre as habilidades e capitais específicos necessários à fundação de um empreendimento deste tipo e as habilidades e capitais que garantem seu sucesso. Por outro lado, há empreendimentos que ultrapassam suas condições iniciais, como foi o caso da Não Editora, que em sua agência foi capaz de gerar, como subproduto, um empreendimento com moldes mais industriais, a editora Dublinense. Tal editora não é exatamente uma incubadora, mesmo que acolha autores recém-chegados. Trata-se de uma extensão do domínio da luta pelo espaço de sobredeterminação do campo que parte da experiência e acúmulo de capitais possibilitado pela Não Editora, que são mobilizados em outro empreendimento de feição abertamente comercial. O capital simbólico da incubadora Não Editora se mantém resguardado, pois os títulos que publica pretendem se diferenciar dos produtos da Dublinense, cujo objetivo principal é servir como uma plataforma de autopublicação. Em certo sentido, a Não Editora obteve tanto “sucesso” que suas condições de existência (formação do público, interesse por parte dos produtores em fazer parte do empreendimento, relações estáveis com outros agentes legítimos e consagrados do campo) serviram como as disposições que possibilitaram a fundação da Dublinense.

Outra característica do fenômeno que fica evidente, depois do processo analítico aqui empreendido, é o fato de que o tamanho de um empreendimento dentro do campo literário depende de condições que vão além de sua gestão empresarial em sentido mais estrito. As armas e estratégias empregadas na disputa por espaços simbólicos possuem uma dinâmica que só pode ser compreendida através de uma abordagem que leve em conta as transações de capital simbólico. Pudemos também perceber, mediante análise do campo literário no século XX e no ciclo contemporâneo, que o fator mais importante para o desenvolvimento literário é o estabelecimento funcional das coordenadas estruturantes do campo. A existência ou inexistência de uma “vida literária saudável” se encontra sobredeterminada pela constituição desta estrutura. Desta forma, foi possível estabelecer

um paralelo comparativo entre o ciclo de 1930 e a dinâmica apresentada por este nicho do campo, ocupado pelas estratégias de inserção dos recém-chegados e seus empreendimentos.

Contrariando em parte uma visão precária do campo literário, pudemos perceber que, mesmo na precariedade, as condições para o desenvolvimento do campo se encontram em atividade. Corresponde a um momento de interesse, por parte do poder público e da iniciativa privada no investimento simbólico e monetário para a manutenção de um mercado de bens simbólicos que, se não é de acesso universal, tem dimensões consideráveis, capaz de atingir a nona posição do ranking mundial91. As fusões empresarias promovidas entre empreendimentos nacionais e estrangeiros (como é o caso da união entre o conglomerado editorial Penguin Random House e a Companhia das Letras) são também um indício e uma condição para essa maturação.

O campo literário brasileiro vêm se desenvolvendo gradativamente, graças também a iniciativas de celebração do fazer literário, como é o caso da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada anualmente desde 2003. É preciso também mencionar a importância da Lei Rouanet, promulgada em 1991, que, embora ainda hoje suscite polêmicas, dinamizou a paisagem cultural, incentivando empresas privadas e pessoas físicas a destinar parte do Imposto de Renda ao patrocínio de atividades artísticas. O impacto simbólico dessas iniciativas estimula a criação de inúmeros eventos semelhantes em várias regiões do país, sendo que atualmente contamos com mais de 100 festivais, feiras e encontros anuais dedicados exclusivamente à literatura. Premiações, bolsas de criação e tradução, movimentam financeiramente e simbolicamente o cenário literário, distribuindo os capitais acumulados entre os diversos agentes que disputam o espaço do campo, além de criar os meios pelos quais os produtos do campo serão celebrados.

A forma pedagógica representada pelas Oficinas Literárias é hoje uma obviedade corriqueira, assim como o número de incubadoras literárias em atividade, um indício de que a dinâmica específica do campo literário, tal como explicitada por esta pesquisa, continua em atividade, além de servir como evidência parcial de que tal dinâmica pode ser considerada um dos componentes estruturantes do campo literário brasileiro

91http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/75752-mercado-de-livros-cresce-e-ja-aparece-como-9-no- mundo.shtml – Anexo, p. 280

contemporâneo – o que, por sua vez, sinaliza um estado no qual, mesmo sob condições historicamente precárias, o campo literário no Brasil atinge um nível de autonomização e sofisticação comparável, positivamente, àquele encontrado em outros países de porte semelhante.

Neste momento de encerramento, depois de termos expandido ao máximo nossa atenção, investigando a multiplicidade de linhas de força (sociais, simbólicas, históricas) cruzadas e entrecruzadas na tensão constitutiva do tecido do campo literário, podemos retornar ao gesto primeiro, que dispara a expansão do ponto inicial, onde tudo se concentra em potencialidade e a partir do qual se originam as constelações que preenchem o horizonte de nossas práticas cotidianas. Pegue um livro, qualquer livro.