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A linguagem, na perspectiva da LSF, tem como função construir significados nas interações linguísticas cotidianas e, por isso, requer a análise de produtos autênticos das interações sociais (textos orais ou escritos). Para os sistêmicos, a linguagem é vista por uma perspectiva sociossemiótica: social porque é entendida como sistema de significados na sua relação com a estrutura social, e semiótica porque, segundo Eggins (1994), [a linguagem] “é um sistema de codificação convencionalizado, organizado como um conjunto de escolha” (p. 3, tradução minha)19

.

Nesse sentido, assinala Eggins (1994, p. 3), o que distingue os sistemas semióticos é que cada escolha no sistema adquire seus significados em contraste com outras opções que poderiam ter sido feitas, mas que não foram. Esse modo de interpretação do sistema semiótico, na consideração de Eggins (1994), “permite considerar como apropriadas ou inapropriadas as diferentes escolhas linguísticas em relação ao seu contexto de uso, e ver a língua como recurso para construir significados em diferentes contextos” (p. 3, tradução minha)20

. Dessa forma, compreendo que as opções linguísticas não são aleatórias, mas carregadas de sentidos sociais e culturais.

Os linguistas sistêmicos, segundo Eggins (1994), interpretam as questões funcionais de uma maneira semântica, questionando:

- quantos diferentes tipos de significados são realizados por meio da linguagem?

- como a linguagem se organiza para construir significados? (p. 2, tradução minha)21

       19

No original: “[…] language is a semiotic system: a conventionalized coding system, organized as sets of choices” (EGGINS, 1994, p. 3).

20

No original: “This semiotic interpretation of the system of language allows us to consider the appropriacy or inappropriacy of different linguistic choices in relation to their contexts of use, and to view language as a resource which we use by choosing to make meanings in contexts” (EGGINS, 1994, p. 3).

21

No original: “[…] how many different sorts of meanings do we use language to make? […] How is language organized to make meanings?” (EGGINS, 1994, p. 2). 

Segundo Eggins (1994, p. 2), a linguagem, no princípio da LSF, está estruturada para construir três tipos de significados, simultaneamente, denominados ideacional, interpessoal e textual, isto é, a representação da experiência, a inter-relação com outros e a organização da mensagem num texto.

Esses componentes fundamentais do significado na língua, as metafunções da teoria de Halliday (1985), são as manifestações, no sistema linguístico, dos dois propósitos mais gerais que fundamentam todos os usos da linguagem, quais sejam: entender o ambiente (ideacional) e influir sobre os outros (interpessoal). Associados a esses, o terceiro componente metafuncional, o textual, lhes confere relevância.

No entendimento de Halliday e Hasan (1989, p. 17), tais funções não devem ser entendidas apenas como sinônimo da linguagem em uso, mas como propriedades fundamentais do sistema semântico. Assim, cada enunciado é multi-funcional e deve ser visto por ângulos diferentes.

Todo enunciado em um texto é multi-funcional [...] nós não olhamos separadamente para suas diferentes partes; ao contrário, olhamos para a coisa como um todo de diferentes ângulos, cada perspectiva contribuindo para a interpretação total. Esta é a essência da abordagem funcional (HALLIDAY, HASAN, 1989, p. 23, tradução minha)22.

Assim, na perspectiva da LSF, todo texto é multidimensional, realizando mais de um significado simultaneamente, conforme as metafunções que organizam funcionalmente a linguagem, as quais podem ser explicadas como segue.

A metafunção ideacional representa os significados de nossa experiência (refere- se ao conteúdo e as ideias), tanto do mundo exterior (social) quanto do mundo interior (psicológico), por meio de escolhas feitas no sistema de transitividade. Essa metafunção expressa a experiência humana como um “processo” em que intervém um “ator” como

       22 

No original: “Every sentence in a text is multifunctional […] we do not look separately at its different parts; rather we look at the whole thing simultaneously from a number of different angles, each perspective contributing towards the total interpretation. That is the essential nature of a functional approach” (HALLIDAY; HASAN, 1989, p. 23). 

participante ativo e as “circunstâncias” desse processo, ou, em outras palavras, reflete a maneira como falamos sobre nossos sentimentos, crenças, situações vividas, como nos relacionamos com nossas experiências, e as circunstâncias relevantes ao tempo, modo e lugar. Jesus (2007), explica que, segundo a LSF, “é por meio dos significados experenciais presentes em um texto que podemos compreender quais aspectos de um conteúdo estão sendo tratados, e como a realidade é apresentada” (p. 61).

A metafunção interpessoal está relacionada à interação entre quem fala e quem escreve com quem escuta ou lê e todos os fatores que influenciam essa interação. Representa a interação e os papéis assumidos pelos participantes, como por exemplo, o que os participantes são, sua função social, a relação de poder entre eles etc. A função interpessoal diz respeito ao estabelecimento de relações humanas: é a “intrusão” do usuário da língua no evento discursivo. Trata-se da expressão dos comentários, atitudes e avaliações realizadas, por exemplo, pelo sistema de modo (indicativo, imperativo ou interrogativo), pela voz ativa ou passiva e pela modalidade (auxiliares modais, elementos modalizadores).

A metafunção textual está ligada ao fluxo de informação e organiza a textualização por meio do sistema temático. Essa função permite aos participantes perceber como as mensagens são organizadas e como elas se relacionam com o contexto, possibilitando dessa forma que o texto seja reconhecido como elemento de significação. A função textual é interna à linguagem e diz respeito às relações entre as orações do texto, à estrutura temática e à coesão.

Essas três metafunções formam o construto teórico para representar o contexto social como sendo o ambiente semiótico em que as pessoas vivenciam significados.

Embora entenda que essas três dimensões estão interligadas, nesta pesquisa optei por me concentrar no estudo de uma dimensão em especial, a metafunção interpessoal, cuja descrição será aprofundada na seção 1.4.2 deste trabalho.