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A União Europeia utiliza como sinônimas as expressões perda de bens e confisco351. A ambas dá o significado de medida proveniente de um órgão jurisdicional, em consequência de um processo relativo a uma infração penal, que conduza à privação definitiva de um bem.352

346 Cf. Decisão-Quadro 2003/577/JAI, de 22 de julho de 2003.

347 Cf. art. 1º da Decisão-Quadro 2003/577/JAI, de 22 de julho de 2003.

348 Cf. art. 6º, item 1, e art. 10º, item 1, da Decisão-Quadro 2003/577/JAI, de 22 de julho de 2003. 349 Cf. art. 6º, item 2, da Decisão-Quadro 2003/577/JAI, de 22 de julho de 2003.

350 Cf. art. 8º, item 1, da Decisão-Quadro 2003/577/JAI, de 22 de julho de 2003.

351 Tal fato foi levado em consideração no momento de se adotar o uso da expressão perda de bens para o

presente estudo. Ver item 1.1.

352 Cf. art. 2º, item 5, da proposta de diretiva do Parlamento e do Conselho sobre o congelamento e confisco do

A proposta de diretiva apresenta as seguintes espécies de confisco, consolidando, no âmbito da União Europeia, a atual perspectiva sobre o assunto:

a) confisco direto; b) confisco de valores; c) confisco alargado353;

d) confisco não baseado numa condenação (em circunstâncias determinadas)354; e) confisco de bens transferidos para terceiros.

Os confiscos direto, de valores, alargado e de bens transferidos para terceiros incidem após a condenação penal definitiva.

O confisco direto tem como objeto o produto do crime. Nele compreende-se qualquer benefício econômico resultante de uma infração penal, incluindo eventual transformação ou reinvestimento posterior do produto direto, bem como qualquer outro ganho quantificável.355 Em síntese, o confisco direto alcança o produto e o proveito do crime.

O confisco de valores compreende a possibilidade de se declarar a perda do valor correspondente ao produto do crime, em substituição a este.356

Por confisco alargado entende-se a possibilidade de se declarar a perda, total ou parcial, de bens pertencentes a uma pessoa condenada por uma infração penal, sem que haja a direta vinculação entre a aquisição de tais bens e o crime mediante o qual a pessoa foi condenada. A ampliação do alcance da perda torna-se possível em razão da presença do critério probatório de elevada probabilidade, baseado em fatos concretos, que apontem a provável aquisição de bens a partir de atividades criminosas semelhantes àquela pela qual a pessoa foi condenada.357

353 A exposição de motivos da proposta define confisco alargado do seguinte modo: “Por confisco alargado

entende-se a capacidade de confiscar bens que ultrapassam os produtos diretos do crime, pelo que é necessário estabelecer uma ligação entre o alegado produto de um crime e um comportamento criminoso específico” (p. 5). Ainda, já no corpo da proposta, na parte dos “considerando”, sobre o confisco alargado consta: “Mostra-se necessário, por conseguinte, prosseguir a harmonização das disposições em matéria de confisco alargado, estabelecendo uma norma mínima única. O confisco alargado deve ser aplicável quando um tribunal nacional, com base em fatos concretos, como a natureza da infração penal, o rendimento declarado da pessoa condenada, a diferença entre a sua situação financeira e o seu nível de vida ou outros fatos, considere bastante mais provável que o bem em causa resulte de outras infrações de natureza ou gravidade semelhantes àquela em relação à qual a pessoa foi condenada, do que de outro tipo de atividade” (p. 17).

354 As hipóteses coincidem com a impossibilidade de se mover uma ação judicial em face do acusado, por motivo

de morte, doença ou fuga.

355 Cf. art. 2º, item 1, da proposta de diretiva do Parlamento e do Conselho sobre o congelamento e confisco do

produto do crime na União Europeia, de 12 de março de 2012.

356 Cf. art. 3º, item 2, da proposta de diretiva do Parlamento e do Conselho sobre o congelamento e confisco do

produto do crime na União Europeia, de 12 de março de 2012.

357 Cf. art. 4º, item 1, da proposta de diretiva do Parlamento e do Conselho sobre o congelamento e confisco do

A proposta de diretiva exclui expressamente do âmbito dos poderes alargados as atividades que:

a) não possam ser objeto de processo penal por este ter sido alcançado pela prescrição, no tocante ao direito interno;

b) já tenham sido hipótese de absolvição definitiva quanto ao acusado. Ainda, em qualquer outra hipótese em que possa ser aplicável o princípio ne bis in idem.358 Quanto ao

confisco não baseado numa condenação359, as hipóteses de perda de bens decorrem de situações em que a condenação penal poderia ser obtida e não foi, pelos seguintes fatos: a) morte do acusado;

b) doença crônica do acusado que impeça o prosseguimento da ação penal;

c) doença ou qualquer fato atribuído ao acusado, com o fim de subtraí-lo à ação penal ou à pena, que impeça o exercício efetivo da ação penal num prazo razoável, gerando risco grave de prescrição.360

Verifica-se que a exceção à regra, qual seja, a obtenção da perda sem condenação penal, funda-se em duas hipóteses sob a ótica processual penal.

Na primeira, o processo estava em andamento e o pronunciamento de mérito foi inviabilizado por morte ou doença do acusado. Na outra, por doença do acusado ou em razão de seu comportamento, há risco de prescrição e a ação penal ainda não se iniciou, dentro de prazo razoável.

O confisco de bens de terceiros tem como objetivo reprimir a má-fé do acusado e eventualmente de terceiros, diante de transferências de bens fraudulentas com o fim de se evitar o confisco. A primeira hipótese reside na possibilidade de confiscar produtos do crime transferidos a terceiros pela pessoa condenada ou em seu nome ou pelo acusado nas hipóteses

358 Cf. art. 4º, item 1, a e b, da proposta de diretiva do Parlamento e do Conselho sobre o congelamento e

confisco do produto do crime na União Europeia, de 12 de março de 2012.

359 Sobre esse tema, vale a pena registrar as observações constantes da exposição de motivos do projeto de

relatório sobre a presente proposta diretiva, feito pela Comissão das Liberdades Cívicas, da Justiça e dos Assuntos Internos do Parlamento Europeu, em 28 de agosto de 2012, tendo como relatora Monica Luisa Macovei, p. 23: “No que diz respeito ao confisco não baseado numa condenação, a relatora assinala que este sistema, que começou por ser utilizado nos EUA, parece estar cada vez mais generalizado à escala mundial. As jurisdições que introduziram o confisco não baseado numa condenação incluem: Itália, Irlanda, Reino Unido, Albânia, Bulgária, Eslováquia, Austrália, África do Sul e as províncias canadianas de Alberta e Ontário. A nível europeu, os sistemas existentes de confisco não baseado numa condenação foram objeto de debate, quer nos tribunais nacionais quer junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH), e foram considerados compatíveis com os requisitos constitucionais nacionais e os do TEDH, desde que sejam adotados por uma autoridade judiciária, com pleno respeito dos direitos de defesa e de terceiros de boa-fé, e que possam ser contestados perante um tribunal.”

360 Cf. art. 5º, itens a e b, da proposta de diretiva do Parlamento e do Conselho sobre o congelamento e confisco

em que seja possível o confisco não baseado numa condenação.361 A segunda consiste na possibilidade de confiscar bens transferidos pelo condenado a terceiros, quando seja possível o confisco de bens que correspondam aos valores dos bens obtidos ilicitamente.362

A proposta indica as circunstâncias que possam revelar o caráter fraudulento da transferência de bens.

Por exemplo, quando fatos concretos apontam para a pouca probabilidade de se confiscarem bens do condenado, ou quando os produtos ou bens tenham sido transferidos a título gratuito ou a um preço inferior ao seu valor de mercado. Nessas últimas hipóteses, o terceiro deve ter conhecimento da origem ilícita - ou, desconhecendo-a, deve-se suspeitar, diante de circunstâncias e fatos concretos, que se tratava de produtos do crime ou de bens do acusado, com o fim de se livrar do confisco.363