Ao se iniciar este estudo comparativo entre estas duas formas de racionalidade, é sempre importante entender a origem a respeito de como o termo substantividade surgiu. As influências das principais referências intelectuais, na verdade, foram se fundamentar nos estudos do francês Karl Polanyi na Columbia University que cunhou a concepção substantiva da economia, na qual “rejeitava a idéia de que a razão instrumental tem de ser empregada como ponto de partida para análise de toda e qualquer atividade econômica” (SERVA, 1997, p. 19). Polanyi, na década de 1940, já defendia que a economia podia ser percebida por um ponto de vista também social e institucionalizado na própria sociedade.
Guerreiro Ramos (1981, p. 9) ao se referir sobre a evolução da forma de racionalidade e a teoria crítica explica:
A racionalidade tem sido uma das preocupações centrais da chamada Escola de Frankfurt.2 Seus principais representantes, essencialmente, afirmam que, na sociedade moderna, a racionalidade se transformou num instrumento disfarçado de perpetuação da repressão social, em vez de ser sinônimo de razão verdadeira. Esses autores pretendem restabelecer o papel da razão como uma categoria ética e, portanto, como elemento de referência para uma teoria crítica da sociedade. Recusam, ao que parece, o pressuposto de Marx de que a racionalidade é inerente à história, e que o processo da sociedade moderna, através da crítica dialética de si mesma, conduzirá à Idade da razão.
O enfoque estabelecido entre a prática e a teoria encontra seu espaço e faz com que ao analisar as principais habilidades para o desempenho das atividades do administrador. Lacombe e Heilborn (2003) identificam como principais habilidades a comunicação e expressão, que podem ser claramente associadas a uma substantividade, ao raciocínio lógico, crítico e analítico, que sugere a existência de ambas as racionalidades, e afirma que o processo de aprendizagem “não ocorre só em cursos, mas também em leituras, filmes, em conversas com amigos e, principalmente no próprio trabalho”. Fica clara a necessidade de possibilitar aos administradores outras formas de construção de seus conhecimentos, não somente através dos recursos instrumentalizados. Vale ressaltar a experiência como forma de compreensão das dificuldades e situações vivenciadas no cotidiano do administrador.
Lacombe e Heilborn (2003, p. 60) identificam que a racionalidade substantiva para o administrador está inserida em sua habilidade humana que é “a capacidade de trabalhar com eficácia como membro de um grupo e de conseguir esforços cooperativos nesse grupo na direção dos objetivos estabelecidos”.
O estudo da racionalidade substantiva, abordada principalmente por Guerreiro Ramos (1981), proporcionou um grande debate dentro das perspectivas dessa abordagem, uma vez que, para a área administrativa, podia-se entender que a racionalidade substantiva estaria ligada diretamente à prática administrativa.
Serva (1997, p. 19) afirma que Guerreiro Ramos “reconheceu que, na grande maioria das organizações produtivas, a razão instrumental prevalece como lógica subjacente às ações, determinando o padrão de “sucesso” a ser atingido, um sucesso orientado pela lei do mercado egocêntrico na natureza”. Pode-se considerar que as leis e normas encontradas nas primeirasteorias administrativas que acabaram se tornando referência para a prática administrativa eram influenciadas pela instrumentalização que as teorias se propunham e tinham como consequência, pré-julgar as características substantivas da prática.
A opinião de Serva (1997, p. 23), ao referir-se à ação racional substantiva com base nos estudos realizados por Guerreiro Ramos e Habermas, define esta substantividade como:
Ação orientada para duas dimensões: na direção individual, que se refere à auto- realizarão, compreendida como concretização de potencialidades e satisfação; na dimensão grupal, que se refere ao entendimento, nas direções da responsabilidade e satisfação sociais.
Isto, de certa forma, demonstra uma preocupação em estabelecer uma relação de reflexão da prática administrativa e direcioná-la a um processo de confrontação e posicionamento, enquanto definição exata, para a predominância de uma racionalidade substantiva do docente de administração, já que este também deve ser inserido como agente transformador das realidades organizacionais. O docente de Administração, antes de tudo, é administrador e como tal tem a responsabilidade de lidar com as questões práticas de seu trabalho e estimular os alunos nessa prática, uma vez que estes têm mostrado descontentamento pela escassa experiência prática que adquirem na Universidade (GRAEML; GRAEML; GRACIÁ, 2008).
A ação racional substantiva para Serva (1997), direcionada a este profissional com dupla função de administrar e ensinar, reflete e contempla a constituição de um processo de auto-realização, no qual o indivíduo é capaz de entender e potencializar sua satisfação, entender acordos racionais em virtude da responsabilidade e satisfação sociais, o julgamento ético, “através do debate racional sobre as pretensões de validez emitidas pelos indivíduos nas interações” (SERVA, 1997, p. 22).
Barros e Passos (2000, p. 170) analisam que:
A redenção desta prática começou a ser resgatada pelos professores profissionais e os recém integrados docentes ex-alunos – muito provavelmente munidos da ainda lembrada experiência discente e cientes das dificuldades do processo de ensino- aprendizagem - que começavam a desenvolver práticas de ensino que conquistavam o comprometimento dos alunos.
A intenção dos autores é fazer com que possamos entender que o impasse sobre qual racionalidade se encontra faz parte de seu contexto de interpretações e utilizações, sendo preparada para ser mencionada de acordo com as várias possibilidades do docente em sala de aula, cujas experiências também funcionam como ferramentas reflexivas. Também prevalece a sua autenticidade, valores emancipatórios, uma vez que se reporta ao aperfeiçoamento, ao respeito à individualidade além de liberdade e comprometimento característicos tanto na prática administrativa quanto na docência. Por fim, falam sobre a necessidade de autonomia para que o profissional possa expressar-se livremente, distante o bastante das algemas instrumentais da sua própria formação acadêmica, visto que a prática administrativa se transforma justamente, na possibilidade de expressão de suas competências.