3.3 Obezite Üzerinde Sosyoekonomik ve Demografik Farklılıkların Etkisi
3.3.1 Obezite Üzerinde Cinsiyetin Etkisi
O ano de 1988 teve grande importância na luta anti-racista. Enquanto as autoridades brasileiras e os setores reacionários comemoravam os cem anos da “Abolição da Escravatura”, a militância negra e os setores progressistas tomaram as ruas para protestar e denunciar a farsa da “Abolição” pela qual o Estado brasileiro era responsável, pois não havia criado nenhuma estratégia para inclusão dos recém-libertos à sociedade no mesmo espaço de igualdade ocupado pelos antigos proprietários.
Imbuídos do propósito de tornar pública a precariedade de vida de homens e mulheres negros os militantes denunciavam as crescentes desigualdades às quais estes estavam submetidos e que os mantinham alijados de bens como educação, saúde, trabalho, moradia, segurança e lazer, além de outros elementos que compõem o quadro mínimo de direitos sociais e de cidadania. A luta anti-racista articulada em vários setores da sociedade explicitava a necessidade de romper efetivamente com o mito da democracia racial divulgado interna e externamente, que proclamava que, no Brasil, brancos, negros e índios viviam em harmonia e gozavam dos mesmos direitos, caracterizando o país como uma nação racialmente democrática.
Ciente das inverdades contidas nesse discurso apaziguador e orientado “para inglês ver”, a militância negra pretendia mostrar à sociedade brasileira os efeitos perversos do racismo sobre a vida da população afro-descendente, manifestados na manutenção das desigualdades históricas e socialmente produzidas em relações assimétricas de poder.
Em suas ações políticas, os militantes enfatizavam a necessidade de os negros terem acesso à educação de qualidade. Denunciavam o silenciamento da maioria das escolas diante de situações de discriminação racial sofridas pelos estudantes negros no espaço destas; a falta de referências positivas nos livros didáticos; a negação de valores presentes na cultura africana e afro-brasileira; a ausência de negros e negras nos meios de comunicação, sobretudo a televisão; e a violência policial, da qual a juventude negra era vítima constante.
No campo do trabalho denunciavam o desemprego, a precarização das condições de trabalho e a ausência de negros em cargos com maior remuneração ou postos de destaque.
Pressionada pela militância progressista interna e tendo que se mostrar coerente com o discurso de defesa dos mais fracos, a Igreja Católica adotou como tema da Campanha da Fraternidade de 1988 o slogan “Ouvi o clamor deste povo!”. Foi um passo importante, pois a partir daquele momento algumas expressões da religiosidade negra, sobretudo de origem
banto, puderam ser conhecidas por muitos católicos, minimizando as manifestações explícitas de intolerância.
Outro fato marcante ocorrido em 1988 foi a culminância da mobilização político- sindical e popular, iniciada em 1986 durante o processo de discussão e elaboração da nova Constituição Brasileira.
Diversos documentos reivindicativos foram produzidos pelos setores sociais e apresentados aos políticos constituintes. Objetivando justificar as demandas apresentadas os militantes expuseram resultados de pesquisas realizadas por órgãos nacionais, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA), que explicitavam as condições desiguais de vida do negro no Brasil e as interpretavam como resultantes do racismo.
Após embates político-ideológicos no Congresso Nacional, em 05 de outubro de 1988 foi promulgada a Carta Magna, também conhecida como Constituição Cidadã, que restabelecia o Estado Democrático de Direito e continha alguns elementos que representavam avanços na luta anti-racista:
reconhecimento da igualdade de todos perante a Lei, independentemente de raça, cor, crença religiosa, etc.;
prescrição do racismo como crime inafiançável e imprescritível - inciso XLII, artigo 5º (Até então este era considerado pelo ordenamento jurídico como crime de contravenção);
educação como direito de todos e dever do Estado;
reconhecimento dos territórios e direitos das comunidades quilombolas.
Também em 1988 foi criada a Fundação Cultural Palmares, primeira instituição do governo federal com o objetivo exclusivo de trabalhar as questões relacionadas à população negra. De acordo com o artigo 1º da Lei Federal 7668/88, a Fundação tinha como finalidade “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”.
No entanto, a despeito da vigência da Constituição Cidadã, a qual proclamava a igualdade de direitos entre os brasileiros independentemente de raça ou credo religioso, as estatísticas apontavam que as desigualdades entre negros e brancos permaneciam inalteradas. As ações do poder público em face da questão racial permaneceram marcadamente orientadas para o tema da cultura ou para a repressão do racismo, apesar de as lutas e intervenções da
militância apontarem que os efeitos da discriminação racial se impunham para além das questões culturais.
Percebendo que a luta por direitos precisava transpor os limites do combate aos crimes de racismo e alcançar outras esferas, os militantes começaram a demandar do governo federal a criação de "ações afirmativas", como as que o governo norte- americano adotara nos anos 60 e o governo sul-africano de Nelson Mandela passara a discutir. Essa demanda representou uma importante guinada na pauta de reivindicação dos ativistas negros e deu “início a uma era de luta contra as desigualdades sociais do país, vistas agora como "raciais", independentemente do combate à discriminação e ao preconceito”, conclui Guimarães (GUIMARÃES, 2003, p. 196).
Com o propósito de compreender e analisar empiricamente as formas nem tão sutis do racismo brasileiro, nos anos 90 muitos militantes negros conseguiram vencer "a barreira da cor" e o funil do vestibular e entraram na academia no papel de estudantes de graduação e pós-graduação. Em suas pesquisas, investigaram temas que vinham sendo ampla e exaustivamente discutidos nos processos de formação e capacitação da militância (GOMES, 1995; GONÇALVES, 1997; SANTOS, 1997). Infelizmente, as conclusões de seus trabalhos corroboravam os dados de iniqüidades raciais apresentados pelos institutos de pesquisas e organismos internacionais. Essa constatação intensificou a luta de militantes e intelectuais negros no intuito de sensibilizar a maioria da população brasileira e pressionar o Estado para a proposição e implementação de políticas voltadas ao interesse da população negra.
1.1.3 1995 - Tricentenário de Imortalidade de Zumbi dos Palmares
Em 1995, ano do Tricentenário de Imortalidade de Zumbi dos Palmares, a comunidade negra brasileira demonstrou que a luta política ganhava novos contornos. Os militantes da luta anti-racista haviam compreendido que, além das denúncias do racismo, das desigualdades e da naturalização da pobreza, seria necessário avançar na proposição de ações e cobrança para que o Estado Brasileiro implementasse políticas públicas para a superação das várias formas de discriminação. Durante a preparação para a Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, que aconteceu em Brasília, vários atos políticos, culturais, seminários e congressos foram realizados em nível nacional, marcando a importância da data
e do resgate do negro no processo de construção da história social, política e econômica do país.
As reivindicações formuladas pela comunidade negra foram sintetizadas no Programa de Superação do Racismo e Desigualdade Racial, apresentado pela Executiva da Marcha ao governo brasileiro. Pressionado pelos movimentos sociais, o então presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu oficialmente a existência do racismo no país, comprometendo- se a gerar esforços para mudar tais quadros sociais. Na ocasião, instituiu o Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) que tinha a incumbência de pensar e propor políticas de Estado capazes de superar o racismo.
A partir desse momento intensificaram-se as cobranças ao Estado brasileiro pela implementação de medidas compensatórias e políticas cuja finalidade fosse a superação do racismo. A mobilização social ganhou maior visibilidade em 2001, com a preparação da Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata, organizada pela ONU e realizada em Durban, África do Sul. Signatário do acordo internacional, o governo foi impelido a reconhecer os princípios dos direitos iguais e da autodeterminação dos povos; a lembrar que todos os indivíduos nascem iguais em dignidade e direitos; que a igualdade deve ser protegida como questão de prioridade máxima e a reconhecer o dever do Estado em tomar medidas rápidas, decisivas e apropriadas visando eliminar todas as formas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata.
Como signatário, o Estado brasileiro comprometeu-se, ainda, a elaborar políticas que vão ao encontro das deliberações da Conferência de Durban, que preceitua, em seu artigo 99, que
Estados Nacionais deveriam elaborar planos de ação capazes de promoverem a diversidade, igualdade, equidade, justiça social, igualdade de oportunidades e participação para todos. Deveriam, também, criar condições para a participação efetiva de todos nas tomadas de decisão e o exercício dos direitos civis, culturais, econômicos, políticos e sociais em todas as esferas da vida com base na não- discriminação (DURBAN, 2001 p.12)
Em relação ao emprego, o relatório final da Conferência de Durban apontava que o Estado Brasileiro estava obrigado a ratificar a Convenção 111 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a qual coíbe as práticas de discriminação no emprego e ocupação.
Desde então as autoridades brasileiras vêm apresentando alguns programas e ações políticas destinados à diminuição dos efeitos do racismo já diagnosticados, como a
implantação de Programa de Ações Afirmativas no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Ministério da Justiça.
Embora tais ações ainda sejam insuficientes para responder de maneira adequada às necessidades da população negra, elas contribuem para a desconstrução do mito da democracia racial e estabelecem um patamar de institucionalização de políticas de promoção da igualdade racial no Brasil, demonstrando uma inflexão do Estado ao protagonismo dos movimentos negros.
Merece destaque a atuação singular do movimento das mulheres negras, que se inicia nos anos 80 e ocupa lugar mais destacado a partir dos anos 90 do século passado. Protagonistas do próprio discurso, as ativistas negras colocaram em evidência a situação de inferioridade vivenciada pelas mulheres negras em diversos espaços sociais, inclusive nos setores que lutavam contra a discriminação e pela emancipação da população negra. Além disso, mostraram ao Movimento Feminista que a luta da mulher negra guardava algumas especificidades até então não compreendidas ou abordadas por este.
Algumas mulheres negras, organizadas em entidades como a Casa de Cultura da Mulher Negra e Geledés, em São Paulo e Criola, no Rio de Janeiro, tornaram-se figuras importantes na disseminação do pensamento feminista negro. No entendimento da filósofa e ativista Sueli Carneiro
depois de longos anos de militância nesses dois movimentos (negro e feminista), algumas mulheres negras entenderam que tinham de assumir a responsabilidade de encaminhar politicamente as suas questões específicas e que essa era a única maneira de sensibilizar os demais movimentos sociais para as suas reivindicações. Por outro lado, a gravidade do problema racial na sociedade brasileira colocou para o Geledés a necessidade de atuar politicamente também sobre os problemas gerais da população negra, particularmente sobre a violação dos direitos de cidadania que se dá cotidianamente (CARNEIRO, 1996, p.133).
Além disso, essas personagens chamaram a atenção do poder público para a forma discriminatória com que as mulheres negras e pobres eram tratadas com relação ao acesso aos serviços de saúde. E mesmo quando conseguiam ser atendidas por esses equipamentos “a qualidade dos serviços também apresentava disparidades. Não apenas no âmbito da conduta profissional individual e da relação profissional e cliente, mas também no nível das instituições e seus mecanismos” (WERNECK, 2005, p. 323).
O reconhecimento das diferenças étnicas e raciais foi fundamental para a compreensão de que algumas patologias, como a hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e a anemia falciforme, eram prevalentes na população negra. Foram também a pressão e os estudos sistematizados dessas feministas negras que trouxeram para a cena política o racismo institucional, uma forma de racismo pouco estudada no Brasil.