2. DİPLOMA VE NİTELİKLER
2.3. Niteliklerin Tanınması
Vinte de maio de 2016, sexta-feira. Acordo ansioso, pois sei que em algumas horas participarei da minha primeira ocupação (de terrenos). Por segurança não me informaram o local; contaram-me apenas, durante o trabalho de base, que seria nas proximidades do Siqueira, no Grande Bom Jardim. Por saber da alta densidade populacional da região, havia perguntado se existiam espaços vazios; responderam-me que existem, e muitos.
Leio, organizo alguns documentos da pesquisa, almoço e não consigo relaxar. Ação direta e risco de prisão, risco de represália e de repressão. Após o almoço, começo a organizar minha mochila, me lembrando das dicas que recebi. Levo uma caneca, prato e colher, tudo de plástico para não quebrar no caminho ou durante a ação. Também levo lençol, roupas, calça, meia, tênis, para não ferir as pernas ou cortar o pé dentro do terreno abandonado. Não comprei repelente, do que sentifalta, posteriormente.
Embarco no bairro Montese onde moro, apanho o primeiro ônibus até o terminal do Papicu32 e de lá, outro, com destino à sede do MTST em Fortaleza, no bairro Sapiranga. Da minha casa para a sede levo cerca de duas horas, devido ao trânsito eà demora de espera entre os dois ônibus. De quebrada.
30Os pronomes se modificaram ao longo das circunstâncias. Não raro, posteriormente à participação da fala em primeira pessoa do singular eu, para primeira pessoal do plural, nós.
31 Em alusão a Jose de Souza Martins (1989) em seu livro, Caminhada no chão da noite: emancipação política e libertação nos movimentos sociais do campo.
32O Terminal de Integração do Papicu é um terminal urbano da cidade de Fortaleza, localizado na Regional II no bairro Papicu. O terminal é o mais movimentado da cidade com passagem de cerca de 700 mil passageiros por dia. https://catalogodeservicos. fortaleza. CE .gov .br / categoria/mobilidade/servico/ 79. Acesso em 16 jan. 2017
Ao chegar à sede do MTST, encontro vários conhecidos do movimento, tensos, assim como eu, com o aproximar da ocupação. Até que estaciona um caminhão, e, sem muita conversa, vamos à primeira atividade daquela noite: o carregamento de bambus.
As barracas são feitas com bambus, para evitar o desmatamento de árvores do local. Os bambus foram cortados do terreno de um dos apoiadores do movimento que reside próximo à sede. Eles estavam separados em “kits” de três ou cinco unidades, o suficiente para serem cobertos de lona preta e servirem de abrigo provisório para a chuva. (ver figura 6).
Figura 6– Trabalhadores sem teto ocupam terreno em Fortaleza
Fonte: Nigéria Audiovisual – 05 jul. 2014. 33
Foi formada uma equipe com cerca de dez a 12 homens e iniciamos o carregamento. Enquanto alguns pegavam os bambus, outros os organizavam na caçamba do caminhão. Ajustá-los era a tarefa mais difícil, pois além da força, requeria agilidade e senso de organização espacial.
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Print Screnn do vídeo “Trabalhadores sem teto ocupam terreno em Fortaleza - #OcupePaupina da
página do Nigéria Audiovisual. Disponível em:
Comecei o trabalho dentro da caçamba do caminhão. Em menos de meia hora, já estava exausto e ferido nas mãos e nas costas. Desta memória, guardo ainda hoje uma cicatriz como experiência corporificada. Desci e fui para a tarefa de carregamento. Terminamos todos suados e cansados, porém, satisfeitos por termos concluído a tarefa de carregar um caminhão inteiro em menos de uma hora. Mais uma atividade coletiva fundamental para a inserção e ganho de confiança com os (agora) companheiros do MTST.
Voltei à sede, tomei banho e me vesti com roupas que não fizessem alusão ao MTST, paisano, pronto para ocupar. Antes, compartilhamos uma janta de arroz, farofa de ovo e suco artificial de tangerina. A fome é o melhor tempero - lembrei.
Chega um ônibus e nós que estávamos pela sede, embarcamos. Dentro deste veículo, estávamos todos com muitas expectativas, enquanto nos dirigíamos até um ponto de referência para encontrarmos outros membros do movimento.Já bem perto do terreno, há um longo momento de tensão. Fomos orientados a permanecer no ônibus e durante cerca de meia hora, no calor daquela noite quente, os nervos afloram e alguns dos passageiros começam a reclamar, principalmente pela falta de informações sobre o que acontecia.
Ocupamos mesmo sem os bambus. Posteriormente, soubemos que o caminhão e seu carregamento, haviam sido interceptados pela polícia, mas que já haviam sido liberados. Entramos no terreno e vamos em direção a uma construção abandonada que se encontrava no mesmo. Fomos informados que essa construção, lugar de dormitório dos pedreiros contratados pelo governo estadual, estava vazia desde o término do residencial Miguel Arraes, ligado ao Projeto Rio Maranguapinho34.
O “latifúndio urbano” estava sujo, com muito lixo, plantas, mato alto e sem nenhuma iluminação.Durante a ocupação, encontrava-se sem telhas e servia de banheiro improvisado e esconderijo para drogas. Foi preciso que de imediato, os donos das drogas retirassem sua mercadoria de lá para que não resultasse na criminalização do movimento. Retiraram, temerosos de uma possível presença policial devido à reintegração.
34 Muitos dos moradores que viviam às margens do Rio Maranguapinho foram removidos para o residencial Miguel Arraes, o qual teve recursos do PAC. Para maiores informações ver: Pequeno, (2013).
Fizemos a chamada para a primeira assembleia, que foi iluminada por lanternas e pela luz da lua, cheia naquela noite.
Um dos líderes do movimento, Robert, saúda os presentes e faz uma fala elencando os porquês da ocupação. É interrompido vez por outra, ou mesmo quando o próprio conclama palavras de ordem, a exemplo de “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga, não assanha o formigueiro”, ou:“Criar, criar, poder popular”,“MTST, a luta é pra valer” e “Fé na luta, venceremos!”. A necessidade básica do teto, o direito à moradia, o bairro Bom Jardim como local de resistência e a marginalização social são elementos de destaque nas colocações. Na primeira assembleia são elencados os acordos coletivos, que serão discutidos posteriormente.
Finalmente, chega ao local o caminhão com os bambus e muitos correm para o seu descarregamento. Inicia-se a construção dos primeiros barracos: embora com poucas ferramentas e apenas a iluminação da lua, mais de cem barracas são levantadas. A minoria destas foi coberta por lona preta, que veio em pequena quantidade devido aos parcos recursos do movimento. Enquanto alguns montam barracas, outros, como eu, fixam bandeiras, demarcando o território ocupado pelo MTST. Entre as bandeiras, fixamos numa das extremidades do terreno:
Figura 7 – Primeiras bandeiras fixadas nas extremidades do terreno
Sobre o terreno ocupado, caminho no chão da noite. Não durmo, nem tomo notas. Busco conversar com o máximo possível de pessoas, vivenciar aquele momento e refletir sobre os inúmeros sentimentos que perpassam minha cabeça. Estou vivendo a pesquisa participante, que, segundo Gajardo (1985)
[...] implica “viver junto” com a coletividade estudada. Em partilhar o seu cotidiano, a sua utilização do tempo e espaço: ouvir, em vez de tomar notas ou fazer registros; ver e observar, em vez de filmar; sentir, tocar em vez de estudar; “viver junto” em vez de visitar. É em geral preferível deixar de lado os cadernos de notas, os gravadores e os questionários. A pesquisa nesse ponto não é estruturada. Nessa situação de pesquisa, o pesquisador se “colocará como um diapasão” dos pesquisados. (p.58).
Deito próximo à construção abandonada que, poucas horas após a invasão, foi revitalizada, transformada em cozinha coletiva e depósito de materiaisde construção. Amanhece.(Ver Figura 8)
Figura 8– Amanhecer na Ocupação Povo Sem Medo