O desenvolvimento humano, a aprendizagem e as relações entre desenvolvimento e aprendizagem são temas centrais nos trabalhos de Vygotsky. É visível, em toda a sua obra, a preocupação com a compreensão do desenvolvimento dos processos psicológicos ao longo da história da espécie humana.
Oliveira (2009, p. 58) assinala que Vygotsky não chegou a formular uma concepção estruturada do desenvolvimento humano, embora o desenvolvimento seja objeto privilegiado de suas investigações. O que o teórico nos oferece em seus trabalhos são reflexões e dados de pesquisa sobre vários aspectos do desenvolvimento.
Para Vygotsky (1934/2007), o desenvolvimento é concebido como um processo culturalmente organizado resultante de uma alteração radical na própria estrutura do comportamento. Em seus estudos, o autor argumenta que “a complexidade crescente do comportamento das crianças reflete-se na mudança dos meios que elas usam para realizar novas tarefas e na correspondente reconstrução de seus processos psicológicos” (VYGOTSKY, 1934/2007, p. 80).
As experiências de Vygotsky (1934/2007, p. 41) permitiram depreender que as funções psicológicas superiores surgem ao longo do curso geral do desenvolvimento psicológico como resultado de uma série de transformações qualitativas, e não como algo que é introduzido de fora ou de dentro. No fragmento a seguir transcrito, o autor apresenta a concepção sobre o processo geral de desenvolvimento.
Podem-se distinguir, dentro de um processo geral de
desenvolvimento, duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento, diferindo quanto à sua origem: de um lado, os processos elementares, que são de origem biológica; de outro, as funções psicológicas superiores, de origem sócio-cultural. A história
do comportamento da criança nasce do entrelaçamento dessas duas linhas. A história do desenvolvimento das funções psicológicas
superiores seria impossível sem um estudo de sua pré-história, de suas raízes biológicas, e de seu arranjo orgânico (VYGOTSKY, 1934/2007, p. 42).
Ao lado de sua preocupação com a questão do desenvolvimento, Vygotsky (1934/2007) destaca em sua obra a importância dos processos de aprendizagem, enfatizando que “o aprendizado das crianças começa muito antes de elas frequentarem a escola. Qualquer situação de aprendizado com a qual a criança se defronta na escola tem sempre uma história prévia” (p. 94).
Vygotsky (1934/2007) afirma que o processo de aprendizagem é definido, em parte, pelos processos de maturação do organismo individual, próprios da espécie humana, e em parte pelo contato direto da pessoa com o ambiente cultural. Portanto, a aprendizagem não ocorre de modo isolado.
Entretanto, Vygotsky (1934/2007) deixa claro que é a aprendizagem que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento, decorrentes do contato do indivíduo com certo ambiente cultural. Em outras palavras, o desenvolvimento fica impedido de ocorrer na falta de situações propícias à aprendizagem, como se pode deduzir do seguinte fragmento: “o aprendizado é uma das principais fontes de conceitos da criança em idade escolar, e é também uma poderosa força que direciona o seu desenvolvimento mental” (VYGOTSKY, 1934/2008, p. 107).
As investigações de Vygotsky (1934/2008) a respeito das relações entre aprendizado e desenvolvimento, com o propósito de desvendar as inter-relações complexas em certas áreas definidas do aprendizado escolar, como leitura e escrita, gramática, aritmética, ciências sociais e ciências naturais, trouxeram informações valiosas sobre o desenvolvimento da linguagem oral e escrita durante a idade escolar; os níveis consecutivos do significado figurado; a influência do domínio das estruturas gramaticais sobre o rumo do desenvolvimento mental; a compreensão das relações no estudo das ciências sociais e naturais. Os resultados dessa investigação estão resumidos a seguir:
1. O desenvolvimento das bases psicológicas para o aprendizado de matérias básicas não precede esse aprendizado, mas se desenvolve numa interação contínua com as suas contribuições (VYGOTSKY, 1934/2008, p. 126).
2. A curva do desenvolvimento não coincide com a curva do
aprendizado escolar; em geral, o aprendizado precede o desenvolvimento (VYGOTSKY, 1934/2008, p. 127).
3. Todas as matérias escolares básicas atuam como uma disciplina formal, cada uma facilitando o aprendizado de outras; as funções psicológicas por elas estimuladas se desenvolvem ao longo de um processo complexo (VYGOTSKY, 1934/2008, p. 128).
4. A criança com a zona maior de desenvolvimento proximal terá um aproveitamento muito melhor na escola (VYGOTSKY, 1934/2008, p. 129).
Vygotsky (1934/2007) chamou atenção para o fato de que a aprendizagem deve ser combinada de alguma maneira com o nível de desenvolvimento da criança e, para isso, deve-se atentar para dois níveis de desenvolvimento: o nível de desenvolvimento real, que é o nível de desenvolvimento das funções mentais das crianças que se estabeleceram como resultado de ciclos de desenvolvimento já completados; e o nível de desenvolvimento mental obtido com o auxílio de outras pessoas.
Vygotsky (1934/2007) compreende como zona de desenvolvimento real aquilo que a criança consegue fazer sozinha; são as etapas já alcançadas no seu desenvolvimento. Por outro lado, a criança pode alcançar um nível de desenvolvimento mental potencial com o auxílio de adultos ou pessoas mais experientes.
Essa possibilidade de alteração no desempenho de uma pessoa pela interferência de outra é fundamental na teoria vygotskyana: “com o auxílio de uma outra pessoa, toda criança pode fazer mais do que faria sozinha – ainda que se restringindo aos limites estabelecidos pelo grau de seu desenvolvimento” (VYGOTSKY, 1934/2008, p. 129). O entendimento de que o indivíduo se constitui na interação com os outros é que me possibilitou compreender como é decisiva a interferência do professor na aprendizagem do aluno para promover avanços, desde que se atente para a qualidade e para o momento oportuno de o professor fazer essas intervenções, como bem assinalou Gervai (2007, p. 34).
As ideias de Vygotsky sobre os processos de aprendizagem que podem desencadear o desenvolvimento nos alunos me estimularam a desenvolver investigações sobre as intervenções discursivas do professor nos fóruns virtuais de aprendizagem. Com as leituras da obra de Vigotsky, ficou bem claro, para mim, a importância de se analisar o contexto discursivo de trabalho do professor, considerando as necessidades de
aprendizagem manifestadas no discurso dos alunos e, a partir daí, observar como o professor conduz seu discurso de forma a promover o desenvolvimento.
Em relação à condução do processo de aprendizagem e de desenvolvimento do indivíduo, Vygotsky (1934/2008) destacou que a ação de mediação deve incidir no que ele denominou zona de desenvolvimento proximal, que é tratada na próxima seção.