As postulações de Vygotsky (1934/2007) a respeito da existência de dois níveis de desenvolvimento – real e potencial – permitiram que esse grande teórico desenvolvesse o conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP), provavelmente a sua mais importante contribuição para o debate educacional. Como bem assinalam os neovygotskyanos Newman e Holzman (2002, p. 82), a ZDP foi a extraordinária descoberta de Vygotsky para a compreensão das atividades exclusivamente humanas, mais especificamente da aprendizagem e do desenvolvimento e sua relação.
Vygotsky assim descreveu a zona de desenvolvimento proximal:
A distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (VYGOTSKY, 1934/2007, p. 97).
A ZDP define o caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornarão funções consolidadas, estabelecidas no seu nível de desenvolvimento real. Nas palavras de Oliveira, (2009), “a zona de desenvolvimento proximal é, pois, um domínio psicológico em constante transformação: aquilo que uma criança é capaz de fazer com a ajuda de alguém hoje, ela conseguirá fazer sozinha amanhã” (p. 62).
O conceito de zona de desenvolvimento proximal, talvez o conceito específico de Vygotsky mais divulgado e reconhecido como típico de seu pensamento, está estreitamente ligado à postulação de que o desenvolvimento deve ser olhado prospectivamente, considerando os processos que já estão embrionariamente presentes no indivíduo. É o que Vygotsky (1934/2007) explica no seguinte fragmento:
A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de “brotos” ou “flores” do desenvolvimento, em vez de “frutos” do desenvolvimento. O nível de desenvolvimento real caracteriza o desenvolvimento mental retrospectivamente, enquanto a zona de desenvolvimento proximal caracteriza o desenvolvimento mental prospectivamente (p. 98).
Segundo Vygotsky (1930/2007), existe uma lei geral do desenvolvimento das funções mentais superiores, que pode ser aplicada em sua totalidade aos processos de aprendizagem das crianças. O autor entende que
um aspecto essencial do aprendizado é o fato de ele criar a zona de desenvolvimento proximal; ou seja, o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança (VYGOTSKY, 1934/2007, p. 103).
Em termos de atuação pedagógica, essa postulação traz consigo a ideia de que o papel explícito do professor de provocar nos alunos avanços que não ocorreriam espontaneamente consiste exatamente em uma interferência na zona de desenvolvimento proximal dos alunos. Nas palavras de Vygotsky (1930/2007),
a zona de desenvolvimento proximal provê psicólogos e educadores de um instrumento através do qual se pode entender o curso interno do desenvolvimento. Usando esse método, podemos dar conta não somente dos ciclos e processos de maturação que já foram completados, como também daqueles processos que estão em estado de formação, ou seja, que estão apenas começando a amadurecer e a se desenvolver (p. 98).
A zona de desenvolvimento proximal permite que o ensino se adiante ao desenvolvimento, propiciando o acesso não somente ao que já foi atingido por meio do desenvolvimento, mas também àquilo que está em processo de maturação. O entendimento desse postulado vygotskiano sobre os processos de aprendizado que movimentam os processos de desenvolvimento foi fundamental para as análises a que me propus realizar nesta pesquisa.
As leituras das obras de e sobre Vygotsky (1930/2007; 1930/2008) me permitiram compreender que a trajetória do desenvolvimento humano é um processo de internalização de funções superiores que consiste numa série de transformações, quais sejam:
a) Uma operação que inicialmente representa uma atividade
externa é reconstruída e começa a ocorrer internamente (...).
b) Um processo interpessoal é transformado num processo
intrapessoal (...).
c) A transformação de um processo interpessoal num processo
intrapessoal é o resultado de uma longa série de eventos ocorridos ao longo do desenvolvimento (VYGOTSKY, 1930/2007, p. 57-58).
Sendo assim, o indivíduo não tem instrumentos endógenos para percorrer, sozinho, o caminho do pleno desenvolvimento. O mero contato com objetos de conhecimento não garante a aprendizagem, assim como a simples imersão em ambientes informadores não promove, necessariamente, o desenvolvimento, balizado por metas culturalmente definidas. A intervenção deliberada dos membros mais experientes de uma cultura no aprendizado dos alunos é essencial ao seu processo de desenvolvimento.
A essência do conceito de zona de desenvolvimento proximal, como aponta Liberali (2009), é o princípio vygotskyano de que as ações humanas são mediadas por seus pares, em uma rede complexa de atividades interligadas: “Em colaboração, os sujeitos vão além de suas possibilidades imediatas” (p. 248). E, como bem assinala Oliveira (2009), “essa possibilidade de alteração no desempenho de uma pessoa pela interferência de outra é fundamental na teoria de Vygotsky” (p. 61).
As considerações de Vygotsky sobre desenvolvimento e aprendizagem, particularmente as concepções sobre zona de desenvolvimento proximal, me foram muito úteis para direcionar as análises dos dados desta pesquisa, no sentido de estabelecer que ações pedagógicas desencadeiam processos de desenvolvimento nos alunos. A compreensão dessas noções vygotskyanas me possibilitou buscar nos dados investigados indícios de ações docentes capazes de provocar avanços no desenvolvimento dos alunos, com a interferência explícita na zona de desenvolvimento proximal. Em outras palavras, nos fóruns analisados, busquei compreender como os professores davam instruções, questionavam, analisavam e reformulavam problemas; como introduziam novos tópicos para discussão; como faziam referências a falas de outros autores; como dirigiam atenção dos alunos a determinado aspecto do conteúdo; como relacionavam teoria e prática, etc. Na minha opinião, essas ações podem ser consideradas como estratégias usadas pelo professor com o objetivo de levar o aprendiz à reflexão e (re)elaboração de conceitos.
As ideias de Vygotsky, em especial as concepções que embasam a prática docente, certamente contribuíram e continuam contribuindo para a transformação da prática educativa. Na próxima seção, faço algumas considerações sobre as implicações dos princípios vygotskyanos para a educação formal na escola.