1.4. DĐL BĐLGĐSĐ ÖĞRETĐMĐ
1.4.2. DĐL BĐLGĐSĐ ÖĞRETĐMĐNDE KULLANILAN YÖNTEM VE
Entendemos que as noções de saúde, doença e cura, não permitem que a medicina se esquive do problema do sentido biológico presente nos fatos vitais como propõe Canguilhem (2012). E por meio dessas noções poderemos chegar ao problema da normatividade social que traz a questão política à medicina. Atentando, então, para o que se pode compreender como saúde,
podemos propor, com Canguilhem, que se trata de um estado a ser determinado a partir de uma norma individual (podemos tomar individual como
singular). Por isso, a perspectiva que toma uma média como equivalente à
norma, não é suficientemente coerente quando se trata de fenômenos vitais. Isso porque “A fronteira entre o normal e o patológico é imprecisa para diversos indivíduos considerados simultaneamente, mas é perfeitamente precisa para um único e mesmo indivíduo considerado sucessivamente.” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.145)
Canguilhem procura determinar o estado saudável não apenas como a inserção em determinada norma tomada do ponto de vista geral, coletivo, mas como um estado no qual a vida se encontra potencialmente segura diante de flutuações e instabilidades do meio. “O que caracteriza a saúde é a capacidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir novas normas em situações novas.” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.158). Ou seja, saúde é o estado em que alguém se encontra quando goza de capacidade normativa, ou seja, possibilidade de adaptação a novas contingências. Não se trata, então, apenas de estabilidade em determinado conjunto de coordenadas, mas da possibilidade de estabelecer novas normas conforme as coordenadas possam variar. Avaliando os estudos de Goldstein em neurologia, Canguilhem afirma:
“O que Goldstein notou em seus doentes foi a instauração de novas normas de vida por uma redução no nível de sua atividade, em relação com um meio novo, mais limitado. A redução do meio, nos doentes afetados por lesões cerebrais, corresponde à sua impossibilidade de responder às exigências do meio normal, isto é, anterior. Num meio que não seja extremamente protegido, esses doentes só teriam reações catastróficas; ora, não sucumbindo à doença, a preocupação do doente é escapar à angústia das reações catastróficas. Daí a mania de ordem, a meticulosidade desses doentes, seu gosto positivo pela monotonia, seu apego a uma situação que sabem poder dominar. O doente é doente por só poder admitir uma norma. Como já dissemos muitas vezes, o doente não é anormal por ausência de norma, e sim por incapacidade de ser normativo.” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.148)
Por meio dessa colocação, temos uma articulação das noções de saúde e doença. A doença é tomada aqui em sentido positivo. Ou seja, o estado patológico é produtivo no sentido positivo, um processo de adoecimento produz uma norma singular e, a partir daí, só se define como doença por ser fixo e não permitir variação dessa norma. Trata-se de uma norma única e não da ausência de norma. Uma vez que esteja determinado minimamente o que se entende por saúde e doença, é chegado o momento de pensar a noção de
cura.
A principio, Canguilhem pensa a cura como um processo de estabelecimento de uma nova norma individual. É necessário deixar claro que não se trata de um restabelecimento, portanto, mas da criação de um processo criativo que não implica em retorno. Ou seja, trata-se de um restabelecimento da saúde (tomada como um estado), mas, ao mesmo tempo, da criação de uma nova norma capaz de garantir esse estado. Isso fica claro quando se entende que o processo de cura não acontece sem perdas essenciais do organismo – podemos pensar o mesmo para o modo de vida do sujeito – o que implica a necessidade de criação/invenção de um novo modo de funcionamento no qual a vida se faça possível em termos normativos, adaptativos (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.157). A ideia de adaptação, porém, será um ponto polêmico para se pensar a normatividade social. Isso porque será necessário pensar a adaptação em relação a quê. Quando a questão se coloca em relação ao social, não será possível formular soluções tão simples quanto readaptar alguém do ponto de vista da funcionalidade. Isso porque a funcionalidade não se refere, no universo humano, somente a poder caminhar, movimentar os membros, ou manter as funções orgânicas operando de modo regular. A funcionalidade é pensada, no universo humano, especialmente no contemporâneo, em sua relação com o mundo do trabalho e das trocas monetárias, por exemplo.
O mais importante nesse momento é tornar claro que a articulação entre
saúde, doença e cura, aponta para a possibilidade de compreensão da vida a
partir da experiência, o que, no concernente ao humano, torna insustentável pensar na diferenciação entre normal e patológico simplesmente por meio de variações quantitativas. Será necessário considerar o homem na relação com
seu meio tomando ambos (homem e meio) como variáveis na determinação do normal e do patológico. Isso acarreta duas consequências fundamentais: 1) a clínica como prática imprescindível à produção de conhecimento em patologia; 2) e, também, a imanência de um aspecto ético-político na atividade clínica que tem consequências na construção de uma patologia ou psicopatologia por exemplo.
Se observarmos as conclusões de Canguilhem em sua tese, o que está sendo defendido é que patologia e fisiologia estão em descontinuidade não podendo ser identificadas, pois “o que distingue o fisiológico do patológico não é uma realidade objetiva de tipo físico-químico, e sim um valor biológico” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.180). E isso nos parece de suma importância por ser uma via de desconstrução lógica dos caminhos contemporâneos pelos quais seguem as pesquisas médicas – especialmente em psiquiatria. Via essa que parece abrir mão do conhecimento clínico. Distanciada da clínica, a pesquisa fisiológica recai em uma tentativa de conceitualização que ignora as questões relativas ao valor que a experiência assume para o sujeito – sendo isso a única coisa capaz de determinar como patológica ou não, tal ou qual experiência. Se o experimentalismo em fisiologia for considerado o método privilegiado e único de produção do conhecimento médico, isso pode levar a medicina aos mais graves erros. Canguilhem aponta isso muito claramente:
“Conforme progride a minúcia da análise, a doença será colocada no nível do órgão – como Morgagni – ao nível do tecido – como Bichat – ao nível da célula – como Virchow. Mas, assim procedendo, esquecemos que, historicamente, logicamente e histologicamente chegamos até a célula por ordem regressiva, a partir do organismo total e com o pensamento, ou talvez mesmo o olhar, voltado para ele. Procurou-se no tecido ou na célula a solução de um problema levantado pelo organismo inteiro e que se apresenta primeiro para o doente, e, em seguida, para o clínico. Procurar a doença ao nível
da célula é confundir o plano da vida concreta – em que a polaridade biológica estabelece a diferença entre a saúde e a doença – e o plano da ciência abstrata – em que o problema recebe uma solução. Não queremos dizer que uma célula não possa
ser doente se, por célula entendermos um ser vivo unicelular considerado como um todo, como, por exemplo, um protista; mas
queremos dizer que a doença de um ser vivo não se situa em determinadas partes do organismo.” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.183. Grifo nosso)
É de suma importância a compreensão, com Canguilhem, de que a fisiologia é um estudo de constantes orgânicas, ou seja, “um estudo da estabilidade das normas fisiológicas” (CANGUILHEM, G. [1943] 1978, p.188). E que a patologia é o estudo da relação entre os aspectos fisiológicos e o meio, sendo isso o que poderia determinar saúde e doença como relativas a um valor biológico, normativo e vital. No entanto, não se deve perder de vista que Canguilhem parece compreender as relações entre fisiologia e patologia a partir da formação de uma dialética entre ambas, sem a qual não seria possível compreender o caminho de produção conceitual de nenhuma dessas disciplinas.