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Pasiflerin tespit edilmesi

8. KATILMA ALACAĞI (ARTIK DEĞER)

8.2. Artık Değerin Belirlenmesi

8.2.2. Pasiflerin tespit edilmesi

Na mesma ocasião em que a rede direta de creches do município recebeu um impulso significativo, no início dos anos 80, iniciou-se no país um período de acentuadas dificuldades no plano econômico. Logo nos três primeiros anos da década, o país passou por um período de forte recessão, que representou um duro golpe em uma economia até

então “habituada” às altas e praticamente ininterruptas

taxas de crescimento verificadas nas duas décadas

anteriores. Estas dificuldades tiveram reflexos imediatos nas finanças públicas dos três níveis de governo do país.

Conforme mostram os números apresentados na tabela 1, entre 1980 e 1995 o PIB brasileiro cresceu 34,0%, resultado em larga medida devido à recuperação econômica iniciada em 1993. Já em termos de PIB per capita o valor observado em 1995 foi apenas 2,0% superior ao de 1980, tendo oscilado

negativamente em vários anos do período analisado,

resultando em uma média anual do período em torno de R$4.000 27.

27 Todos os valores monetários apresentados no texto e

nas tabelas deste capítulo estão expressos em reais (R$) de 1995, e para a atualização dos mesmos a esta data foi utilizado como base o deflator do PIB. Ao câmbio médio deste ano, R$1,00 correspondia a aproximadamente US$1,092.

Tabela 1 - Indicadores básicos de crescimento econômico e de execução orçamentária - Brasil e Município de São Paulo: 1980-1995 (valores em milhões de reais aos preços de 1995) 1

ano ou Brasil município de São Paulo

período PIB per

capita (em R$)

PIB receitas (2) despesas (2) déficit (3) receitas

municipais despesas municipais déficit (3) 1980 4.142,0 491.120,9 115.045,1 110.647,5 -4.397,6 2.393,2 2.394,0 0,8 1981 3.881,0 470.312,9 113.211,1 107.982,4 -5.228,7 2.373,8 2.454,5 80,6 1982 3.830,5 474.296,2 118.259,8 119.964,8 1.705,0 2.354,8 2.398,0 43,3 1983 3.636,9 460.363,5 116.086,2 122.870,5 6.784,3 2.107,4 2.320,5 213,2 1984 3.754,7 485.289,4 113.583,8 128.836,3 15.252,6 2.110,6 2.374,7 264,1 1985 3.965,2 523.450,3 119.863,9 164.996,3 45.132,5 2.326,3 2.570,4 244,1 1986 4.179,9 562.609,9 139.367,4 181.215,0 41.847,6 2.353,1 2.818,4 465,3 1987 4.245,0 582.486,6 151.961,3 189.074,3 37.113,1 2.796,5 3.086,0 289,5 1988 4.165,0 582.098,3 152.904,6 230.797,1 77.892,5 2.969,4 4.037,6 1.068,2 1989 4.221,5 600.502,9 169.579,4 299.921,0 130.341,5 3.330,4 3.854,9 524,5 1990 3.969,7 574.378,0 188.836,4 251.496,3 62.659,9 3.547,4 4.616,5 1.069,1 1991 3.919,5 576.353,0 167.610,3 169.837,9 2.227,7 4.495,2 4.779,4 284,2 1992 3.827,9 571.618,4 193.449,4 220.811,6 27.362,2 3.971,2 4.685,1 713,9 1993 3.930,1 595.577,1 250.499,3 248.880,2 -1.619,1 3.872,4 4.102,7 230,2 1994 4.107,1 631.248,0 n.d. n.d. n.d. 4.420,3 4.802,7 382,4 1995 4.223,7 658.141,2 n.d. n.d. n.d. 6.151,3 5.826,3 -325,0 média 80-95 4.000,0 552.490,4 150.732,7 181.952,2 31.219,5 3.223,3 3.570,1 346,8 valor índice (4) 1980-82 98,8 86,6 76,6 62,0 -8,5 73,6 67,7 12,0 1983-85 94,6 88,6 77,3 76,3 71,7 67,7 67,8 69,3 1986-88 104,9 104,2 98,2 110,1 167,5 84,0 92,8 175,2 1989-92 99,6 105,1 119,3 129,4 178,2 119,0 125,6 186,8 1993-95 (5) 102,2 113,7 166,2 136,8 -5,2 149,4 137,5 27,7 taxa anual de cres-

mento média (6) 1981-82 (7) -3,8 -1,7 1,4 4,3 -2,3 (6) -0,8 0,1 1,8 (6) 1983-85 1,3 3,4 0,5 11,8 19,0 (6) 0,0 2,4 11,0 (6) 1986-88 1,7 3,6 8,6 12,1 35,1 (6) 8,7 16,7 22,0 (6) 1989-92 -2,1 -0,4 6,6 2,8 31,4 (6) 8,4 4,2 17,5 (6) 1993-95 (5) 3,3 4,8 29,5 12,7 -0,6 (6) 16,9 8,6 3,1 (6)

Fontes: Banco Central do Brasil, dez.1996; Fundação IBGE, 1994; São Paulo (cidade), Secretaria de Finanças, 1980 a 1995. Notas: (1) - Para a conversão aos preços de 1995 foi utilizado como base o deflator do PIB.

(2) - Expressa o agregado das receitas e despesas fiscais realizadas no país pelos três níveis de governo. (3) - Os valores negativos indicam ocorrência de superávit.

(4) - Média 1980-1995 = 100.

(5) - Para o agregado das receitas e despesas fiscais do país, dados relativos a 1993.

(6) - Expressa a média dos crescimentos verificados em cada ano do período. No caso dos dados relativos às colunas “déficit”, os valores não expressam esta taxa, mas representam o percentual do déficit/superávit sobre o total das receitas.

(7) - Não foram obtidos os dados orçamentários do município para 1979, inviabilizando a inclusão do ano de 1980 neste cálculo.

(n.d.) - Dado não disponível.

Este quadro de relativa estagnação deveu-se às crises econômicas ocorridas em dois períodos deste intervalo de R$1,00 era igual a US$0,861 (Banco Central do Brasil, dez.1996).

tempo. A primeira, em 1981-83, resultou em uma queda de 6,2% do PIB real do país, enquanto que em 1990-92 esta queda foi de 4,8%. As recuperações observadas nos períodos 1984-89 (30,4%) e 1993-1995 (15,1%) não foram suficientes para elevar significativamente o PIB per capita brasileiro, ainda que o país tenha experimentado significativas quedas nas taxas de crescimento demográfico em relação às décadas anteriores.

No primeiro período de crise, as receitas

orçamentárias do conjunto dos três níveis de governo do país seguiu praticamente a mesma tendência de crescimento do PIB, situando-se ainda em 1984 em patamar inferior àquele verificado para 1980. Mas a partir de 1986, quando a recuperação econômica já era uma realidade, e a inflação foi relativamente controlada, ainda que por curto período, com o advento do Plano Cruzado, as receitas fiscais do país assumem uma curva ascendente ainda mais acentuada que o próprio ciclo econômico. Note-se que entre 1984 e 1990 o crescimento do bolo orçamentário dos três níveis de governo foi de nada menos que 66,3%, e apesar da considerável queda observada em 1991, talvez já como reflexo do segundo período de crise econômica, em 1992, ainda com o PIB declinante, as receitas atingem a marca histórica de mais de R$193 bilhões, isto para não citar como exemplo o ano seguinte (1993), considerado atípico pela arrecadação recorde de mais de R$250 bilhões então observada no país, quando se inicia novo ciclo de recuperação das taxas de crescimento econômico.

Este crescimento na arrecadação do país resultou em taxas anuais médias de crescimento das receitas públicas superiores a 7% a partir de 1986, quando ocorreu a primeira tentativa de contenção inflacionária através de choques econômicos no período recente. É assim que a capacidade

extrativa do estado brasileiro cresce consideravelmente, saltando do patamar de 23,4% do PIB observado em 1980 para nada menos que 33,8% em 1992. Este considerável aumento da arrecadação é muito importante pois indica que a assim chamada crise fiscal não se deve, no caso brasileiro, a um suposto declínio da capacidade tributária do país.

Por outro lado, apesar do significativo aumento desta capacidade, o Brasil situa-se ainda em patamares baixos de arrecadação de impostos na comparação com as economias mais desenvolvidas do planeta, que praticamente extinguiram, no interior de suas fronteiras, a pobreza tradicionalmente conhecida como tal. Embora alerte que as diferenças quanto às formas de arrecadação e de distribuição dos recursos sejam importantes fatores de desenvolvimento social, Przeworski avalia que

“(...) seja como for, gostem ou não os contribuintes, 40% a 45% do PIB é quanto custa um país ser civilizado. As comparações internacionais sobre incidência de

pobreza de ‘Luxembourg Income Studies’ nos mostram que

essa incidência não é mera questão de renda média. Não incluo entre os países civilizados os Estados Unidos da América, que têm renda per capita de US$22.204 e gastos públicos de aproximadamente 30% do PIB (incluído o pagamento de juros), porque eram pobres, em meados de 1990, 18% de toda a população dos EUA, 19,3% das famílias com crianças e 58,9% dos lares sustentados por mulheres sozinhas. Já na Suécia, que tem renda per capita de US$16.729 e onde o governo gasta quase duas vezes mais (59% do PIB), 8,2% de todos os adultos e apenas 3,2% das famílias com crianças eram pobres. A incidência de pobreza entre famílias com crianças chegava a 3,6% na Noruega, com gastos públicos de aproximadamente 52% do PIB; a 4% na Holanda (45% do PIB, em média), a 4,2% na Alemanha (45% em média), a 6,8% na França (47% em média) e a 9,4% no Reino Unido

(38% em média)” 28.

28 Extraído de Przeworski, Adam, “O que os países

civilizados têm em comum”, artigo publicado no jornal Folha

É claro que as cifras brasileiras longe estão de atingir qualquer uma destas marcas, tornando a comparação com estes países pouco frutífera em termos práticos. Mas os exemplos mostram que, no nosso caso, é necessário conjugar crescimento econômico, distribuição de renda e aumento da capacidade fiscal do estado. Além destes ingredientes, é indispensável adicionar a esta receita melhorias na qualidade do gasto público, pois como mostram os dados da tabela 1, no período analisado as despesas públicas cresceram em velocidade ainda maior que a capacidade de arrecadação, provocando contínuos déficits públicos em pelo menos todo o período que vai de 1982 e 1992. E apesar dos bons resultados observados em 1993, nada indica que o quadro de déficit orçamentário tenha se alterado nos anos seguintes.

É assim que, comparativamente às receitas, as despesas públicas no Brasil apresentam uma evolução não apenas mais rápida e acentuada, como também um comportamento mais oscilante. Note-se que o gasto público no agregado dos três níveis de governo praticamente dobrou em termos reais entre 1980 e 1992. Como proporção do PIB, as despesas governamentais cresceram de 22,5% para 38,6%, o que não é pouco em um período de 13 anos. Ao contrário da evolução das receitas, que seguem, até a metade da década passada, uma tendência similar de crescimento/declínio à observada para o próprio PIB, as despesas já em 1982 iniciam uma curva ascendente mais acentuada, o que gerou os grandes déficits orçamentários persistentes durante toda a década. Ao mesmo tempo, as oscilações no gasto público resultaram que, em 1989, elas atingissem aproximadamente 50% do PIB, voltando a declinar tanto em termos relativos quanto em termos absolutos.

Em todo este período, o fator que mais contribuiu para o aumento do déficit foi a própria necessidade de financiamento do setor público, com o pagamento dos juros da dívida interna atingindo patamares bastante elevados.

Segundo as “Contas Nacionais”, as despesas com o pagamento

destes juros, que consumiram anualmente em média 5,9% das receitas correntes do país no período 1970-79, passaram a representar nada menos que 35,2% destas mesmas receitas, também em termos médios, entre 1980 e 1993 (Fundação IBGE, 1994). No pico deste movimento situa-se o ano de 1989, quando o pagamento dos juros da dívida pública interna representaram, em termos nominais, nada menos do que 85,9% das receitas correntes do país, com déficit público atingindo a casa dos 21,7% do PIB brasileiro. O ritmo de crescimento das despesas públicas brasileiras sofre uma significativa desaceleração apenas no início dos anos 90, o que permitiu que o déficit público retornasse a patamares mais controlados. O gráfico 1 ilustra bem este “descompasso” entre o aumento das receitas e o das despesas públicas verificado no período aqui analisado.

Gráfico 1 - Indicadores de execução orçamentária (em %) - Brasil e São Paulo

0 10 20 30 40 50 19 80 19 81 19 82 19 83 19 84 19 85 19 86 19 87 19 88 19 89 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 re ce it a s e d es p es a s d o p a ís 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 re ce it a s e d es p es a s d o m u n ic íp io d e S P

receitas do país / PIB despesas do país / PIB receitas do município / PIB despesas do município / PIB receitas do município / receitas do país despesas do município / despesas do país

E as finanças municipais em São Paulo, como se comportaram neste período? Voltando à tabela 1 veremos que as receitas e as despesas do município apresentaram trajetória similar à verificada para o agregado das contas públicas brasileiras.

No caso das receitas, ocorreu significativo

crescimento a partir da segunda metade dos anos 80, e apesar das quedas nos anos de 1992 e 1993, as receitas retornam à curva ascendente já em 1994, ano do Plano Real,

quando após sucessivas e fracassadas tentativas de

contenção da inflação, inicia-se um período de estabilidade monetária mais sólida. Desconsiderando 1995, que pode ser atípico pelo brutal aumento das receitas, entre 1980 e 1994 a arrecadação municipal aumentou 84,7% em termos reais. O crescimento da receita neste período foi importante tanto em termos absolutos, pois saltou de aproximadamente R$2,4 bilhões para R$4,4 bilhões, quanto em termos relativos, uma vez que passou a significar 0,70% do PIB brasileiro em 1994, ao passo que em 1980 representava aproximadamente apenas 0,49% deste mesmo indicador.

Ainda que a taxa média anual de crescimento das receitas neste período, de aproximadamente 4,48%, tenha sido bastante inferior àquela verificada na década de 70 - de 1970 a 1979 a taxa anual média de crescimento das receitas municipais em São Paulo foi da ordem de 8,64% (São Paulo, Estado, 1980b) -, deve ser entendido que, de fato, tendo como pano de fundo as taxas de crescimento econômico do país observadas nos dois períodos, a evolução das receitas municipais foi surpreendente nos anos 80 e primeira metade dos 90. Lembre-se que o PIB per capita brasileiro cresceu 6,6% ao ano, em média, entre 1970 e

consideravelmente superior ao do período subseqüente (1980- 1995), no qual a taxa média anual de crescimento deste mesmo indicador situou-se em modestos 0,13% (Banco Central do Brasil, 1996; Fundação IBGE, 1994; Fundação IBGE, 1996). Mas também no município de São Paulo o crescimento das despesas foi mais rápido. No período 1980-84 elas praticamente mantiveram-se estacionadas de forma que na realidade o aparecimento de déficit resultou da queda nas receitas. Mas a partir daí, a curva ascendente das despesas antecipa-se à das receitas, de forma que no período de governo de Jânio Quadros (1986-1988), o déficit municipal correspondeu, em termos médios, a 22,0% das receitas. Um maior controle sobre o déficit esboça-se apenas no início dos anos 90, mas nem por isso as despesas municipais declinaram, seja em termos absolutos, seja em termos relativos, como bem ilustra sua curva em relação ao PIB apresentada no já referido gráfico 1.

Deve ser observado ainda que, comparativamente ao movimento das finanças públicas no agregado dos três níveis de governo, com maiores oscilações tanto no lado das receitas quanto no das despesas, as finanças do município apresentam uma tendência mais constante de crescimento. Assim é que a participação do orçamento municipal de São Paulo, que representou em média algo em torno de 2,0% do bolo orçamentário do país (2,1% das receitas e 2,0% das despesas), oscilou mais em função das bruscas mudanças no agregado das finanças dos três níveis de governo do que propriamente em razão das alterações que ela própria sofreu ao longo do período aqui analisado.

Como demonstram as taxas anuais de crescimento médias, ainda na tabela 1, os períodos de governo de Reynaldo de Barros e de Mario Covas foram marcados por uma relativa

verificados a partir de 1980, com pequena queda das receitas no governo do primeiro e pequeno aumento das despesas no governo do segundo, quando o déficit já passou a situar-se em torno de 11,0% do volume arrecadado.

Já no período Jânio Quadros há um considerável incremento das receitas, mas as despesas evoluem a um ritmo duas vezes maior, provocando, conforme apontado, um déficit médio da ordem de 22% das receitas, o maior verificado entre os cinco períodos de governo aqui analisados.

No período de Luiza Erundina, o ritmo médio de crescimento das receitas foi mantido, comparativamente ao governo anterior (pequena queda de 8,7% para 8,4% ao ano), mas caiu consideravelmente o incremento das despesas, e embora elas tenham continuado crescendo em média 4,2% ao ano, este ritmo de crescimento anual foi quatro vezes menor que o observado no governo anterior (16,7%). O resultado é que, ainda que tenha se mantido alto, o déficit caiu para 17,5% das receitas. Destaca-se o ano de 1991, quando as receitas atingiram quase R$4,5 bilhões, valor que só foi superado quatro anos depois.

Os três primeiros anos do período Paulo Maluf foram os de maior incremento das receitas, com a taxa média de crescimento anual superando a marca de 16,9%. Este resultado foi em grande parte devido ao salto de 39,2% nas receitas em 1995 na comparação com o ano anterior, o que resultou em superávit de aproximadamente 10,8% das receitas neste ano. Na média dos três anos, as despesas também voltaram a subir 8,6% ao ano, resultado também fortemente influenciado pelo crescimento de 21,3% ocorrido em 1995. Como resultado deste cenário, nos três primeiros anos deste governo o déficit foi melhor controlado, atingindo o patamar médio de 3,1% das receitas. Mesmo no biênio 1993- 1994, quando o desempenho das receitas não foi tão bom

comparativamente a 1995, o déficit foi contido em níveis inferiores aos observados na gestão anterior, não chegando a atingir 8,7% em 1994, tendo sido ainda menor no ano anterior.

De uma forma geral, o que se observou a partir dos anos 80, até o período recente, foi sem dúvida alguma um crescimento considerável da importância do setor público na economia e na vida dos cidadãos brasileiros. Se as

dificuldades de caixa implicaram a ocorrência de

consideráveis déficits, tanto no agregado dos três níveis

de governo, quanto no desempenho orçamentário da

municipalidade paulistana, é necessário utilizar com maiores reservas a expressão crise fiscal, tentando-se ao menos caracterizá-la. É certo que no caso brasileiro os anos 80 e a primeira metade dos 90 não podem ser considerados propriamente um período de esgotamento da capacidade de extração fiscal no país. Pelo contrário. Mesmo em uma década marcada por sérias dificuldades de crescimento econômico e grandes surtos inflacionários, a participação do setor público na economia cresceu bastante.

Assim, o perfil de nossa crise fiscal está muito mais diretamente relacionado a um incremento mais forte das despesas comparativamente às receitas, situação que se tornou grave na segunda metade dos anos 80, mas que, conforme os dados indicam, tornou-se menos desequilibrada no período mais recente. A evolução das taxas de crescimento anuais dos valores de execução orçamentária per capita apresentados na tabela 2 é ilustrativa a respeito.

De fato, com a redemocratização do país, o aumento da demanda por serviços resultou em incremento “antecipado” das despesas em relação às receitas, gerando o problema do déficit, que se tornou grave na segunda metade dos anos 80. É claro que no país este resultado foi fortemente

influenciado pela ampliação da oferta de serviços públicos a maiores parcelas da população, e talvez, no caso do

município de São Paulo, também a um “encarecimento” dos

custos de operacionalização da máquina, dada a crescente complexidade administrativa que a manutenção de uma rede de serviços em uma cidade deste porte requer.

Tabela 2 - Indicadores do PIB, receitas e despesas orçamentárias por habitante - Brasil e Município de São Paulo: 1980-1995 (valores em milhões de reais aos preços de 1995) 1

valores per capita taxas de crescimento anual

ano ou PIB Brasil (2) São Paulo (3) PIB Brasil (2) São Paulo (3)

período receitas despesas receitas despesas recei-

tas despe- sas recei- tas despe- sas 1980 (4) 4.142,0 970,3 933,2 281,8 281,9 -- -- -- -- -- 1981 3.881,0 934,2 891,1 276,3 285,7 -6,3 -3,7 -4,5 -2,0 1,3 1982 3.830,5 955,1 968,9 270,9 275,9 -1,3 2,2 8,7 -1,9 -3,4 1983 3.636,9 917,1 970,7 239,7 263,9 -5,1 -4,0 0,2 -11,5 -4,3 1984 3.754,7 878,8 996,8 237,3 266,9 3,2 -4,2 2,7 -1,0 1,2 1985 3.965,2 908,0 1.249,9 258,5 285,6 5,6 3,3 25,4 9,0 7,0 1986 4.179,9 1.035,4 1.346,3 258,5 309,6 5,4 14,0 7,7 0,0 8,4 1987 4.245,0 1.107,4 1.377,9 303,6 335,1 1,6 7,0 2,3 17,5 8,2 1988 4.165,0 1.094,1 1.651,4 318,7 433,4 -1,9 -1,2 19,8 5,0 29,3 1989 4.221,5 1.192,1 2.108,4 353,3 409,0 1,4 9,0 27,7 10,9 -5,6 1990 3.969,7 1.305,1 1.738,2 372,0 484,2 -6,0 9,5 -17,6 5,3 18,4 1991 3.919,5 1.139,8 1.155,0 466,0 495,5 -1,3 -12,7 -33,6 25,3 2,3 1992 3.827,9 1.295,5 1.478,7 410,3 484,0 -2,3 13,7 28,0 -12,0 -2,3 1993 3.930,1 1.653,0 1.642,3 398,7 422,4 2,7 27,6 11,1 -2,8 -12,7 1994 4.107,1 n.d. n.d. 453,6 492,8 4,5 n.d. n.d. 13,8 16,7 1995 4.223,7 n.d. n.d. 629,1 595,8 2,8 n.d. n.d. 38,7 20,9 1980-95 (5) 4.000,0 1.099,0 1.322,0 345,5 382,6 0,2 2,7 5,6 6,3 5,7 média no período 1980-82 3.951,2 953,2 931,0 276,3 281,1 -3,8 -0,7 2,1 -1,9 -1,0 1983-85 3.785,6 901,3 1.072,5 245,1 272,2 1,3 -1,6 9,4 -1,2 1,3 1986-88 4.196,6 1.079,0 1.458,5 293,6 359,3 1,7 6,6 10,0 7,5 15,3 1989-92 3.984,7 1.233,1 1.620,1 400,4 468,2 -2,1 4,9 1,1 7,4 3,2 1993-95 (5) 4.087,0 n.d. n.d. 493,8 503,7 3,3 n.d. n.d. 16,5 8,3

Fontes: Banco Central do Brasil, dez.1996; Fundação IBGE, 1994; São Paulo (cidade), Secretaria de Finanças, 1980 a 1995; São Paulo (cidade), 1996; Jornal O Estado de São Paulo, “‘São Paulo legal’ pára de crescer”, matéria assinada por Rogério Wassermann, 09.03.0997, p.C1.

Notas: (1) - Para a conversão aos preços de 1995 foi utilizado como base o deflator do PIB.

(2) - Expressa o agregado das receitas e despesas fiscais realizadas no país pelos três níveis de governo.

(3) - Receitas e despesas municipais, incluindo-se transferências. Para o cálculo das taxas de crescimento populacionais foram utilizados os dados censitários de 1980, 1991 e 1996, calculando-se as taxas médias de crescimento demográfico para os dois subperíodos aí compreendidos.

(4) - Não foram obtidos os dados orçamentários do município para 1979, inviabilizando a inclusão do ano de 1980 no cálculo das taxas de crescimento anual.

(5) - A média do período não inclui, para o agregado das receitas e despesas do país, a ano de 1993, considerado atípico pela arrecadação recorde. Para 1994 e 1995, dados não disponíveis.

Note-se que com a tendência à crescente municipalização de muitas atribuições governamentais, que já começa a delinear-se no início dos anos 80, o déficit orçamentário no município de São Paulo torna-se superior a 10% das receitas já em 1983, tornando-se crescente a partir de então, e mantendo-se em patamares superiores a esta taxa pelo menos até 1992.

Além disso, o contexto político de abertura do regime e de reintrodução das eleições estaduais (e, posteriormente das eleições para prefeitos das capitais), foram fatores políticos fortemente determinantes no aumento das despesas, pois estimularam a eclosão dos movimentos sociais urbanos por todo o país, aumentando significativamente a pauta de reivindicações populares por serviços e melhorias junto às municipalidades.

Observe-se que, em termos per capita, enquanto o PIB brasileiro praticamente manteve-se estagnado, com pequenas oscilações em torno da média anual de R$4 mil, no agregado dos três níveis de governo as receitas e as despesas per capita cresceram, respectivamente, 33,5% e 58,5% entre 1980 e 1992, isto para não incluir no cálculo o atípico ano de

1993. Na execução orçamentária do município este

crescimento foi ainda maior. Desconsiderando também pela sua atipicidade o ano de 1995, a arrecadação per capita anual municipal evoluiu de pouco mais que R$280 por habitante em 1980 para mais de R$450 em 1994, um salto nada desprezível de 61,0%. No lado das despesas este crescimento foi de pouco mais de R$280 para aproximadamente R$490 no mesmo período, representando um incremento da ordem de 74,8%.

É claro que um fator que contribuiu consideravelmente

para estes expressivos aumentos “per capita” de receitas e

da cidade. Em termos de médias anuais, estas taxas foram de 3,67% na década de 70, mas caíram sensivelmente nos anos 80

(1,16%) e ainda mais entre 1991 e 1996 (0,34%) 29.

Vejamos agora mais atentamente como foi o

comportamento da arrecadação no município de São Paulo. A tabela 3 é ilustrativa a respeito. Em primeiro lugar, nota- se que na média dos dezesseis anos do período analisado, a receita do município de São Paulo esteve dividida, de forma aproximada, nas seguintes proporções: 2/5 provenientes de receitas próprias, outros 2/5 resultantes de transferências

e “outras receitas correntes”, e quase 1/5 oriundo das

receitas de capital.

Segundo os valores índice apresentados ao pé da tabela, calculados com base no crescimento monetário real

da arrecadação, o que se nota é um incremento

indiscriminado de todos tipos de receita nos cinco períodos de governo analisados. O destaque de maior crescimento fica para as transferências da União, que embora de pequeno peso