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1.2. PARLAMENTER DENETİM

1.2.3. Parlamento Tarihimizde Gensoru

Além do valor-notícia de consonância social que certamente foi considerado pela editoria Gerais do JEM quando da seleção e decisão de se produzir uma grande reportagem sobre o tema da exploração sexual de crianças e adolescentes, em Minas Gerais, será que existiria algum outro valor que também pudesse explicar a noticiabilidade de Infância Roubada?

Seria possível afirmar que o crime de exploração sexual infanto-juvenil nas estradas mineiras é um acontecimento rico em valores-notícia ou de forte caráter substantivo? Trata-se de um crime que atinge maciçamente as crianças e jovens deste País? É um crime que afeta o ritmo normal de funcionamento da sociedade? É um crime que desestabiliza a política ou a economia em vigência no Brasil? Nada disso. Acontecendo ou não, sendo noticiado ou não, esse tipo de crime não interfere em absolutamente nada na engrenagem rotineira da sociedade brasileira.

As crianças que são vítimas desse tipo de crime compõem, normalmente, uma categoria social desprivilegiada economicamente ou, em outras palavras, estão inseridas na classe de miserabilidade ou de pobreza deste País.8

Daí se reconhecer que essas vítimas sociais são desprovidas de qualquer notoriedade que justifique a sua noticiabilidade, assim como o que lhes vitima – o crime de exploração sexual – também não é um desvio que se possa classificar como muito próximo da vivência da maioria da população brasileira.

Ou seja, a exploração sexual infanto-juvenil não é um tema que capta o interesse para a leitura de uma reportagem pela proximidade com a experiência de vida do leitor. O grau de proximidade desta matéria é garantido por intermédio da sua construção jornalística que lhe circunscreve às estradas que cortam o Estado de Minas Gerais e as quais percorremos com alguma constância.

Portaria uma reportagem sobre o crime de exploração sexual de crianças e adolescentes alguma novidade para a sociedade? Em tese, nenhuma novidade e nenhuma surpresa. Embora não se possa afirmar que esse tipo de crime seja

8 O que se sabe é que, embora a exploração sexual de crianças e adolescentes, bem como o abuso sexual infanto-juvenil,

perpassem todas as categorias sociais e econômicas, esses tipos de crimes são mais visíveis e melhor evidenciados, estatisticamente falando, nas classes sociais afetadas por graves problemas econômicos e de educação.

comum à experiência cotidiana das pessoas – aliás, nenhum crime o é –, não é possível, por outro lado, conceber que a sociedade veja nele alguma novidade.

Mais uma vez, o aspecto inovador e surpreendente dessa reportagem é conferido pela forma jornalística como o tema é (re) apresentado à sociedade: mediante a divulgação do mapa que identifica as rotas desse tipo de crime nas estradas federais que atravessam o Estado de Minas Gerais e através da estratégia noticiosa da reportagem, a qual lançou mão do envio de uma equipe de repórteres aos locais onde o crime acontece, no Estado. Esses profissionais perambularam pelas rodovias durante uma semana e registraram cenas e captaram depoimentos significativos, que trazem algum teor de novidade e de surpresa a um assunto carente dessas qualidades.

Se não se trata de um assunto novo nem surpreendente, que não mobiliza a atenção do leitor pela proximidade com suas experiências de vida e que também não interfere sobremaneira no ritmo normal de funcionamento social, como então esse tipo de acontecimento garantiu cinco páginas em pleno dia de domingo no Caderno Gerais do Jornal Estado de Minas?

Que outro valor-notícia, além da consonância social já detectada, teria influenciado na decisão da editoria de Gerais de conferir tanto espaço gráfico a um assunto em princípio desgastante e incômodo para a sociedade como o que trata da exploração sexual infanto-juvenil?

A exploração sexual infanto-juvenil é um assunto que desperta a atenção da imprensa porque se enquadra dentro dos critérios substantivos relacionados à negatividade do acontecimento, os quais, para tanto, arregimentam os valores- notícia de transgressão, violação ou infração da ordem estabelecida. Tais características estão presentes em praticamente todos os tipos de crimes ou de práticas desviantes em sociedade e, quando se trata de um desvio que tem como alvo crianças e adolescentes, esse caráter transgressivo é ainda mais valorizado pela coletividade.

4.4.1 Como Infância Roubada lida com a transgressão

Infância Roubada é uma reportagem que se substantiva na transgressão humana. Trata-se aí de uma transgressão social generalizada: a do agressor e a da vítima do crime de exploração sexual, obviamente, mas também a do leitor, a da imprensa e a da sociedade em geral. Estão todos de alguma forma imbricados na transgressão das normas, na extrapolação dos limites, ainda que em graus e de maneiras diferentes.

Enquanto o acontecimento em si é transgressor porque, basicamente, desconhece qualquer lei, a imprensa é especialmente transgressora porque avança em direção ao novo, ou seja, possibilita uma (re) visão inovadora da questão por parte da sociedade a qual, por sua vez, transgride também ao (re) avaliar o problema noticiado pela mídia, sob uma nova ótica e quem sabe, a partir de um outro lugar social.

Ao mesmo tempo, toda a sociedade, quando trata do tema da exploração sexual de crianças e adolescentes, se envolve na trama freudiana e lacaniana da transgressão, no sentido de que torna possível assistir à transgressão do outro sem dela necessitar participar diretamente. Essa não deixa de ser uma equação perversa realizada pela sociedade, mas que, de acordo com os pressupostos psicanalíticos, compensam e equilibram o funcionamento social.

A noção de que as transgressões humanas são notícias está já completamente introjetada no jornalismo. Não é à-toa que os teóricos da comunicação classificam a “transgressão” como um valor-notícia encampado pelo critério substantivo de noticiabilidade, ou seja, um valor duradouro, centralizador e de grande reconhecimento e respaldo social.

Infância Roubada, embora careça de qualidades substantivas importantes para a sua noticiabilidade - como o grau de interferência na rotina social ou de nomes conhecidos envolvidos no acontecimento -, consegue se impor como uma reportagem extensa, em um final de semana, pela natureza de seu conteúdo: negativo e trangressor sob vários pontos de vistas.

É no caráter de negatividade e na sua natureza transgressora, por excelência, que o acontecimento de que trata Infância Roubada se transforma em fato com alto índice de qualidade substantiva: um tipo de qualidade que lhe é

concedida, consensualmente, pela sociedade. Portanto, o crime de exploração sexual infanto-juvenil é notícia não porque os jornalistas assim o querem e o selecionam, numa iniciativa unidirecional, mas porque os jornalistas reconhecem nesse tipo de acontecimento um valor conferido socialmente.

A seleção feita pelo jornalismo, no caso dos acontecimentos de significativo valor substantivo, é uma reiteração do que a sociedade, consensualmente, já selecionou como fato relevante. O que o jornalismo faz, então, é evidenciá-lo, atualizá-lo para o conhecimento do público, denunciá-lo, endossando esse consenso social.

Há que se observar que essa equiparação entre valor social e valor- notícia, no que diz respeito aos acontecimentos da vida ordinária, ocorre no processo de interação entre os veículos de comunicação e a sociedade, o que significa que se trata de uma operação que acontece no meio dessa inter-relação. Tanto a sociedade quanto a mídia tomam parte nesse processo e são por ele afetados.

Afinal, não existe a mídia, aqui, e a sociedade, ali. A mídia está inserida socialmente e se coaduna com seus valores, suas crenças, suas tradições, suas transformações. É graças a essa condição que ela consegue repercutir os fatos sociais de forma sintonizada com o senso comum e se fazer reconhecida por este.

Tomando como referência o disposto por Freud sobre a condição bárbara subsistente no homem civilizado, pode-se dizer que Infância Roubada e, de um modo geral, todas as informações jornalísticas noticiadas com base no valor-notícia da transgressão social, ao municiarem a sociedade de material que lhe possibilite transgredir na fantasia – e, com isso, sublimar o desejo de uma transgressão real -, contribuem para a estabilidade do funcionamento da sociedade no que diz respeito às suas regras de conduta de comportamento sexual.

Ou seja: Infância Roubada endossa e reforça o consenso social sobre o que é permitido e o que não é permitido em sociedade a respeito do exercício da sexualidade dos indivíduos, possibilitando à imprensa ficar moralmente consoante com os valores defendidos pela sociedade.

Infância Roubada, aliás, testemunha a consonância existente entre os

critérios de noticiabilidade da imprensa e os valores fundamentais definidos pela sociedade, numa clara demonstração de que a imprensa não se coloca na contramão social. A sua função é, basicamente, fortalecer os pressupostos

considerados importantes socialmente e, assim, ajudar a cumprir com os dispositivos legais e morais que embasam o funcionamento da sociedade.

Poder-se-ía questionar se o crime de exploração sexual infanto-juvenil ocuparia tanto espaço num jornal, em 1984, ou seja, 20 anos antes da publicação de

Infância Roubada. Essa é uma resposta difícil de ser dada, uma vez que, em 1984, a

sociedade ainda não tinha aprovado a Constuinte de 1988 nem o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é de 1990. A infância e a adolescência com certeza ganharam um outro olhar da sociedade a partir do que ficou disposto nessas duas leis. O jornalismo não ficou imune a essa transformação do significado do que é ser criança e do que é ser adolescente desde a aprovação desses dois importantes documentos legais.

Não se quer dizer com isso que antes do ECA e da Constituinte de 1988 a sociedade brasileira não se interessasse pelas transgressões relacionadas à criança e ao adolescente. Não é isso. A transgressão gera um interesse permanente na sociedade porque ela diz respeito à própria condição conflituosa do ser humano que está entre o respeito às leis e à sua subversão.

Mas, pode ser que, no princípio dos anos 80, no Brasil, a sociedade estivesse mais sintonizada com outros tipos de transgressões. Pode ser que, naquela época, a transgressão infanto-juvenial ainda não estivesse na pauta pública social e, com isso, ainda não contemplasse os critérios de noticiabilidade da imprensa.

Se isso ocorria de fato, é bem possível que o jornalismo não ousasse dedicar cinco páginas nobres de jornal ao tema. De qualquer modo, essa é apenas uma conjectura que serve ao propósito de reafirmar o jornalismo como uma atividade consoante com a sociedade em que se acha inserida e afinada com o que essa sociedade possui de consensual. Para se conhecer de fato como a imprensa brasileira se comportou em relação às notícias sobre o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes, antes da promulgação da Constituinte e do ECA, só mesmo pesquisando a respeito.