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Numa acepção simples, entende-se por paradigma “um exemplo que serve como modelo; padrão”.463

Thomas S. Kuhn define paradigmas como “as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência.”464

Nessa ótica, duas características envolvem as realizações científicas tidas por paradigmas: a) são fortes o suficiente para atrair adeptos em caráter duradouro, em detrimento de outros modelos de atividade científica, b) e abertas o suficiente para deixar toda espécie de problemas para serem resolvidos pela comunidade científica.465

Quanto maior for a precisão de um paradigma, mais facilmente ele indicará eventuais insuficiências e anomalias na ciência, e a consequente necessidade de se estabelecer o surgimento de um novo paradigma, em razão de novas descobertas. Com isso, o estudo dos paradigmas mostra o caráter evolucionista da própria ciência.466

As situações de crise de um determinado paradigma acabam por provocar a reconstrução de princípios, métodos e modelos, permitindo o surgimento do novo paradigma, a partir dessa fase de transição.467

Essa análise também serve à ciência do Direito.

O surgimento de um paradigma não necessariamente anulará o anterior, porém abrirá um novo olhar para aspecto até então pouco considerado, o que dará ensejo à elaboração de regimes jurídicos próprios, com princípios e fundamentos específicos.

463 Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, 2009.3.

464 Thomas S. Kuhn. A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 10 ed.

São Paulo: Perspectiva, 2011, p. 13. A obra é importante fonte para aprofundamento do estudo dos paradigmas.

465 Thomas S. Kuhn, A estrutura..., p. 30. 466 Thomas S. Kuhn, A estrutura..., p. 92. 467 Thomas S. Kuhn, A estrutura..., p. 116.

4.1.1 O processo penal brasileiro e suas diretrizes paradigmáticas

O processo penal também possui seus paradigmas vigentes num determinado contexto histórico.

Antonio Scarance Fernandes identifica no ordenamento jurídico brasileiro a presença de determinados “paradigmas procedimentais para representar algumas diretrizes extraídas de princípios constitucionais e que devem ser levadas em conta pelo legislador na criação de procedimentos processuais penais.”468

O princípio da imparcialidade conduz à diretriz segundo a qual “quem julga não pode assumir as funções reservadas à acusação e à defesa”.469 O princípio acusatório permite deduzir que incumbe a quem acusa a delimitação do âmbito da imputação, bem como o dever de prová-la. O princípio da ampla defesa leva ao paradigma que garante ao acusado o direito de exercer sua defesa, antes de eventual condenação.470

A análise do atual Código de Processo Penal brasileiro, seja sob o ponto de vista histórico471, seja decorrente de sua estrutura, revela a predominância de aspectos voltados para a apuração da infração penal e da sua autoria, visando à aplicação da pena, especialmente a privativa de liberdade.472

A exposição de motivos evidencia que o critério que norteou a elaboração do Código fundava-se num viés repressivo.473

O inquérito policial tem como objetivo apurar as infrações penais e a sua autoria. A acusação restringe-se ao fato criminoso. As cautelares pessoais têm tratamento extenso, quando em comparação com as cautelares reais. Os aspectos probatórios são fundados, preponderantemente, na prova oral (confissão, testemunhas, reconhecimento de pessoas e acareação), que, por sua vez, é vinculada ao objeto do processo, que se circunscreve à

468 Antonio Scarance Fernandes, Teoria geral do procedimento..., p. 44. 469 Antonio Scarance Fernandes, Teoria geral do procedimento..., p. 44. 470 Antonio Scarance Fernandes, Teoria geral do procedimento..., p. 44-45.

471 Para estudo de aspectos da história do Código de Processo Penal, ver Marcos Alexandre Coelho Zilli. A

iniciativa instrutória do juiz no processo penal. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003, p. 169-177.

472 A análise do Código Penal e das leis penais extravagantes permite concluir que a pena privativa de liberdade é

aquela prevista em boa parte dos tipos penais.

473 Assim consta da exposição de motivos do Código de Processo Penal: “A reforma do processo penal vigente.

[...] II – De par com a necessidade de coordenação sistemática das regras do processo penal num Código único para todo o Brasil, impunha-se o seu ajustamento ao objetivo de maior eficiência e energia da ação repressiva do Estado contra os que delinquem. As nossas vigentes leis de processo penal asseguram aos réus, ainda que colhidos em flagrante ou confundidos pela evidência das provas, um tão extenso catálogo de garantias e favores, que a repressão se torna, necessariamente, defeituosa e retardatária, decorrendo daí um indireto estímulo à expansão da criminalidade.”

imputação da conduta penalmente relevante. De outro lado, inexiste um tratamento processual específico para a aplicação da perda de bens.474

Percebe-se, pois, que o paradigma reitor do processo penal brasileiro é o da apuração de um fato naturalístico, sob a perspectiva apenas da materialidade delitiva e da autoria, e consequente aplicação da pena privativa de liberdade.

4.1.2 O novo paradigma do processo penal brasileiro

O capítulo precedente destacou a relevância da perda de bens no âmbito internacional e estrangeiro, sendo postas as principais tendências contemporâneas sobre o tema.

É chegado o momento de se proceder à tomada de consciência quanto à imprescindível necessidade de se construir um novo paradigma para o processo penal brasileiro, fundado na valorização dos aspectos patrimoniais derivados da prática criminosa. E a partir disso será possível extrair diretrizes paradigmáticas decorrentes dessa nova maneira de compreender o processo penal.

A perda de bens precisa ser compreendida como instituto importante para a prevenção e repressão à criminalidade organizada e não como algo de natureza secundária, inferior ontologicamente em relação à pena privativa de liberdade.475

Com isso, a persecução penal passa a assumir novo enfoque, que se resume, em síntese, em quatro momentos bem distintos: identificação, recuperação, gestão e destinação social dos bens derivados da prática delitiva.476

O novo paradigma implica o surgimento de princípios e fundamentos próprios, que irão reger um processo penal voltado para o acertamento de aspectos patrimoniais. Isso não representará o abandono do processo penal clássico, cuja finalidade é a definição da culpabilidade. Porém, a realidade impõe o avanço da ciência processual penal, a partir da valorização dos aspectos patrimoniais auferidos com a prática criminosa.

474 Sobre o assunto, afirma João Conde Correia: “O processo penal clássico, idealizado numa altura em que o

confisco tinha no máximo importância marginal, também não foi concebido para a gestão de bens, não estando dotado dos instrumentos processuais necessários para o efeito: a perda excepcional dos instrumenta, producta ou vantagens não se confunde com o confisco generalizado e sistemático do património suspeito de origem criminal. A frequência, as especificidades de algumas coisas (v.g. empresas) e, sobretudo, os valores dos ativos recuperados exigem agora outros mecanismos processuais” (Da proibição..., p. 205).

475 Afirma Sergio Fernando Moro: “Para desmantelar grupos criminosos organizados, a asfixia econômica,

privando-os do produto de sua atividade e das condições de autofinanciarem-se, constitui estratégia mais eficaz. [...] O confisco, usualmente tratado em segundo plano, não só nos manuais de Direito, mas igualmente pela legislação penal, deve ser revalorizado, ganhando nova dimensão. O mesmo ocorre com as medidas assecuratórias, como apreensão e sequestro” (Crime..., p. 17).

476 Sobre o assunto, cf. João Conde Correia, Da proibição... O capítulo 5 trata especificamente da investigação,

Com isso, antes de se propor alterações legislativas visando a elaborar o novo modelo processual penal, faz-se necessária a mudança de mentalidade e da forma de atuar do operador do direito e do agente estatal, a partir da atenção, no âmbito processual penal, para a perda de bens.477 Tal premissa constitui antecedente lógico de qualquer reforma legislativa, aspecto que será especificamente discutido no capítulo seguinte.

Qual o modelo de investigação que deve ser adotado visando à aplicação da perda de bens?

Diante da presença de bens acautelados, que merecem adequada gestão, e levando-se em conta a necessidade de se velar pelo desenvolvimento do devido processo legal, cujo resultado pode levar à perda de bens, quais as novas funções do juiz e das partes?

Qual a responsabilidade do Estado na conservação dos bens acautelados e no destino dos bens declarados perdidos, visando à garantia da efetividade processual?

Vê-se que esses questionamentos definem uma nova época para o processo penal brasileiro. A introdução do elemento patrimonial implica o desenvolvimento de uma nova cultura processual penal. E a discussão em torno dessas indagações comporá a metodologia essencial na construção do novo paradigma para o processo penal brasileiro.